É tempo de falar de uma transição que diz respeito a todas as mulheres. Porque a menopausa não é apenas o fim da menstruação. É uma transição com repercussões físicas, emocionais, sexuais, familiares e profissionais. Merece, por isso, ser compreendida, acompanhada e tratada sempre que interfere com a qualidade de vida.
Artigo da responsabilidade da Dra. Sofia Figueiredo. Médica ginecologista-obstetra. Hospital da Luz Lisboa. Clínica Mulher
Deixaram de dormir bem. Estão mais irritáveis. Perderam a capacidade de concentração que sempre tiveram. Entram numa reunião e, inesperadamente, não encontram uma palavra. Aumentaram de peso apesar de não terem alterado significativamente a alimentação. Sentem o coração acelerar, têm afrontamentos no momento menos oportuno ou acordam durante a noite encharcadas em suor. Algumas acrescentam, quase no fim da consulta, já com a mão na maçaneta da porta, que as relações sexuais se tornaram desconfortáveis ou dolorosas. Outras confessam que deixaram de ter desejo e não percebem porquê.
ALGO QUE NÃO PODE SER IGNORADO
E depois surge a frase. Quase sempre a mesma, dita no tom de quem pede desculpa por estar ali a ocupar tempo com algo que talvez nem seja importante: “Achei que era do stress.”
Pode ser também do stress, naturalmente. Aos 40 e 50 anos, muitas mulheres atravessam uma das fases mais exigentes das suas vidas: carreiras profissionais no auge, filhos ainda dependentes ou adolescentes, pais que começam a precisar de cuidados, relações que se transformam e uma enorme carga mental. Mas, em simultâneo, existe uma verdadeira transição biológica em curso. Reconhecê-la não significa atribuir tudo às hormonas. Significa simplesmente não ignorar o seu papel.
Durante demasiado tempo, a menopausa foi tratada como um assunto privado, quase clandestino. Falava-se dos afrontamentos em voz baixa, escondiam-se as alterações do corpo e aceitavam-se como inevitáveis o cansaço, a insónia, a irritabilidade ou a perda de desejo. Mas a menopausa não é apenas o fim da menstruação. É uma transição com repercussões físicas, emocionais, sexuais, familiares e profissionais. E merece ser compreendida, acompanhada e tratada sempre que interfere com a qualidade de vida.
MUITO MAIS DO QUE AFRONTAMENTOS
Durante décadas, a imagem pública da menopausa resumiu-se quase à caricatura de uma mulher a abanar-se com um leque. É uma representação redutora de uma realidade muito mais complexa.
Os afrontamentos e os suores noturnos são, de facto, manifestações clássicas. Podem surgir subitamente, acompanhados de calor intenso na face, no pescoço e no tórax, transpiração e, por vezes, palpitações. Mas representam apenas uma parte da experiência menopáusica.
O sono é um dos aspetos que mais pode ser afetado. Algumas mulheres têm dificuldade em adormecer; outras acordam repetidamente durante a noite. Os suores noturnos agravam o problema, mas nem toda a insónia da perimenopausa se explica pelos afrontamentos.
E dormir mal não fica confinado à noite. Depois de semanas ou meses de sono fragmentado, surgem cansaço, menor tolerância ao stress, irritabilidade, dificuldade de concentração e diminuição do rendimento físico e intelectual. A própria ansiedade pode aumentar. Cria-se, por vezes, um verdadeiro círculo vicioso em que cada sintoma alimenta os restantes.
Também são frequentes dores musculares ou articulares, cefaleias, alterações na composição corporal e mudanças metabólicas. A redução dos estrogénios está ainda associada à perda de massa óssea, pelo que esta fase da vida deve ser encarada como uma oportunidade privilegiada para avaliar e proteger a saúde futura, nomeadamente a saúde óssea e cardiovascular.
“NEVOEIRO MENTAL”
Uma das queixas que mais ansiedade provoca é, contudo, outra: a alteração da memória. Mulheres altamente funcionais, habituadas a gerir simultaneamente múltiplas responsabilidades, começam subitamente a esquecer nomes, a perder o fio de uma frase ou a sentir dificuldade em encontrar uma palavra. Algumas descrevem esta sensação como um verdadeiro “nevoeiro mental”.
E não é imaginação. Estima-se que cerca de quatro a seis em cada dez mulheres relatem sintomas cognitivos durante esta transição. Podem ser influenciados pelas alterações hormonais, mas também pelo sono, pelo humor e pela sobrecarga quotidiana.
Na maioria dos casos, estas alterações são ligeiras e não correspondem ao início de uma doença neurodegenerativa. Esta distinção é particularmente importante e, muitas vezes, tranquilizadora. Esquecer ocasionalmente uma palavra numa reunião não significa doença de Alzheimer. Mas alterações marcadas, progressivas ou que interfiram significativamente com a autonomia devem, naturalmente, ser avaliadas.
Leia o artigo completo na edição de outubro 2026 (nº 375)














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