O Observatório Internacional de Microbiotas 2026 revela que Portugal continua abaixo da média internacional em conhecimento sobre microbioma e microbiota.

De acordo com dados do 4º inquérito do Observatório Internacional de Microbiotas, que envolveu a recolha de respostas em 11 países, o conhecimento dos portugueses sobre o tema continua limitado a uma pequena parte da população. Apenas 1 em cada 5 (21%) afirma saber exatamente o que é a microbiota e um terço dos inquiridos (34%) nunca ouviu sequer falar do conceito, valores que colocam Portugal abaixo da média internacional, isto apesar dos avanços científicos e da crescente atenção dada ao tema. O inquérito foi promovido pelo Biocodex Microbiota Institute, plataforma internacional de referência em microbioma e microbiota humana.

MICROBIOTA E MICROBIOMA   

Dá-se o nome de microbiota ao conjunto de microrganismos que habitam no nosso organismo. Microbioma é a comunidade de microrganismos que habitam um determinado ambiente, inclui os microrganismos e os seus genes. Esta é a definição que parece ser desconhecida para a maioria dos portugueses.

Para Dra. Joana Ferreira Gomes, investigadora da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto, os resultados mostram que existe um crescimento do interesse dos portugueses pelo tema, mas subsiste um importante caminho a percorrer ao nível da literacia em saúde. Para a investigadora, “nos últimos anos, o estudo na área do microbioma e microbiota tem vindo a revelar associações entre a microbiota intestinal e várias dimensões da saúde, nomeadamente o sistema imunitário, o metabolismo e o eixo intestino-cérebro. Uma das descobertas mais interessantes tem sido, precisamente, essa comunicação bidirecional entre o intestino e o sistema nervoso central, que tenta esclarecer as potenciais relações entre a microbiota e o funcionamento cerebral, nomeadamente em aspetos como o humor, o comportamento e em algumas condições neurológicas e psiquiátricas “, afirma.

PROFISSIONAIS DE SAÚDE SÃO A PRINCIPAL FONTE DE INFORMAÇÃO CREDÍVEL

O estudo refere os profissionais de saúde como fator decisivo na educação da população sobre o tema. Praticamente a totalidade dos portugueses (90%) consideram-nos a fonte mais credível de informação sobre a microbiota, mas apenas 32% afirmam ter recebido informação completa sobre o tema pelo menos uma vez, incluindo o seu papel na saúde e os comportamentos que ajudam a preservá-la.

Para a especialista, esta realidade reforça a importância da comunicação baseada na evidência científica, uma vez que “os profissionais de saúde têm um papel essencial na tradução da informação. Numa área que gera muito interesse, mas também alguma desinformação, é importante ajudar a população a distinguir o que é bem sustentado pela evidência científica daquilo que são promessas ou modas”.

PRIMEIROS MIL DIAS DE VIDA

A microbiota é constituída por milhões de microrganismos (bactérias, vírus, fungos) que vivem em simbiose no nosso corpo. E não se limita ao intestino: existe também microbiota na pele, na boca, nos pulmões, no trato urinário e na vagina. Cada uma destas microbiotas desempenha funções específicas no equilíbrio do organismo. No caso da microbiota intestinal, núcleo essencial de regulação do sistema imunitário, qualquer perturbação, especialmente nos primeiros mil dias de vida, pode ter consequências irreversíveis na saúde futura.

Para Joana Ferreira Gomes, é fundamental aumentar a sensibilização sobre o conceito dos primeiros mil dias de vida. Nesta área, o estudo identificou que apenas 32% dos pais e grávidas conhecem o conceito. “Os primeiros anos de vida são um período particularmente importante para o desenvolvimento da microbiota intestinal, uma vez que é nesta fase que ela é adquirida e se vai estabilizando. Sabemos que fatores como a alimentação, o ambiente e algumas exposições precoces podem influenciar este processo.” Mas é importante não criar alarme nas famílias: “É importante que os pais estejam informados sobre o tema, não para criar preocupações desnecessárias, mas para compreenderem que algumas escolhas e hábitos de vida saudáveis podem ter impacto no desenvolvimento da criança.”

CUIDAR DA SAÚDE COMO UM TODO

Uma das principais conclusões do estudo é que os portugueses associam cada vez mais a microbiota à saúde. De facto, apesar do conhecimento reduzido, atualmente 50% dos portugueses refere ter alterado comportamentos para proteger a sua microbiota, o que reflete uma maior consciencialização sobre a sua importância para a saúde e bem-estar.

No entanto, a especialista alerta para a inexistência de “soluções isoladas ou “milagrosas”. “Neste momento, não existe uma única intervenção específica para cuidar da microbiota, mas sim um conjunto de hábitos de vida que, em simultâneo, promovem a saúde intestinal e a saúde global”. E conclui que “aquilo que faz bem à microbiota é, em grande medida, aquilo que faz bem ao organismo como um todo, ou seja, uma alimentação equilibrada, rica em alimentos de origem vegetal e minimamente processados, a prática regular de atividade física, um sono adequado e a redução de comportamentos prejudiciais.”

 

Outros dados do inquérito em Portugal

A consciência sobre a microbiota em Portugal continua a ser das mais baixas, sem melhorias significativas ao longo do tempo.

Embora o conhecimento sobre o microbioma e a microbiota tenha registado uma ligeira melhoria nos últimos anos, Portugal continua abaixo da média internacional.

A diversidade das microbiotas continua a ser subestimada e pouco conhecida:

  • Microbiota intestinal: 20% afirmam saber exatamente o que é;
  • Microbiota vaginal: 16%;
  • Microbiota oral: 14%;
  • Microbiota cutâneo: apenas 11%.

Os portugueses continuam a demonstrar uma adoção moderada de hábitos favoráveis à microbiota:

  • 50% afirmam ter alterado os seus comportamentos de alguma forma para manter a microbiota equilibrada e a funcionar de forma eficiente;
  • 12% referem ter mudado muito os seus hábitos;
  • 68% praticam regularmente atividade física;
  • 57% consomem frutas e vegetais diariamente;
  • 36% limitam o consumo de alimentos ultraprocessados;
  • Apenas 34% consomem probióticos regularmente e 28% prebióticos.

O Observatório Internacional de Microbiotas 2026 foi promovido pelo Biocodex Microbiota Institute, através de 7500 inquéritos em 11 países: Portugal, França, Alemanha, Itália, Polónia, Finlândia, Estados Unidos da América, Brasil, México, China e Vietname. Os inquéritos foram feitos online, entre os dias 3 de fevereiro e 13 de março, com amostras representativas de cada país e com quotas definidas para género, idade, região e profissão.