O sol é essencial à vida. Influencia o humor, regula o ritmo biológico, promove atividades ao ar livre e participa na síntese de vitamina D. No entanto, a exposição solar excessiva continua a ser o principal fator ambiental associado ao envelhecimento precoce da pele e ao desenvolvimento de cancro cutâneo. Em Portugal, onde o clima favorece longos períodos de exposição solar, é fundamental encontrar um equilíbrio entre aproveitar os benefícios do sol e reduzir os riscos associados.
Artigo da responsabilidade do Prof. Dr. João Maia e Silva. Dermatologista, membro da direção da Sociedade Portuguesa de Dermatologia (SPDV)
O cancro da pele é, atualmente, o tumor maligno mais frequente no ser humano. Estima-se que existam milhões de novos casos por ano, em todo o mundo. Entre estes, destacam-se os carcinomas basocelular e espinocelular, geralmente menos agressivos, e o melanoma, menos frequente, mas responsável pela maioria das mortes por cancro cutâneo.
A incidência do melanoma tem aumentado de forma significativa nas últimas décadas, sobretudo em populações de pele clara e em países com hábitos recreativos de exposição solar intensa. Em muitos países europeus, a incidência duplicou ou triplicou em menos de 30 anos.
MILHARES DE NOVOS CASOS POR ANO
Em Portugal, surgem anualmente vários milhares de novos casos de cancro da pele. O melanoma afeta atualmente milhares de portugueses por ano e continua associado a mortalidade relevante, sobretudo quando diagnosticado tardiamente. Apesar dos avanços terapêuticos recentes, o prognóstico continua a depender fortemente do diagnóstico precoce. Quando identificado numa fase inicial, o melanoma apresenta taxas de sobrevivência muito elevadas. Em contrapartida, um diagnóstico tardio pode permitir disseminação para outros órgãos, tornando a doença potencialmente fatal.
A radiação ultravioleta (UV) é o principal fator responsável pelo desenvolvimento destes tumores. A exposição cumulativa ao longo da vida está particularmente associada aos carcinomas cutâneos, enquanto as queimaduras solares intensas, sobretudo na infância e adolescência, aumentam significativamente o risco de melanoma. Uma única queimadura solar com bolhas durante a infância pode praticamente duplicar o risco futuro de melanoma.
GRUPOS VULNERÁVEIS E PERCEÇÃO DE RISCO
Existem grupos especialmente vulneráveis. As crianças merecem atenção prioritária, porque a pele infantil possui menor capacidade de defesa face à radiação UV e porque parte importante da exposição solar acumulada ocorre nas primeiras décadas de vida. Pessoas de pele clara, olhos claros, cabelos louros ou ruivos, indivíduos com múltiplos sinais (“nevos”), antecedentes pessoais ou familiares de melanoma, imunossuprimidos e pessoas que trabalham ou praticam desporto ao ar livre apresentam igualmente maior risco.
Profissões em áreas como agricultura, construção civil, pesca, nadadores-salvadores ou treino desportivo implicam muitas horas de exposição solar cumulativa. Também os atletas e praticantes de atividades recreativas ao ar livre podem subestimar o risco, sobretudo quando o objetivo principal da atividade não é “apanhar sol”. Um corredor, ciclista, surfista ou jogador de ténis pode passar várias horas sob elevada radiação UV sem percecionar o mesmo risco associado a um dia de praia.
Esta perceção de risco é um aspeto particularmente importante. Muitas pessoas ajustam os seus cuidados solares consoante o contexto. Tendem a usar protetor solar na praia, mas não durante caminhadas, prática desportiva, jardinagem, esplanadas, passeios de barco ou atividades urbanas. No entanto, a pele não distingue o contexto social da exposição. O dano solar depende essencialmente da intensidade da radiação UV e do tempo de exposição. Por isso, atividades consideradas “inofensivas” podem contribuir significativamente para o risco cumulativo de cancro cutâneo.
PREPARAÇÃO DA PELE
A preparação para a exposição solar deve começar antes da ida para a praia ou para atividades ao ar livre. O primeiro passo é compreender que o horário solar continua a ser uma das medidas de proteção mais eficazes. Entre as 11h e as 17h, especialmente durante primavera e verão, a radiação UV atinge níveis particularmente elevados em Portugal. Sempre que possível, deve procurar-se sombra e reduzir a exposição direta durante estas horas.
O vestuário desempenha igualmente um papel central na proteção solar e continua frequentemente subvalorizado. Uma camisola de manga comprida, tecidos densos, chapéu de abas largas e óculos de sol com proteção UV podem reduzir substancialmente a quantidade de radiação recebida pela pele e pelos olhos. Em algumas situações, o vestuário protege mais eficazmente do que um protetor solar mal aplicado. Atualmente existem peças de roupa com proteção UV certificada, particularmente úteis para crianças, desportistas e profissionais expostos diariamente ao sol.
IMPORTÂNCIA DO PROTETOR SOLAR
O protetor solar deve ser entendido como complemento e não como autorização para exposição prolongada. A escolha do produto deve ter em conta o tipo de pele, intensidade da exposição e atividade realizada. Recomenda-se geralmente fator de proteção solar (FPS) 30 ou 50, com proteção de largo espectro contra UVA e UVB. Em crianças, pessoas de pele muito clara ou indivíduos com antecedentes de cancro cutâneo, deve privilegiar-se FPS 50+.
A forma de aplicação é tão importante quanto o fator escolhido. Estudos mostram que a maioria das pessoas aplica apenas cerca de metade da quantidade necessária para atingir a proteção indicada na embalagem. O protetor deve ser aplicado cerca de 20 a 30 minutos antes da exposição solar e reaplicado de duas em duas horas, ou após banho, transpiração intensa ou secagem com toalha. As áreas frequentemente esquecidas incluem orelhas, couro cabeludo em pessoas com calvície, dorso das mãos, pés e região posterior do pescoço.
Importa também desmontar um mito frequente: não é necessário correr riscos de queimadura solar para produzir vitamina D adequada. A síntese de vitamina D ocorre rapidamente e mesmo indivíduos que usam protetor solar conseguem produzir quantidades suficientes em contexto de exposição solar habitual. Num único dia de praia, mesmo com aplicação de protetor solar, a produção de vitamina D tende a ser mais do que adequada para a maioria das pessoas. Assim, a procura deliberada de bronzeado intenso ou queimadura “por causa da vitamina D” não encontra suporte científico e pode aumentar desnecessariamente o risco de cancro cutâneo.
Leia o artigo completo na edição de junho 2026 (nº 372)














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