Muitas substâncias de origem natural podem exercer efeitos significativos no organismo – e nem sempre positivos. E o fígado é quem mais sofre. 

Artigo da responsabilidade da Dra Teresa Afra Rosa. Médica Interna de Gastrenterologia no Hospital da Luz. Membro da Sociedade Portuguesa de Gastrenterologia (SPG)

 

Existe a perceção amplamente difundida de que tudo o que é “natural” é seguro. Esta ideia está longe de corresponder à realidade. De facto, muitas substâncias de origem natural podem exercer efeitos significativos no organismo – e nem sempre positivos. Em particular, o fígado, órgão central no metabolismo e desintoxicação, encontra-se entre os mais vulneráveis aos efeitos adversos de suplementos e produtos naturais.

O fígado desempenha funções essenciais à vida. Atua como uma verdadeira central de processamento químico, filtrando substâncias, metabolizando nutrientes, neutralizando toxinas e eliminando compostos potencialmente nocivos. Este papel torna-o especialmente suscetível a lesões, sobretudo quando exposto a substâncias com potencial tóxico.

O QUE É A HEPATITE TÓXICA?

A hepatite tóxica, também designada como DILI (“drug-induced liver injury”, em Português “lesão hepática induzida por fármacos”), corresponde a uma inflamação do fígado causada pela exposição a agentes químicos, sejam eles medicamentos, suplementos ou produtos naturais. Trata-se de uma condição cuja verdadeira incidência é difícil de determinar com precisão, uma vez que muitos casos podem não ser diagnosticados ou atribuídos corretamente.

Estudos sugerem uma incidência entre 14 e 19 casos por 100.000 habitantes por ano. Apesar de parecer um número reduzido, a sua relevância clínica é significativa. A hepatite tóxica constitui atualmente uma das principais causas de insuficiência hepática aguda nos países desenvolvidos. As taxas de mortalidade associadas podem variar entre 10% e 50%, dependendo da gravidade do quadro e da rapidez da intervenção.

Tradicionalmente, os medicamentos, como antibióticos e anti-inflamatórios, são os principais responsáveis por este tipo de lesão. No entanto, nas últimas décadas, tem-se observado um aumento preocupante de casos associados a produtos naturais e suplementos alimentares. Este fenómeno acompanha o crescimento do consumo destes produtos, frequentemente promovidos como alternativas seguras e “livres de químicos”.

Entre os compostos naturais implicados em casos de toxicidade hepática encontram-se extratos concentrados de chá verde provenientes da planta Camellia sinensis, preparações à base de kava-kava, Centella asiatica, Morinda citrifolia (Noni) e Aloe vera. Embora naturais, estas substâncias podem desencadear reações adversas graves, sobretudo quando utilizadas em doses elevadas, por períodos prolongados ou em associação com outros compostos.

POR QUE RAZÃO OS SUPLEMENTOS NATURAIS REPRESENTAM UM RISCO?

O aumento do consumo de suplementos está intimamente associado à procura por soluções rápidas e eficazes para problemas como excesso de peso, fadiga, ansiedade ou baixo rendimento físico. Contudo, a procura de informação ocorre frequentemente em contextos pouco regulados, como as redes sociais, sem a devida orientação profissional.

Existem três fatores principais que contribuem para o risco associado a estes produtos:

Falta de rigor científico. Ao contrário dos medicamentos, muitos suplementos não são sujeitos a ensaios clínicos robustos antes de serem colocados no mercado. Isso significa que a sua eficácia e segurança frequentemente não estão devidamente comprovadas.

Rótulos incompletos ou pouco claros. A composição destes produtos pode ser complexa, incluindo múltiplos ingredientes, nem sempre devidamente identificados ou quantificados. Em alguns casos, podem mesmo conter metais pesados ou substâncias químicas não declaradas no rótulo.

Facilidade de acesso. A venda livre, especialmente através da internet, permite que qualquer pessoa adquira e consuma estes produtos sem avaliação médica ou aconselhamento farmacêutico. Esta ausência de controlo aumenta o risco de uso inadequado e de interações perigosas com outros medicamentos.

A QUE SINTOMAS DEVEMOS ESTAR ATENTOS?

A hepatite tóxica pode manifestar-se de formas muito variadas. Em alguns casos, não provoca sintomas evidentes, sendo apenas detetada através de alterações nas análises laboratoriais. Noutras situações, pode evoluir para quadros graves e potencialmente fatais.

Os sintomas mais comuns incluem fadiga, náuseas, vómitos, dor abdominal, perda de apetite e mal-estar geral. Em fases mais avançadas, podem surgir sinais característicos de lesão hepática, como icterícia (coloração amarelada da pele e dos olhos), urina escura, fezes claras e comichão intensa.

A presença destes sintomas durante ou após a toma de suplementos ou produtos naturais deve ser encarada com seriedade. Nestes casos, é fundamental suspender imediatamente o produto e procurar avaliação médica. O diagnóstico precoce pode ser determinante para evitar complicações graves.

COMO SE PODE PROTEGER?

Embora nem todos os suplementos sejam perigosos, é essencial adotar uma abordagem cautelosa e informada. A ideia de que “natural” é sinónimo de seguro deve ser substituída por uma visão mais crítica e baseada na evidência.

Evitar a automedicação é um dos princípios fundamentais. Mesmo produtos aparentemente inofensivos, como chás ou vitaminas, podem causar efeitos adversos.

Outro aspeto importante é evitar o consumo desnecessário de substâncias. Muitas vezes, uma alimentação equilibrada e um estilo de vida saudável são suficientes para melhorar o bem-estar.

A comunicação com profissionais de saúde é igualmente crucial. Informar o médico sobre todos os produtos que está a tomar, incluindo suplementos e preparações naturais, permite avaliar possíveis riscos, interações e benefícios.

Por fim, é importante desconfiar de promessas exageradas, tal como os produtos que prometem resultados rápidos e milagrosos.

Leia o artigo completo na edição de maio 2026 (nº 371)