A infertilidade deixou de ser um tema exclusivamente associado às mulheres, mas a perceção pública continua a não refletir essa realidade. Dados recentes sugerem uma tendência de diminuição da qualidade do esperma em vários países, ainda assim muitos homens permanecem pouco informados e pouco sensibilizados para a sua própria saúde reprodutiva.
“A fertilidade masculina continua a ser subvalorizada, tanto pelos próprios homens como pela sociedade em geral. Em muitos casos, a avaliação só acontece depois de várias tentativas falhadas de gravidez, quando poderia e deveria ser mais precoce”, explica o Dr. Samuel Ribeiro, especialista em Ginecologia e Medicina da Reprodução.

De acordo com um estudo recente sobre literacia em saúde masculina, uma parte significativa dos homens revela dificuldades em reconhecer sinais de alerta, desconhece fatores de risco associados à fertilidade e tende a adiar consultas de rotina e acompanhamento médico. Este défice de informação pode atrasar diagnósticos e comprometer o sucesso de tratamentos.
Por outro lado, uma investigação com uma amostra de 120 mil homens mostrou que a proporção de homens com risco de necessitar de tratamento de fertilidade aumentou de forma acentuada nos últimos anos, passando de 12,4% em 2004 para 21,3% em 2017, o que significa um aumento de 9% em pouco mais de uma década.
Atualmente, estima-se que o fator masculino esteja presente em cerca de metade dos casos de infertilidade conjugal. Ainda assim, persistem ideias erradas que associam a dificuldade em engravidar sobretudo à mulher, o que contribui para atrasar a investigação do lado masculino, sublinha o especialista e diretor clínico do IVI Lisboa.
Entre os principais fatores que podem afetar a fertilidade dos homens estão o tabagismo, o consumo excessivo de álcool, o stress, a obesidade, a exposição ao calor excessivo ou a substâncias tóxicas, bem como algumas doenças crónicas. No entanto, muitos destes fatores são desconhecidos ou desvalorizados.
“O primeiro passo é reconhecer que a fertilidade também é uma questão masculina. A partir daí, torna-se mais fácil adotar comportamentos preventivos e procurar ajuda atempadamente”, acrescenta o especialista.
MAIS INFORMAÇÃO PODE FAZER A DIFERENÇA
O Dr. Samuel Ribeiro defende que aumentar a literacia em saúde masculina é essencial para inverter esta tendência. O acesso a informação clara, baseada em evidência, pode contribuir para uma maior consciência dos riscos e para uma abordagem mais proativa à saúde reprodutiva.
A avaliação da fertilidade masculina é simples e inclui, na maioria dos casos, a análise do esperma. Quando são identificadas alterações, existem soluções que vão desde mudanças no estilo de vida até técnicas de reprodução assistida, como a injeção intracitoplasmática de espermatozoides (ICSI).
“Quanto mais cedo for feito o diagnóstico, maiores são as hipóteses de sucesso. A informação e a prevenção têm um papel decisivo neste processo”, refere o médico.
Acrescenta ainda que a Organização Mundial da Saúde (OMS) tem vindo a chamar a atenção para a importância de dados mais detalhados por idade e causa, bem como de uma avaliação precoce e conjunta do casal, uma vez que o fator masculino está presente numa proporção significativa dos casos de infertilidade conjugal.
Este alerta da OMS ganha ainda mais relevância numa altura em que vários estudos internacionais apontam para uma diminuição das taxas de fertilidade em diferentes regiões do mundo. Um estudo publicado em 2024 na revista científica The Lancet, desenvolvido no âmbito do projeto internacional Global Burden of Diseases, concluiu que, até 2100, apenas 6 dos 204 países analisados deverão manter níveis de natalidade suficientes para assegurar a reposição sustentável da população.














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