Falar de alimentação é, inevitavelmente, falar de futuro. Do futuro da nossa saúde, da forma como produzimos e escolhemos os alimentos e da capacidade de garantirmos que aquilo que chega à mesa responde às necessidades das pessoas sem comprometer os recursos das próximas gerações.

Artigo da responsabilidade da Dra. Liliana Sousa. Bastonária da Ordem dos Nutricionistas

 

É precisamente este o ponto de partida escolhido pela FAO para o Dia Mundial da Alimentação de 2026: “Inovar hoje. Nutrir o amanhã.” A mensagem vai muito além da tecnologia; refere-se a soluções inovadoras, mas também à importância de combinar ciência e inovação com conhecimento e abordagens inclusivas, de forma a garantir a todos o acesso a alimentos suficientes, diversificados, seguros e com qualidade nutricional, protegendo, igualmente, o futuro do planeta.

Esta visão é particularmente importante quando pensamos em saúde. Porque aquilo que comemos hoje condiciona, em grande medida, a saúde que teremos amanhã. E Portugal continua a enfrentar desafios nutricionais relevantes. Mais de metade da população adulta apresenta excesso de peso e, entre as crianças dos 5 aos 14 anos, mais de um terço vive já com excesso de peso. Ao mesmo tempo, continuamos a lidar com outras formas de malnutrição, como a desnutrição associada à doença, ao envelhecimento ou a situações de maior vulnerabilidade.

Este cenário mostra-nos que o desafio não está apenas em ter alimentos disponíveis. Está em garantir qualidade nutricional, adequação, diversidade e capacidade de resposta às diferentes necessidades ao longo da vida. E é exatamente aqui que o conceito de inovação ganha força.

Inovar em alimentação pode passar pela utilização de novas tecnologias, pela inteligência artificial, por novas formas de produção ou pelo desenvolvimento de alimentos com características diferentes. Mas pode também resumir-se a uma melhor utilização dos dados, à implementação de medidas para reduzir o desperdício alimentar ou tornar a informação mais clara e percetível.

Talvez uma das maiores oportunidades esteja precisamente na capacidade de transformar conhecimento em soluções. Sabemos cada vez mais sobre a relação entre alimentação e doença cardiovascular, diabetes, obesidade, doença renal ou cancro. Sabemos também que os hábitos alimentares inadequados continuam entre os principais fatores de risco para a perda de anos de vida saudável em Portugal. O desafio é fazer com que este conhecimento ultrapasse os artigos científicos, os congressos ou as recomendações e tenha impacto real na vida das pessoas.

É também aí que o nutricionista tem um papel fundamental. O nutricionista não trabalha apenas com a alimentação de um indivíduo. O nutricionista trabalha com necessidades, comportamentos, contextos sociais, saúde, cultura e capacidade de mudança. É esse olhar que permite transformar evidência científica em decisões que podem ser aplicadas no quotidiano, seja num acompanhamento individual, numa escola, num hospital, numa empresa, na indústria alimentar ou na comunicação em saúde.

Esta dimensão torna-se ainda mais importante num tempo em que a informação sobre alimentação nunca foi tão abundante. Temos acesso imediato a recomendações, dietas, tendências, suplementos e opiniões. Mas ter mais informação não significa necessariamente tomar melhores decisões. Inovar terá também de significar comunicar melhor, simplificar sem perder rigor e ajudar as pessoas a distinguir aquilo que é evidência daquilo que é apenas ruído.

O futuro da alimentação será certamente mais tecnológico. Mas deverá ser também mais informado, mais sustentável, mais preventivo e mais ajustado às necessidades reais das pessoas.

É talvez essa a mensagem mais importante deste Dia Mundial da Alimentação: nutrir o amanhã começa nas escolhas, no conhecimento e nas soluções que construímos hoje.

Porque a verdadeira inovação não será apenas aquilo que conseguirmos inventar. Será aquilo que conseguirmos transformar em mais saúde.