CERCA DE 1 MILHÃO DE PORTUGUESES SOFREM DE DOENÇAS DA TIROIDE. APESAR DE SEREM PREDOMINANTES NA MULHER, ESTAS DOENÇAS NÃO PODEM SER ESQUECIDAS OU IGNORADAS NO SEXO MASCULINO.

 

Pela Dra. Inês Sapinho. Coordenadora do Centro de Endocrinologia e da Unidade da Tiroide do Hospital CUF Descobertas. Membro do Conselho Consultivo/Científico da Associação das Doenças da Tiroide (ADTI)

 

A glândula tiroideia  está localizada na base do pescoço, imediatamente abaixo da laringe, ou seja, da conhecida maçã-de-adão. A sua forma é semelhante a uma borboleta e produz duas hormonas, a T3 e a T4, as quais, quando são libertadas para a corrente sanguínea, atuam em quase todas as células do nosso organismo. Estas hormonas são, portanto, essenciais no metabolismo e à vida.

As hormonas tiroideias regulam diretamente o crescimento e desenvolvimento de crianças e de adolescentes, regulam os ciclos menstruais, a fertilidade, o peso, influenciam a memória, a concentração, o humor e o controle emocional. Regulam a frequência cardíaca e respiratória, a pressão arterial e o funcionamento do intestino. Simplificando, podemos afirmar que as hormonas tiroideias regulam a velocidade de funcionamento das células, garantindo o equilíbrio do organismo.

DISFUNÇÕES E NÓDULOS

Apesar de as mulheres desenvolverem problemas da tiroide 5 a 8 vezes mais do que os homens, estas doenças não podem ser esquecidas ou ignoradas no sexo masculino.

Em Portugal, estima-se que as doenças da tiroide afetem cerca de 10% da população, ou seja, um milhão de portugueses.

Podemos considerar dois grandes grupos: as disfunções da tiroide, que estão relacionadas com as alterações na produção das hormonas tiroideias, e a doença nodular da tiroide.

As disfunções da tiroide são o HIPOTIROIDISMO, quando há diminuição da secreção das hormonas; e o HIPERTIROIDISMO,- quando estamos perante excesso de hormonas tiroideias em circulação.

As doenças autoimunes são a principal causa das disfunções da tiroide, sendo o hipotiroidismo mais comum. No entanto, estas doenças podem ser também resultado de efeitos adversos de determinados medicamentos. No caso específico do hipertiroidismo, este pode ser secundário à produção hormonal autónoma de um ou vários nódulos.

MANIFESTAÇÕES CLÍNICAS

Em relação às manifestações clínicas, no hipertiroidismo temos um aumento da velocidade de funcionamento do nosso organismo, pelo que as queixas mais frequentes são a agitação, ansiedade, insónias, palpitações, aumento do trânsito intestinal, emagrecimento associado muitas vezes ao aumento de apetite. No caso extremo, pode manifestar-se por uma arritmia grave que pode pôr em risco a própria vida.

Pelo contrário, no hipotiroidismo, que é a disfunção da tiroide mais comum, todo o organismo fica mais lento, as queixas mais frequentes são de cansaço, apatia, humor depressivo, falta de memória, sonolência, aumento da sensibilidade ao frio, dificuldade em perder peso ou até mesmo algum aumento ligeiro de peso, obstipação, queda de cabelo, unhas quebradiças e pele seca.

Nos homens, as disfunções da tiroide podem ser responsáveis pela diminuição da líbido, disfunção erétil, atraso na ejaculação e até mesmo alterações dos espermatozoides, que podem ser responsáveis pela infertilidade.

Todas estas manifestações são muito inespecíficas, podendo confundir-se com um conjunto de sintomas associados a outras doenças, o que leva ao atraso no diagnóstico, com significativa perda de qualidade de vida.

É, por isso, fundamental estar atento aos alertas que o nosso corpo nos vai transmitindo e procurar ajuda para poder excluir alguma doença.

DIAGNÓSTICO E TRATAMENTO SIMPLES

O diagnóstico destas doenças é realizado através de uma análise ao sangue simples, rápida e acessível. Pode também vir a ser necessário realizar outros exames que ajudam no esclarecimento da situação clínica, nomeadamente ecografia ou cintigrafia da tiroide.

Quero realçar que, com o início atempado e adequado do tratamento, se verifica uma recuperação gradual da sensação de bem-estar e ganho significativo em saúde.

O hipotiroidismo tem um tratamento simples e muito eficaz, com a toma única diária de hormona tiroideia em jejum. As doses dependem de vários fatores e vão sendo ajustadas regularmente em função das análises realizadas periodicamente.

O hipertiroidismo tem diversos tratamentos: médico (com comprimidos), com iodo radiativo ou cirúrgico. Estas opções devem ser tomadas com o doente, após o devido esclarecimento e tendo em conta a idade, doenças associadas ou, por exemplo, o desejo de ter filhos.

Apesar de, em alguns casos particulares, serem situações autolimitadas, de uma forma geral estas doenças são crónicas, mas que podem ser bem controladas se for realizada a medicação e a vigilância adequadas.

Saliento, mais uma vez, a importância da vigilância regular no endocrinologista, para a monitorização e correção da terapêutica, se necessário.

NÓDULOS NÃO PODEM SER IGNORADOS

Outra patologia distinta da tiroide é a doença nodular, que está relacionada com alterações da estrutura da glândula e pode estar associada ou não a disfunção da tiroide. Isto é, o mesmo doente pode ter nódulos com hipotiroidismo, hipertiroidismo ou uma função tiroideia normal.

Estima-se que 4 a 7% da população tenha um nódulo palpável, mas se o diagnóstico for por ecografia, estes números atingem os 30 a 60%.

É muito importante salientar que o aparecimento de um nódulo no pescoço não pode ser ignorado!

Os homens referem muitas vezes que, há algum tempo, ao fazer a barba, notaram um nódulo no pescoço que desvalorizaram. Noutras situações, descrevem alterações na voz, como rouquidão ou sensação de desconforto no pescoço que se arrasta há vários meses ou anos. Na maioria dos casos, os nódulos são assintomáticos, mas podem estar associados a sintomas compressivos sobre estruturas próximas da tiroide, provocando alterações da voz ou rouquidão e tosse irritativa, dificuldade em respirar e em comer.

A dor é rara e está habitualmente associada a uma hemorragia intranodular, com crescimento rápido do nódulo.

Quero reforçar que os nódulos da tiroide nos homens, apesar de menos frequentes, estão associados a maior risco de malignidade, pelo que a sua avaliação atempada é recomendada.

Leia o artigo completo na edição de janeiro 2022 (nº 323)