Sentir as pernas pesadas ou inchadas ao final do dia pode parecer algo banal, mas não deve ser encarado como inevitável. Reconhecer precocemente os sintomas da doença venosa crónica – e procurar ajuda médica – permite prevenir complicações e travar a progressão de uma doença com grande impacto na qualidade de vida.
Artigo da responsabilidade da Dra. Joana Ferreira. Médica especialista em Angiologia e Cirurgia Vascular
Com a chegada dos meses quentes de verão, muitas pessoas começam a notar uma sensação de peso nas pernas, inchaço nos tornozelos, desconforto ao final do dia ou mesmo dor e cansaço nas pernas que parecem agravar-se com o calor.
Para muitos, estes sintomas são encarados como uma consequência natural das altas temperaturas ou do ritmo exigente da vida quotidiana. No entanto, aquilo que frequentemente é desvalorizado pode corresponder às primeiras manifestações de uma doença muito comum, mas ainda pouco reconhecida e desvalorizada: a doença venosa crónica.
DOENÇA DESVALORIZADA
A doença venosa crónica, cuja manifestação mais conhecida são as varizes, continua a ser frequentemente encarada como um problema meramente estético ou uma consequência do envelhecimento. Esta perceção contribui para que muitos doentes convivam durante anos com sintomas persistentes, sem procurarem tratamento, permitindo a progressão da doença.
Sabemos hoje que a doença venosa crónica é uma patologia crónica, progressiva e com impacto significativo na qualidade de vida dos doentes. Em Portugal, estima-se que afete cerca de um terço da população. Os números são particularmente expressivos nas mulheres, sendo que cerca de dois milhões de portuguesas com mais de 30 anos apresentam esta doença.
SINTOMAS MAIS INTENSOS NO VERÃO
Os sintomas são mais intensos nos meses quentes de verão. Não é por acaso que muitos doentes procuram ajuda médica precisamente nesta altura do ano. O verão funciona como um amplificador dos sintomas e torna mais evidente uma doença que, muitas vezes, já estava presente há vários anos. O problema é que muitas pessoas continuam a acreditar que estas queixas são normais, associando-as exclusivamente ao calor, à idade ou ao cansaço do dia a dia.
Importa sublinhar que sintomas persistentes não devem ser considerados normais. A sensação de pernas pesadas, o inchaço recorrente, a dor, a comichão, a sensação de calor local ou as cãibras podem constituir sinais precoces de doença venosa crónica. Mesmo alterações aparentemente ligeiras, como os chamados “derrames” ou pequenas veias visíveis na pele, podem representar manifestações iniciais da doença e justificar uma avaliação médica.
A relevância do diagnóstico precoce torna-se ainda mais evidente quando consideramos a natureza progressiva desta patologia. Sem acompanhamento adequado, a doença tende a evoluir ao longo do tempo. Nas fases mais avançadas podem surgir complicações como alterações da pele, pigmentação cutânea, eczema venoso, endurecimento dos tecidos, trombose venosa superficial ou varicorragia (hemorragia proveniente de uma variz). Estas situações aumentam a complexidade do tratamento e têm um impacto significativo na autonomia e qualidade de vida dos doentes.
IMPACTOS EM VÁRIAS DIMENSÕES
Mas o impacto da doença venosa crónica vai muito além da sua componente física. O desconforto persistente e as limitações funcionais podem interferir com a atividade profissional, dificultar tarefas do quotidiano e reduzir a participação em atividades sociais e familiares.
Paralelamente, as alterações estéticas associadas às varizes podem afetar a autoestima e a imagem corporal, contribuindo para uma deterioração do bem-estar emocional.
Existe ainda uma dimensão frequentemente esquecida: o impacto socioeconómico da doença. Em Portugal, os custos associados ao tratamento da doença venosa crónica representam várias centenas de milhões de euros por ano. Além disso, a limitação funcional pode traduzir-se em absentismo laboral, diminuição da produtividade e, nos casos mais graves, reforma antecipada.
Vários fatores contribuem para o aparecimento e progressão doença venosa crónica. A predisposição genética desempenha um papel importante, mas fatores como a obesidade, o sedentarismo, o envelhecimento e profissões que obrigam a longos períodos em pé ou sentado aumentam significativamente o risco. A obesidade, em particular, está associada a formas mais graves da doença e a uma progressão mais rápida.
COMO PREVENIR? COMO TRATAR?
Embora nem sempre seja possível prevenir totalmente o aparecimento da doença venosa crónica, existem medidas simples que podem ajudar a controlar os sintomas e a retardar a sua evolução, nomeadamente: a prática regular de exercício físico, como caminhar, nadar ou andar de bicicleta; evitar permanecer muitas horas consecutivas sentado ou em pé; e elevar as pernas sempre que possível são estratégias importantes.
Durante os meses mais quentes, pode ser útil procurar ambientes frescos, evitar a exposição prolongada a fontes de calor intenso e privilegiar duches de água fria nas pernas.
Outro aspeto frequentemente subvalorizado é a utilização de meias de compressão. Apesar de persistirem alguns preconceitos relativamente ao seu uso, a terapêutica compressiva continua a ser uma das medidas mais eficazes para aliviar sintomas e melhorar o retorno venoso. Atualmente existem opções mais confortáveis e adaptadas às necessidades de cada doente.
Além destas medidas, existem tratamentos farmacológicos, incluindo medicamentos venoativos, bem como diferentes procedimentos minimamente invasivos que podem ser recomendados em função da gravidade e das características de cada caso. A decisão terapêutica deve ser sempre individualizada e orientada por um médico com experiência na área da doença venosa.
Leia o artigo completo na edição de julho-agosto 2026 (nº 373)














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