Em Portugal, mais de meio milhão de pessoas vivem após um diagnóstico de cancro. Os tratamentos salvam vidas, mas deixam marcas. É tempo de falar do que acontece depois.

Artigo da responsabilidade da Dra. Mariana Malheiro. Médica oncologista. Unidade do Sobrevivente de Cancro do Hospital CUF Tejo – Lisboa

 

O dia em que o tratamento do cancro termina devia ser o mais feliz. E, em certa medida, é. Mas para muitas pessoas, é também o mais assustador.

Assustador porque, de repente, deixam de ter a rede de segurança das consultas frequentes, dos tratamentos regulares, da equipa sempre presente. Assustador porque o corpo e a mente já não são os mesmos – e ninguém os preparou para isso. Assustador porque paira uma questão: e agora?

Este artigo é sobre o que acontece quando a doença oncológica fica para trás, mas as suas marcas – físicas, emocionais, sociais – continuam presentes. E sobre o que já se está a fazer em Portugal para garantir que sobreviver ao cancro significa, de facto, viver bem.

MAIS DIAGNÓSTICOS, MAIS SOBREVIVENTES

O cancro é a segunda causa de morte em Portugal. Segundo o GLOBOCAN (2022), foram diagnosticados quase 70 mil novos casos num único ano, e estima-se que, até 2040, este número aumente cerca de 20%.

Mas há também uma face desta realidade que é francamente positiva: as taxas de sobrevivência têm vindo a melhorar de forma significativa. No cancro da mama, a sobrevivência aos cinco anos ultrapassa os 90%; no cancro da próstata, atinge os 96%. Portugal apresenta, aliás, taxas de sobrevivência superiores à média europeia nos cancros mais frequentes. Hoje, calcula-se que mais de meio milhão de portugueses vivam após um diagnóstico de cancro.

Estes números representam uma conquista extraordinária da Medicina moderna. Mas colocam-nos perante uma nova pergunta, que durante muito tempo ficou por fazer: o que acontece a estas pessoas depois?

MARCAS QUE FICAM

Há uma ideia muito enraizada na nossa sociedade de que o fim do tratamento do cancro significa o regresso à normalidade. Para muitos sobreviventes, esse momento marca o início de uma fase nova, muitas vezes difícil e solitária – uma espécie de terra de ninguém entre a doença e a saúde plena.

Os tratamentos oncológicos – cirurgia, quimioterapia, radioterapia, hormonoterapia, imunoterapia – são eficazes a combater a doença, mas podem deixar sequelas significativas que se prolongam por meses ou anos. Algumas aparecem durante o tratamento e não desaparecem; outras surgem tardiamente, quando já ninguém as espera.

A fadiga é, provavelmente, a queixa mais comum. Não é o cansaço normal de um dia longo – é uma exaustão profunda que não melhora com repouso e que limita a capacidade de trabalhar, de cuidar da casa, de brincar com os filhos.

Mas a lista não fica por aqui: alterações na memória e concentração (por vezes, chamadas de chemobrain), dor crónica, neuropatia periférica (formigueiro e dormência nas mãos e nos pés), problemas cardíacos, alterações hormonais, menopausa precoce, disfunção sexual, infertilidade, linfedema, osteoporose e alterações de peso são efeitos tardios frequentes.

E não é apenas o corpo que sofre. A dimensão emocional e psicológica é enorme. Muitos sobreviventes experimentam ansiedade, sintomas depressivos e até perturbação de stress pós-traumático. O medo da recidiva – de que o cancro volte – é uma sombra constante. As relações familiares e conjugais são postas à prova. O regresso ao trabalho pode ser um desafio inesperadamente difícil.

O que torna tudo mais complexo é que, aos olhos dos outros, a pessoa “já está boa”. E isto cria um silêncio perigoso. O sobrevivente sente que não tem legitimidade para se queixar – afinal, venceu o cancro. Mas, sem um acompanhamento diferenciado, viver mais não é sinónimo de viver bem.

UMA NOVA ABORDAGEM

A comunidade médica internacional reconhece hoje que a sobrevivência ao cancro é uma fase clínica que exige cuidados específicos. Não se trata apenas de vigiar se o cancro volta: trata-se de cuidar da saúde global de alguém que passou por uma experiência transformadora.

É nesta visão que se enquadra o conceito de Unidade do Sobrevivente de Cancro – um modelo de cuidados integrados, multidisciplinares, centrado não na doença, mas na pessoa. Cada sobrevivente é avaliado de forma individualizada, com base no tipo de cancro que teve e nos tratamentos realizados. A partir daí, é criado um plano personalizado que pode envolver Cardio-Oncologia, Psico-Oncologia, Nutrição, Reabilitação Física, Endocrinologia, Dermatologia, Medicina da Dor e Sexologia, entre outras áreas.

SOBREVIVER BEM: UM DESAFIO COLETIVO

A sobrevivência ao cancro não deve ser medida apenas em anos – deve ser medida na qualidade desses anos. Cuidar de quem sobreviveu é uma responsabilidade que pertence a todos: aos profissionais de saúde, que precisam de estar atentos às necessidades pós-tratamento; às instituições, que devem criar respostas especializadas; à sociedade, que deve acolher sem estigma; e aos próprios sobreviventes, que merecem saber que não estão sozinhos.

A conversa sobre o que acontece depois do cancro está apenas a começar, em Portugal. E cada vez mais pessoas, profissionais e instituições estão comprometidos em transformá-la numa prioridade. Exemplo disso é o II Seminário do Sobrevivente de Cancro, que aconteceu a 29 de maio de 2026, em Lisboa: um espaço de partilha e conhecimento dedicado aos sobreviventes de cancro, seus cuidadores e profissionais de saúde.

Porque sobreviver ao cancro é um ponto de partida – não um ponto de chegada.

Leia o artigo completo na edição de maio 2026 (nº 371)