A visão é, talvez, o sentido que mais facilmente tomamos como garantido. Mas é também um dos que mais condiciona a forma como aprendemos, trabalhamos, nos deslocamos e nos relacionamos com o mundo. Ainda assim, em Portugal, a saúde visual continua longe de ocupar o lugar que merece nas prioridades da saúde pública.

Artigo da responsabilidade de: Dra. Amélia Nunes, PhD, Professora Universitária na Universidade da Beira Interior (UBI) e investigadora sénior na área da Optometria e Ciências da Visão e Saúde Pública; Marco Miguel, MSc, Mestre em Gestão de Unidades de Saúde, doutorando em Biomedicina na Universidade da Beira Interior (UBI) e Sales Representative na Shamir; e Mariana Cunha, MSc, Mestre em Optometria e Ciências da Visão e doutoranda em Biomedicina na Universidade da Beira Interior (UBI)

Durante demasiado tempo, este tema tem sido tratado com uma preocupante falta de ambição. E o resultado está à vista: um sistema que responde tarde, de forma desigual, e que deixa muitos cidadãos sem acesso atempado a cuidados básicos de saúde ocular.

Segundo relatórios nacionais que se repetem há mais de duas décadas sem atualização, estima-se que cerca de 20% das crianças em idade escolar tenham erros refrativos, ou seja, problemas de visão que, na maioria dos casos, podem ser corrigidos com óculos. Quando não são detetadas, estas alterações podem interferir diretamente na aprendizagem.

Uma criança que não vê bem o quadro pode ser, muitas vezes, injustamente interpretada como desatenta, distraída ou pouco interessada. E o problema não termina na infância. A deficiência visual não corrigida está associada a maior risco de desemprego, acidentes rodoviários e problemas de saúde mental.

O abismo da desigualdade

O retrato é claro: Portugal continua a olhar para a saúde visual com alcance limitado. Os cuidados de saúde ocular permanecem fortemente concentrados no contexto hospitalar, onde as listas de espera para consultas de oftalmologia são, em muitos casos, longas. Ao mesmo tempo, a ausência de uma resposta pública eficaz e a falta de apoio para a correção visual, como óculos ou lentes, agravam desigualdades já existentes.

Na prática, criou-se um sistema a duas velocidades: quem tem recursos procura soluções no setor privado; quem não tem fica mais exposto a viver com limitações visuais evitáveis, com impacto direto na qualidade de vida, no desempenho escolar, no trabalho e na autonomia.

Miopia: uma epidemia silenciosa

A miopia deixou há muito de ser apenas um incómodo resolvido com óculos. Hoje, é reconhecida como um dos grandes desafios globais de saúde visual. As projeções internacionais apontam para um cenário impressionante: até 2050, cerca de metade da população mundial poderá ser míope.

Em Portugal, apesar da falta de dados nacionais recentes e robustos, os sinais disponíveis justificam preocupação. Alguns estudos locais mostram uma tendência de crescimento expressiva, incluindo aumentos marcados da prevalência em jovens universitários ao longo de poucos anos.

E este não é um problema estático. A miopia desenvolvida na infância tende a progredir. Quando o olho se alonga em excesso — situação conhecida como miopia alta — aumentam significativamente os riscos de várias doenças oculares na idade adulta, incluindo glaucoma, catarata precoce, descolamento da retina e degenerescência macular. Em muitos casos, estão em causa situações potencialmente incapacitantes e, por vezes, irreversíveis.

Para além do impacto individual, há também um custo coletivo. A miopia e a deficiência visual não corrigida pesam na economia, não apenas pelos custos com consultas e correção óptica, mas também pela perda de produtividade, pelo aumento do risco de acidentes e pelas consequências sociais da limitação funcional.

A prevenção está, literalmente, na rua

A resposta à saúde visual tem de estar mais perto das pessoas. Levar os cuidados de saúde visual para os cuidados de saúde primários ajudaria a reduzir desigualdades e a facilitar o acesso de muitos portugueses a cuidados em tempo útil. Seria uma forma mais simples, mais justa e mais eficaz de prevenir problemas, detetá-los cedo e garantir tratamento quando é preciso.

Mas nem tudo depende do sistema de saúde. Também é essencial que a população esteja mais informada e adote hábitos que ajudem a proteger a visão. E, enquanto essa mudança não chega, há medidas simples do dia a dia que podem fazer diferença, sobretudo entre crianças e jovens.

Estar mais tempo ao ar livre é uma delas: passar entre 90 minutos e 2 horas por dia no exterior parece ter um efeito protetor, sobretudo nas idades mais jovens, já que a exposição à luz natural está associada a mecanismos biológicos que ajudam a regular o crescimento saudável do olho.

A esta junta-se a chamada regra 20-20-20, particularmente relevante num quotidiano dominado por ecrãs, em que os olhos também precisam de pausas: a cada 20 minutos de trabalho ao perto, deve olhar-se durante 20 segundos para algo a cerca de 6 metros de distância. É uma recomendação fácil de aplicar e útil para reduzir a fadiga visual.

Por fim, a higiene do sono não deve ser desvalorizada, uma vez que o uso de dispositivos eletrónicos à noite pode interferir com a produção de melatonina e prejudicar o sono. Nos mais jovens, isso pode ter impacto não apenas no descanso, mas também em processos importantes do desenvolvimento.

Um problema de saúde, equidade e futuro

Não faz sentido continuar a desenhar políticas públicas com base em estimativas antigas e dados incompletos. É urgente conhecer melhor a realidade nacional, medir necessidades reais, avaliar quantas pessoas precisam de correção visual — e quantas estão, de facto, a recebê-la — e reforçar estratégias de deteção precoce, nomeadamente em idade escolar.

A saúde visual não é um luxo, nem um tema menor. É uma condição essencial para aprender, trabalhar, circular em segurança e viver com dignidade. Também por isso, é uma questão de equidade, de produtividade e de futuro coletivo.

Portugal precisa de olhar para a visão com mais clareza. Porque ver bem não deve ser um privilégio. Deve ser um direito. E um país que não cuida da saúde visual da sua população é um país que, no fundo, continua sem conseguir ver mais longe.

Este artigo conta com o apoio institucional da Shamir em Portugal