O lipedema não é apenas gordura localizada nem uma consequência de falta de disciplina alimentar. Trata-se de uma condição inflamatória crónica do tecido adiposo que afeta milhões de mulheres em todo o mundo e que permanece, ainda hoje, amplamente subdiagnosticada. Em muitas situações, esta condição agrava-se em fases de grande transição hormonal da vida feminina, como a menopausa, e pode tornar-se particularmente mais evidente durante os meses de verão.

Artigo da responsabilidade da Dra. Marta Padilha. Médica especialista em Saúde Geral e Familiar, com foco em Medicina Anti-Aging e Modulação Hormonal na Clínica Dra Marta Padilha

 

Com a chegada do calor, muitas mulheres experienciam um agravamento de sintomas, que vão muito além da questão estética. Sensação de peso nas pernas, dor ao toque, inchaço persistente e dificuldade em reduzir volume – mesmo com alimentação equilibrada e prática regular de exercício físico – são sinais frequentemente desvalorizados, mas que podem indicar a presença de lipedema.

CONDIÇÃO SUBDIAGNOSTICADA

Apesar de afetar uma percentagem significativa da população feminina, o lipedema continua a ser frequentemente confundido com excesso de peso ou retenção de líquidos. Esta confusão não só atrasa o diagnóstico, como gera frustração em muitas mulheres que, apesar dos seus esforços para melhorar a alimentação ou aumentar a atividade física, não observam alterações proporcionais nas zonas do corpo afetadas. Esta discrepância pode impactar profundamente a relação com o próprio corpo e criar uma sensação de falta de controlo sobre as mudanças físicas.

Na prática clínica, é muito frequente receber mulheres que descrevem exatamente este padrão: pernas que aumentam de volume de forma desproporcional em relação ao tronco, sensibilidade ao toque, tendência para hematomas e uma sensação constante de peso ou tensão nas pernas, que se agrava ao longo do dia. Muitas destas mulheres passaram anos a tentar resolver o problema através de dietas restritivas ou exercício intenso, sem compreender que estavam perante uma condição com base fisiológica e hormonal.

PIORA NO VERÃO

O verão tende a intensificar esta realidade. As temperaturas mais elevadas promovem vasodilatação e favorecem o aumento do edema, agravando a sensação de peso, o desconforto e a dor.

A retenção de líquidos torna-se mais evidente e a resposta inflamatória dos tecidos pode acentuar-se, levando a maior sensibilidade nas zonas afetadas e, em alguns casos, a uma sensação constante de tensão nos membros inferiores.

Para além disso, a maior exposição corporal característica desta estação pode amplificar o impacto emocional da condição. Muitas mulheres tornam-se mais conscientes da diferença entre as áreas do corpo, o que pode aumentar a perceção de desconforto estético e afetar a autoestima.

FORTE COMPONENTE HORMONAL

Para compreender verdadeiramente o lipedema, é essencial olhar para o seu forte componente hormonal. Trata-se de uma condição que frequentemente surge ou se agrava em momentos de grande flutuação hormonal ao longo da vida da mulher, como a puberdade, a gravidez e, de forma particularmente relevante, a menopausa.

Estas fases estão associadas a alterações significativas nos níveis de estrogénio e progesterona, hormonas que influenciam diretamente a distribuição da gordura corporal, a permeabilidade vascular e os processos inflamatórios. Estas alterações podem favorecer a progressão do lipedema ou tornar sintomas previamente discretos muito mais evidentes.

NA MENOPAUSA

A menopausa, em particular, representa um período de grande vulnerabilidade neste contexto. A diminuição progressiva dos níveis de estrogénio pode contribuir para alterações na microcirculação, maior fragilidade capilar e modificações na estrutura do tecido adiposo. Como consequência, algumas mulheres relatam um aumento relativamente súbito do volume das pernas, maior tendência para edema ao final do dia, sensação de pernas pesadas e sensibilidade ao toque.

Para além disso, as alterações hormonais características desta fase podem também influenciar o metabolismo e a resposta inflamatória do organismo, criando um ambiente biológico que pode favorecer a progressão do lipedema.

A redistribuição da gordura corporal típica da menopausa pode ainda acentuar o contraste entre tronco e membros inferiores, tornando o padrão do lipedema mais evidente.

Leia o artigo completo na edição de junho 2026 (nº 372)