O regresso às aulas marca o início de novas rotinas e pode ser também uma oportunidade para estabelecer hábitos que contribuam positivamente para o crescimento e desenvolvimento das crianças, não só no presente, como a médio e longo prazo. Para incentivar os encarregados de educação a encararem este ano letivo como um momento privilegiado para promover uma rotina mais ativa e saudável, o Dr. Manuel Ferreira de Magalhães partilha algumas recomendações para promover a atividade física junto dos mais novos.
A partir dos 6 anos, a promoção de uma rotina ativa ganha uma importância particular no desenvolvimento das crianças. O Dr. Manuel Ferreira de Magalhães refere que esta não é uma idade escolhida ao acaso: “Estima-se que aos 6 anos, a maioria das crianças já desenvolveu, através da brincadeira livre, competências motoras de base, como correr, saltar, lançar e agarrar, que lhes permitem começar a participar em atividades desportivas organizadas de forma segura e prazerosa”.
Para o pediatra, mais importante do que a prática de uma modalidade específica é a criação de uma rotina que integre o movimento. Brincar no parque e andar de bicicleta são diferentes formas de manter as crianças ativas e, sobretudo, de criar hábitos que se prolongam ao longo da vida. “Não estamos apenas a promover saúde física no momento, estamos a construir um hábito que a criança vai levar para a vida adulta”, explica, reforçando que a prática durante a infância está associada a uma melhor perceção de saúde na idade adulta.
A prática desportiva contribui especialmente para o desenvolvimento das capacidades motoras, funcionando como um “ginásio” natural para as competências fundamentais. Estudos indicam que crianças com participação desportiva regular entre os 6 e os 9 anos apresentam níveis de coordenação motora significativamente superiores. Nestas idades, até à adolescência, a recomendação do especialista é clara: “variedade antes de especialização”. O conceito sport sampling consiste em experimentar várias modalidades ao longo da infância, em vez de escolher apenas uma desde cedo. Esta abordagem permite desenvolver um leque alargado de competências motoras, uma vez que, por exemplo, uma criança que joga futebol, nada e faz ginástica desenvolve padrões de movimento muito diferentes entre si, ao mesmo tempo que reduz o risco de lesão por sobreuso.
Para além dos benefícios físicos, o desporto assume um papel importante no desenvolvimento de competências sociais. Segundo o Dr. Manuel Ferreira de Magalhães, o ambiente desportivo “é um dos primeiros espaços fora da família e da escola onde a criança aprende a negociar com os outros para atingir um objetivo comum, permitindo-lhe aprender a gerir emoções e a lidar com alegrias e desilusões”. A evidência científica mostra que crianças que praticam desporto apresentam maior autoestima, maior satisfação com a vida e menos sintomas de ansiedade. Os benefícios são mais consistentes no desporto em equipa em que aprendem a lidar com a frustração de perder, a gerir o conflito e a confiar nos outros para alcançar um resultado que não depende apenas de si. É ainda neste contexto que as crianças desenvolvem competências de autorregulação, planeamento, definição de objetivos, gestão emocional e esforço sustentado, essenciais noutras áreas da vida.
A prática regular assume também um papel importante na prevenção do sedentarismo e obesidade, estando associada a uma melhor aptidão cardiovascular, composição óssea, resistência, velocidade, força e coordenação. Um estudo americano, que acompanhou crianças do 7.º ao 9.º ano, mostrou que as crianças que praticavam desporto mantinham-se consistentemente mais ativas e com menos tempo sedentário do que as não praticantes.
A atividade física contribui ainda para uma melhor qualidade do sono, embora a relação entre exercício e descanso dependa de alguns fatores. Segundo o pediatra, a principal recomendação é que a atividade física não deve ser realizada nas três horas que antecedem a hora de dormir, uma vez que pode prejudicar o descanso. Por outro lado, a atividade regular está associada a menos sintomas depressivos e uma melhor regulação emocional e, sendo o sono extremamente sensível ao estado emocional, estes fatores podem contribuir para melhorar a sua qualidade.
Importa, no entanto, garantir um equilíbrio. O treino excessivo, quando não é acompanhado por descanso adequado, pode constituir um sinal de alerta, associado a fadiga persistente e queda no rendimento. A mensagem do pediatra é, por isso, que a atividade física é aliada do sono quando é equilibrada e adequada à idade, evitando tanto o sedentarismo como o excesso de treino.
A relação entre o exercício e o desempenho escolar reúne evidência científica robusta. Um estudo longitudinal que acompanhou a evolução dos 4 aos 21 anos, mostrou que a participação desportiva está associada a menos faltas escolares, melhor atenção e maior probabilidade de ingresso na universidade. Para o Dr. Manuel Ferreira de Magalhães, estes dados reforçam a importância do desporto escolar, sendo que a tipologia tem influência: o desporto em equipa está relacionado com melhor atenção, memória e assiduidade escolar, enquanto o individual se relaciona com melhores resultados em literacia e no desempenho. Esta relação pode ser compreendida biologicamente, uma vez que ativa recursos cognitivos e acelera o processamento de informação. Paralelamente, o ambiente desportivo, rico em regras, tomada de decisão e feedback constante, treina a atenção e a autorregulação, competências utilizadas posteriormente em sala de aula.
Para os encarregados de educação que procuram formas simples de incentivar as crianças a serem mais ativas, o pediatra deixa três recomendações finais: priorizar a variedade em vez da especialização precoce, permitindo que experimentem diferentes modalidades até encontrar aquela de que realmente gostam; integrar o movimento na rotina diária, para além dos treinos de desporto organizado, através de atividades como brincar ao ar livre ou andar de bicicleta; e dar o exemplo, valorizando o prazer e o esforço em vez do desempenho.
Mais do que impor a prática, a ideia é criar um ambiente em que faça naturalmente parte do dia a dia. Afinal, como reforça o especialista, “as crianças imitam o que veem em casa muito mais do que aquilo que lhes é dito”. Uma família ativa, que valoriza o esforço e o divertimento acima do resultado, contribuiu para que a criança queira continuar a mover-se hoje e no futuro.














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