O conceito de “corpo de verão” está ligado a padrões estéticos frequentemente irreais e pouco representativos da diversidade corporal. Neste verão, o desafio não deve ser transformar o corpo, mas sim mudar a forma como pensamos sobre ele. E, nesse processo, a nutrição pode ser uma aliada.
Artigo da responsabilidade da nutricionista Dra. Bárbara Plácido
Com a chegada do calor e do verão, o fenómeno é o mesmo todos os anos: a preocupação com o corpo intensifica-se… As redes sociais, as conversas entre amigos e mesmo os meios de comunicação passam a girar em torno do chamado “corpo de verão”.
Mas, afinal qual o impacto que este fenómeno tem na forma como nos relacionamos com a nossa alimentação e com a saúde?
PADRÕES IRREAIS
Enquanto nutricionista, o aumento da procura por soluções rápidas nesta altura do ano é muito frequente. Dietas restritivas, planos “detox”, eliminação de grupos alimentares como os hidratos de carbono são comuns. E todas estas estratégias apresentam um denominador comum: mudar o corpo num curto espaço de tempo.
Porém, abordagens como estas levantam questões importantes ao nível da saúde física e mental.
O conceito de “corpo de verão” está diretamente ligado a padrões estéticos específicos, frequentemente irreais e pouco representativos da diversidade corporal.
Estes padrões promovem a ideia de que existe um único tipo de corpo aceitável ou desejável para usufruir do verão, sendo este mais magro, mais definido, mais tonificado.
Esta narrativa pode ser prejudicial, contribuindo para a insatisfação corporal, comportamentos alimentares perturbados e uma relação pouco saudável com a comida.
O nosso organismo beneficia de consistência, equilíbrio e adequação ao longo de todo o ano.
ESTRATÉGIAS INSUSTENTÁVEIS
Estratégias extremas podem até gerar resultados rápidos, mas tendem a ser insustentáveis, levando frequentemente a ciclos de restrição e compensação.
Além disso, dietas muito restritivas podem comprometer a ingestão adequada de nutrientes essenciais, afetar os níveis de energia, o humor e até o desempenho físico. Em muitos casos, o peso perdido corresponde não só a gordura, mas também a massa muscular e água, o que não é desejável do ponto de vista da saúde metabólica.
Outro aspeto relevante é o impacto psicológico desta pressão sazonal. A constante comparação com ideais inalcançáveis pode gerar sentimentos de inadequação, ansiedade e frustração. Para algumas pessoas, pode mesmo ser um gatilho para o desenvolvimento ou agravamento de perturbações do comportamento alimentar.
É fundamental reconhecer que a saúde vai muito além da aparência física. Em vez de procurar um “corpo de verão”, o correto será promover um corpo cuidado e respeitado durante todo o ano.
OPORTUNIDADE PARA REFORÇAR HÁBITOS POSITIVOS
A nutrição desempenha um papel central, não como ferramenta de controlo estético, mas como base para o bem-estar global. Alimentar-se de forma equilibrada e variada permite não só responder às necessidades do organismo, como também desfrutar da comida sem culpa.
O verão pode, aliás, ser uma excelente oportunidade para reforçar hábitos positivos. A maior disponibilidade de alimentos frescos, como frutas e hortícolas, facilita a adoção de padrões alimentares mais ricos nutricionalmente. As temperaturas mais elevadas tendem também a favorecer refeições mais leves e uma maior ingestão de água.
Para além da alimentação, importa considerar o estilo de vida como um todo. O aumento da atividade física ao ar livre, o contacto com a natureza e os momentos de lazer contribuem significativamente para a saúde física e mental. No entanto, estas práticas devem ser encaradas como formas de prazer e autocuidado, e não como obrigações ou compensações alimentares.
Comer não deve ser um ato com culpa ou ansiedade, mas sim uma experiência que integra nutrição e prazer.
MUDANÇA DE PERSPETIVA
É igualmente importante reforçar que não existe um corpo “certo” para o verão. Todos os corpos são corpos de verão, independentemente da sua forma, tamanho ou composição.
A valorização da diversidade corporal é essencial para reduzir o estigma e promover uma sociedade mais saudável e inclusiva.
A questão não deve ser “como posso mudar o meu corpo para o verão?”, mas sim “como posso cuidar melhor de mim durante todo o ano?”. Esta mudança de perspetiva permite uma abordagem mais sustentável, centrada na saúde e no bem-estar a longo prazo.
Na prática, cuidar do corpo no verão não exige medidas radicais, mas sim pequenas decisões consistentes e ajustadas à realidade de cada pessoa. O primeiro passo passa por abandonar a lógica do “tudo ou nada”. Não é necessário comer de forma “perfeita” nem treinar todos os dias para beneficiar da alimentação e do exercício. O que realmente produz resultados sustentáveis são hábitos repetidos ao longo do tempo, e não esforços intensivos de curta duração.
CONSELHOS PRÁTICOS
Um conselho prático importante nesta altura do ano é manter uma alimentação regular. Saltar refeições na tentativa de compensar excessos ou reduzir calorias de forma drástica tende a aumentar a fome, favorecer episódios de compulsão alimentar e dificultar escolhas equilibradas mais tarde. Fazer refeições com intervalos adequados, incluindo fontes de proteína, hidratos de carbono ricos em fibra, gordura saudável e hortícolas, ajuda a promover saciedade, energia e estabilidade ao longo do dia.
A hidratação merece também especial atenção nos meses mais quentes. O aumento da temperatura e da transpiração eleva as necessidades de líquidos e, muitas vezes, sinais como cansaço, dores de cabeça ou falta de concentração podem estar relacionados com ingestão insuficiente de água. Ter uma garrafa por perto, beber água ao longo do dia e incluir alimentos ricos em água, como fruta, sopa, pepino ou melancia, pode ser uma estratégia extremamente simples e eficaz. Em situações de maior atividade física ou exposição prolongada ao sol e calor, estas necessidades podem aumentar.
Outro ponto relevante é aprender a organizar refeições de forma prática, especialmente em períodos de férias, praia ou maior tempo fora de casa. Preparar lanches simples e nutritivos, como fruta fresca, iogurte, frutos oleaginosos, sandes equilibradas ou saladas completas, evita longos períodos sem comer e reduz a dependência por opções menos satisfatórias ou feitas por impulso. Planeamento não significa rigidez, significa apenas facilitar escolhas alinhadas com o bem-estar!
O verão traz também frequentemente mais convívios, refeições fora de casa e momentos sociais à volta da comida. Estes momentos devem ser vividos com naturalidade. Comer um gelado, jantar fora ou partilhar uma sobremesa não compromete a saúde quando inserido num padrão alimentar equilibrado. O problema não está num alimento isolado, mas na carga emocional que muitas vezes lhe associamos. Quanto menos culpa existir à mesa, mais saudável tende a ser a relação com a comida.
Leia o artigo completo na edição de maio 2026 (nº 371)














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