Quando se pensa em psoríase, a maioria das pessoas associa imediatamente a doença às lesões na pele. No entanto, existe uma realidade menos conhecida, mas com um impacto potencialmente muito significativo na vida dos doentes: a artrite psoriásica.
Artigo da responsabilidade da Dra Patricia Nero. Médica reumatologista
Uma outra face da doença, a artrite psoriásica, provoca inflamação crónica que afeta as articulações, tendões e estruturas. Estima-se que possa surgir em cerca de um terço das pessoas com psoríase. Em alguns grupos de maior risco, como os doentes com psoríase com envolvimento das unhas ou do couro cabeludo, esta proporção pode mesmo aproximar-se dos 50 por cento.
Doença subdiagnosticada
Apesar destes números, a artrite psoriásica continua a ser frequentemente subdiagnosticada. Uma das principais razões prende-se com o facto de muitos doentes não estabelecerem uma ligação entre a psoríase que afeta a pele e sintomas aparentemente distintos, como dores articulares, dedos inchados, dores lombares persistentes ou desconforto nos tendões. Durante anos, a psoríase foi vista sobretudo como uma doença da pele, o que contribuiu para que manifestações articulares passassem despercebidas ou fossem atribuídas a outras causas.
Este atraso no reconhecimento da doença tem consequências importantes. Em primeiro lugar, traduz-se numa diminuição da qualidade de vida. A dor, a fadiga e a limitação funcional afetam o desempenho profissional, a vida familiar e as atividades do dia a dia.
Em segundo lugar, a inflamação persistente pode conduzir a danos articulares irreversíveis, com deformações e perda de função que já não podem ser revertidas. Por fim, sabemos hoje que a intervenção precoce aumenta significativamente a probabilidade de controlo eficaz da doença, permitindo obter melhores resultados terapêuticos a longo prazo.
Ferramenta de base científica
Existem atualmente ferramentas simples que podem ajudar a identificar precocemente os sinais de alerta. Uma dessas ferramentas é o Questionário EARP (Early Arthritis for Psoriatic Patients), um questionário de base científica, desenvolvido especificamente para pessoas com psoríase. De resposta rápida, avalia sintomas frequentemente associados à artrite psoriásica, incluindo dores nas articulações das mãos e dos pés, dor lombar inflamatória, inflamação dos tendões, episódios de dactilite – o conhecido “dedo em salsicha” – e outros sinais característicos da doença.
A PSOPortugal disponibiliza este questionário no seu site, constituindo uma ferramenta de base científica que ajuda as pessoas com psoríase a identificar sinais e sintomas que podem estar associados à artrite psoriásica.
Paralelamente, a associação está a promover uma campanha de sensibilização para incentivar a utilização deste questionário e alertar para a importância do reconhecimento precoce da doença. Esta iniciativa representa um importante contributo para ajudar os doentes a reconhecer sintomas que, de outra forma, poderiam ser desvalorizados ou ignorados.
Importa, contudo, sublinhar que o Questionário EARP não substitui uma avaliação médica especializada. O seu valor reside na capacidade de alertar para a possibilidade de envolvimento articular e de preparar melhor a consulta médica, permitindo uma conversa mais informada e objetiva entre o doente e os profissionais de saúde.
Evolução das opções terapêuticas
Também é fundamental combater alguns receios que ainda persistem em torno do tratamento. Muitos doentes chegam à consulta preocupados com experiências antigas ou mesmo relatos de familiares que utilizaram terapêuticas disponíveis há várias décadas. É importante esclarecer que a realidade atual é muito diferente. Nos últimos anos, assistimos a uma evolução notável das opções terapêuticas, com medicamentos cada vez mais eficazes e seguros. Embora ainda não exista uma cura definitiva, atualmente é possível controlar a inflamação, prevenir danos estruturais e, na maioria dos doentes, alcançar estados de remissão da doença.
A mensagem mais importante é simples: qualquer pessoa com psoríase que apresente dores articulares, dores lombares persistentes, inflamação dos tendões ou dedos inchados não deve ignorar estes sinais. O preenchimento do Questionário EARP pode constituir um primeiro passo importante. Quando existem três ou mais respostas positivas, a probabilidade de artrite psoriásica justifica a referenciação para uma consulta de Reumatologia, onde poderá ser realizada uma avaliação adequada e definido o melhor plano de acompanhamento e tratamento.
Diagnosticar cedo é a melhor forma de proteger as articulações e preservar a qualidade de vida. E há uma mensagem de esperança que importa reforçar: hoje existem tratamentos eficazes para todos os tipos e graus de gravidade da artrite psoriásica. O mais importante é procurar atempadamente o especialista que poderá ajudar a controlar a doença e a manter uma vida plena e ativa.
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