Na prática clínica em Oftalmologia, é frequente receber doentes que chegam à consulta depois de diversas trocas de óculos progressivos, sem resultado. Diferentes graduações, diferentes tentativas. E a visão que não melhora. Em muitos destes casos, o problema não está nos óculos. Está na retina.
Artigo da responsabilidade da Prof.ª Dra. Keissy Sousa. Médica oftalmologista.
A maioria dos problemas visuais é de origem refrativa, o que quer dizer que se resolve com a graduação certa. As lentes progressivas são hoje uma solução eficaz para quem precisa de corrigir simultaneamente a visão de longe e de perto, algo que acontece naturalmente a partir dos 40 anos com a presbiopia.
Mas há um pressuposto que raramente é explicado: as progressivas funcionam bem quando a retina está saudável.
A retina é o “ecrã” do olho — a camada de células nervosas na parte posterior que transforma a luz em imagem. Quando esta estrutura está comprometida, nenhuma lente, por mais bem calibrada que esteja, consegue compensar o que se perde ali. A graduação corrige a forma como a luz entra no olho. Não corrige o que acontece a partir daí.
As doenças que passam despercebidas — até que já não passam
Doenças como a doença macular da idade, as membranas epirretinianas, a retinopatia diabética ou os buracos maculares afetam precisamente a zona central da retina — a mácula — que usamos para ler, ver detalhes e reconhecer rostos.
O que torna estas doenças particularmente difíceis é o seu início silencioso. Os primeiros sintomas são vagos: letras ligeiramente distorcidas, necessidade de mais luz para ler, uma sensação de que “a visão não está bem” apesar de uma graduação nova e supostamente correta. São sintomas fáceis de atribuir à presbiopia, ao cansaço visual, ou simplesmente à idade.
É aqui que se perde tempo precioso.
Lentes progressivas com retina doente: uma combinação difícil
As lentes progressivas têm uma geometria ótica complexa — zonas distintas para longe, perto e distância intermédia, com áreas de transição que exigem movimentos oculares precisos e uma capacidade de adaptação que depende da retina estar a funcionar bem.
Quando há metamorfopsia — a distorção das imagens em que linhas retas aparecem onduladas, um sintoma típico de doença macular — as progressivas agravam a experiência visual em vez de a melhorar. O cérebro recebe duas fontes de distorção em simultâneo: a da lente e a da doença. O resultado é uma visão que frustra, que cansa e que não se resolve com nenhuma mudança de óculos.
Quando os dois olhos estão afetados de forma assimétrica — o que acontece frequentemente nestas doenças — a dificuldade é ainda maior. O cérebro tem de fundir duas imagens com qualidades muito distintas, tornando as progressivas particularmente incómodas ou mesmo impossíveis de tolerar.
O tempo perdido tem consequências
A preocupação central não é apenas a frustração de quem anda meses sem perceber o que se passa. É o tempo perdido no diagnóstico. Em doenças como a doença macular do tipo neovascular ou o edema macular diabético, existem tratamentos eficazes — as injeções intravítreas — que, quando realizados atempadamente, podem estabilizar ou mesmo recuperar visão. O tempo é crítico nesta frase.
Um exame completo da retina, com dilatação da pupila e tomografia de coerência ótica (OCT), permite detetar alterações precoces, mais difíceis de avaliar com um exame geral. É indolor, rápido e pode mudar completamente o rumo clínico.
A mensagem que importa
A sua consulta deverá ser sempre realizada por um oftalmologista. Além de lhe prescrever a refração adequada, também observa a saúde das suas estruturas anatómicas e funcionais.
Se tem óculos progressivos e a visão continua a não estabilizar: procure um oftalmologista e peça um exame completo do fundo do olho.
Se tem diabetes, hipertensão ou história familiar de doença macular: não espere pelos sintomas. A retina pode estar a deteriorar-se antes de qualquer sinal visível.
Os óculos progressivos são uma ferramenta extraordinária — mas não são uma solução universal. Quando a visão não melhora com eles, a resposta pode estar numa camada de 300 micrómetros na parte posterior do olho. E essa camada não se avalia sem um exame oftalmológico completo.
Este artigo conta com o apoio institucional da Shamir em Portugal















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