Há doenças que se anunciam de forma clara, enquanto outras chegam em silêncio, disfarçadas de sintomas comuns, facilmente ignorados no dia a dia. O cancro do ovário pertence a este segundo grupo e é precisamente por isso que continua a ser um dos mais perigosos.

Artigo da responsabilidade de Cláudia Fraga. Presidente da Associação MOG – Movimento Oncológico Ginecológico
Não sendo o cancro ginecológico mais frequente, o cancro do ovário é o mais letal, e por uma razão simples: na maioria dos casos, é descoberto tarde demais.
O problema começa nos sinais.
Inchaço abdominal, sensação de enfartamento, dores pélvicas, alterações intestinais, cansaço persistente. Sintomas que muitas mulheres associam ao stress, à alimentação ou a fases mais exigentes da vida. Sintomas que se relativizam ou que se encaixam numa rotina onde há sempre algo mais urgente.
Mas quando estes sinais persistem, quando deixam de ser ocasionais e passam a fazer parte do quotidiano, o corpo pode estar a dar um alerta que não deve ser ignorado.
Hoje sabemos que cerca de 75% dos casos de cancro do ovário são diagnosticados em fases avançadas. Isto significa tratamentos mais complexos, maiores taxas de recidiva e menores probabilidades de sobrevivência. Não porque a medicina não tenha evoluído, mas porque, muitas vezes, o diagnóstico chega tarde.
E aqui está o ponto crítico: não existe, até hoje, um método de rastreio eficaz para esta doença. Isso torna a atenção aos sintomas ainda mais importante.
A informação pode, literalmente, salvar vidas.
É fundamental que as mulheres conheçam o seu corpo e reconheçam quando algo não está bem. Mas também importa que os profissionais de saúde estejam atentos e valorizem estes sinais, mesmo quando parecem pouco específicos. O cancro do ovário pode não ser a primeira hipótese, mas tem de estar no horizonte.
Depois do diagnóstico, o caminho também nem sempre é linear. Em Portugal, nem todas as mulheres têm acesso a equipas especializadas no tratamento deste tipo de cancro. E sabemos, hoje, que isso faz diferença. Quando o acompanhamento é feito por equipas multidisciplinares experientes, os resultados melhoram e as probabilidades também.
Falar de cancro do ovário abarca também o que acontece depois. O impacto físico, emocional e social, a incerteza que permanece mesmo após o tratamento, a necessidade de acompanhamento contínuo numa doença marcada por uma elevada taxa de recidiva.
É por isso que a resposta não pode ser fragmentada. Precisamos de um sistema mais preparado, mais integrado e mais próximo das necessidades reais das mulheres.
Mas antes disso, precisamos de falar mais sobre esta doença. De trazer o tema para o espaço público, de o tornar compreensível, de o desmistificar. Porque enquanto continuar a ser um “cancro silencioso”, continuará a chegar tarde.














You must be logged in to post a comment.