Recentes orientações clínicas e novas terapêuticas farmacológicas estão a mudar o panorama da prevenção e tratamento das doenças cardiovasculares.

Artigo da responsabilidade do Prof. Dr. Manuel Carrageta. Presidente da Fundação Portuguesa de Cardiologia. Especialista em Cardiologia, Medicina Interna, Farmacologia Clínica e competência em Geriatria
O peso corporal é um sinal tão vital como a tensão arterial e a frequência respiratória, e a investigação mostra que manter um peso ideal não é uma questão de força de vontade. O peso de uma pessoa é, sobretudo, o resultado da interação da genética de cada um com os diversos fatores ambientais e sociais. Por isso, não há qualquer razão para estigmatizar as pessoas com obesidade.
MEDICAMENTOS CONTRA A OBESIDADE E DIABETES
A obesidade é um importante fator de risco cardiovascular devido a aumentar vários outros fatores de risco, incluindo a diabetes, a hipertensão, a dislipidemia e a apneia do sono. E a obesidade não está associada apenas a doença cardíaca, pois também aumenta o risco de vários tipos de cancro.
O emprego dos novos fármacos GLP-1, como a semaglutida e a tirzepatida, demonstrou importantes efeitos benéficos para a saúde cardiovascular, assegurando uma redução de 20% no risco de eventos cardiovasculares graves (como enfarte e AVC) em doentes com obesidade, independentemente de terem ou não diabetes. No futuro, será com comprimidos que a família dos GLP-1 oferecerá benefícios a um maior número de pessoas.
GESTÃO DA HIPERTENSÃO
Nas recentes orientações clínicas foi criada uma nova categoria chamada pressão arterial (PA) elevada. É definida por uma PA clínica de 120/70 a 129/89 mmHg. O grupo de cientistas que elaborou as orientações clínicas defende que esta nova categoria reflete a evolução ascendente constante da PA ao longo do tempo (idade) e que alguns destes indivíduos podem beneficiar do tratamento, tendo em vista as novas evidências das vantagens da terapêutica, demonstradas em ensaios clínicos de alta qualidade.
Por outro lado, os benefícios de uma determinada redução da PA são independentes da PA pré-tratamento. Refletem também a crescente evidência do contínuo do risco de eventos cardiovasculares. Por essa razão, a PA inferior a 120/70 mmHg é agora designada PA não elevada, ou seja, normal. Um objetivo mais exigente de 120-129 de sistólica e de 70-79 mmHg de diastólica ou até mais baixo é agora recomendado para a maioria dos doentes, desde que seja bem tolerado.
Novos agentes, como o zilebesiran, que reduz a produção de angiotensinogénio através de uma única injeção subcutânea semestral, estão a ser testados para o controlo da pressão arterial a longo prazo. Outro fármaco promissor, o lorundrostat, um inibidor seletivo da síntese da aldosterona, está a ser avaliado pela FDA para o tratamento da hipertensão resistente.
NOVAS DIRETRIZES PARA A DISLIPIDEMIA
A exemplo do que se passou com a hipertensão arterial, foram publicadas atualizações que estabelecem metas de colesterol LDL mais baixas e um foco renovado na lipoproteína (a) como marcador de risco.
O colesterol LDL é hoje considerado não apenas um fator de risco, mas sim a causa da aterosclerose e, portanto, deve constituir o principal alvo terapêutico. A tendência é para as orientações clínicas recomendarem níveis cada vez mais baixos e, para isso, temos de utilizar cada vez mais combinações de fármacos e estatinas de alta intensidade, sendo que as estatinas continuam a ser os fármacos de primeira linha.
Os chamados inibidores da proproteína convertase subtilisina/kexina tipo 9 (PCSK9), como o evolocumab e o alirocumab, são anticorpos monoclonais (mAbs) que reduzem a atividade da PCSK9, uma proteína produzida pelo fígado, ao ligar-se às PCSK9 circulantes. Estes fármacos são muito mais potentes na redução do colesterol LDL do que os até agora disponíveis. Por exemplo, no Ensaio Fourier, o LDL desceu de 92 para cerca de 30 mg/dL. Os ensaios Fourier (evolocumab) e Odyssey Outcomes (alirocumab) confirmaram que a baixa da PCSK9 com os anticorpos monoclonais reduz tanto o colesterol LDL como o risco de eventos cardiovasculares.
OUTROS AVANÇOS IMPORTANTES
Há ainda uma nova terapêutica que inibe a produção de PCSK9 pelo fígado, o que vai tornar os recetores do LDL mais funcionais e duradouros. A inibição é intracelular, ao contrário dos anticorpos monoclonais, que fazem inibição extracelular. Este fármaco, o inclisiram, é administrado por via injetável, a intervalos de 6 meses, num contexto parecido com o das vacinas. A descida do LDL é de cerca de 50% e não há evidência, tal como com o evolocumab e o alirocumab, que tenha efeitos secundários significativos, nomeadamente ao não afetar o fígado ou os músculos.
Outro avanço é a recente possibilidade de reduzir a lipoproteína (a) Lp(a). De facto, novas estratégias farmacológicas orientadas para baixar os níveis elevados de Lp (a) estão a caminho da aprovação, preenchendo uma lacuna importante na redução do risco residual. A Lp(a) não era até agora reduzida pelas terapêuticas disponíveis. É um fator de risco silencioso, de causa genética, que tem sido ignorado por não haver medicação eficaz. Há vários novos fármacos em investigação, um dos quais, o pelacarsen, que pode reduzir a Lp(a) em 80-90%, com benefícios potenciais para o risco cardiovascular.
Leia o artigo completo na edição de maio 2026 (nº 371)














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