Aproximar-se demasiado do livro, semicerrar os olhos, fechar um olho ou cansar-se durante a leitura podem ser sinais de que é necessária uma avaliação visual. Especialistas da Optivisão reúnem recomendações para prevenir desconforto e promover hábitos visuais mais saudáveis em idade escolar.

O regresso às aulas significa também um aumento significativo das exigências visuais para as crianças. Ler, escrever, observar o quadro, alternar entre diferentes distâncias e utilizar computadores e tablets: a rotina escolar obriga a uma utilização intensiva da visão. Quando existe uma alteração visual não identificada, a criança pode não verbalizar diretamente a dificuldade e, em muitos casos, adaptar-se à forma como vê.

Para a optometrista Nelva Sixpene,  esta é uma das razões pelas quais pais, educadores e professores devem estar atentos a alterações no comportamento visual: “Uma criança pode não dizer que não vê bem. Pode simplesmente aproximar-se mais do livro, semicerrar os olhos, mudar a posição da cabeça ou evitar determinadas tarefas. Estes comportamentos não permitem fazer um diagnóstico, mas são sinais que justificam uma avaliação.”

CINCO SINAIS DE ALERTA A QUE OS PAIS DEVEM ESTAR ATENTOS

Existem alguns comportamentos que podem justificar uma avaliação da visão:

  • Aproximar demasiado o material de leitura: se a criança coloca repetidamente o livro, caderno ou tablet muito perto dos olhos, poderá estar a procurar uma distância em que consiga ver com maior conforto;
  • Semicerrar os olhos para ver ao longe: este comportamento pode surgir quando existe dificuldade em obter uma imagem nítida à distância;
  • Fechar um dos olhos: sobretudo quando acontece repetidamente durante determinadas tarefas ou ao olhar para longe;
  • Inclinar ou rodar a cabeça: algumas crianças podem adotar posições anómalas da cabeça para procurar uma posição de maior conforto visual;
  • Queixar-se de visão desfocada ou desconforto: cansaço durante a leitura, desconforto ocular ou dificuldade em manter tarefas visuais merecem atenção.

A presença de um destes sinais não significa necessariamente que exista uma alteração visual. No entanto, quando são frequentes ou persistentes, devem ser encarados como motivo para procurar avaliação especializada.

QUANDO DEVE SER FEITA UMA AVALIAÇÃO VISUAL?

Em Portugal, a Direção-Geral da Saúde prevê o rastreio da saúde visual infantil aos 2 e aos 4 anos. No entanto, a existência de um rastreio prévio não significa que não possam surgir alterações posteriormente.

A entrada na escola é uma oportunidade adequada para confirmar se a criança dispõe de uma avaliação visual recente, sobretudo quando o rastreio não foi realizado, existem antecedentes familiares relevantes ou os pais, educadores ou professores identificam alterações no comportamento visual.

A avaliação não deve, contudo, ficar limitada ao início do ano letivo. Se a criança manifesta visão desfocada, dificuldade em ver ao longe ou ao perto, desconforto ocular ou outros sintomas visuais, não é necessário esperar pelo próximo ano escolar.

MIOPIA INFANTIL: EQUILIBRAR TEMPO DE PERTO E TEMPO AO AR LIVRE

A miopia merece uma atenção particular em idade escolar. Estudos realizados em Portugal têm identificado a presença desta alteração visual em crianças e adolescentes e demonstrado uma associação entre a sua frequência e o aumento da idade.

Num estudo publicado em 2024, realizado com 1.115 estudantes entre os 10 e os 18 anos, 21,5% apresentavam miopia, sendo que 26.4% dos adolescentes míopes não utilizavam correção ótica. Num segundo estudo, envolvendo 1.992 crianças e adolescentes entre os 5 e os 17 anos de nove escolas de Lisboa, a prevalência de miopia foi de 12.7%.

Os resultados não permitem extrapolar diretamente para toda a população infantil portuguesa, mas reforçam a importância do acompanhamento da saúde visual durante o crescimento.

A Organização Mundial da Saúde recomenda que as crianças passem pelo menos 90 minutos por dia no exterior durante o período diurno e façam pausas regulares durante atividades prolongadas de perto.

“Não se trata de eliminar os ecrãs, os computadores ou as atividades de estudo. O objetivo é evitar períodos excessivamente prolongados de visão próxima sem interrupções, variar as distâncias de observação e garantir tempo diário ao ar livre”, explica Nelva Sixpene.

COMO PREPARAR UM ESPAÇO DE ESTUDO MAIS CONFORTÁVEL?

A ergonomia visual deve também fazer parte da preparação do novo ano letivo. Algumas medidas simples podem contribuir para reduzir o desconforto durante períodos prolongados de estudo:

  • Garantir iluminação suficiente e homogénea, evitando zonas demasiado escuras ou contrastes excessivos;
  • Reduzir reflexos nos ecrãs, posicionando a secretária e o monitor de forma adequada em relação às fontes de luz;
  • Manter uma distância de trabalho confortável, evitando aproximar excessivamente livros, cadernos ou dispositivos;
  • Fazer pausas regulares durante atividades prolongadas de perto;
  • Alternar a distância de observação, olhando regularmente para objetos mais afastados;
  • Reservar tempo diário para atividades no exterior.

No caso da utilização de ecrãs, a OMS inclui entre as suas recomendações a regra 20-20-20: depois de aproximadamente 20 minutos de utilização, fazer uma pausa e olhar durante pelo menos 20 segundos para algo situado a cerca de 20 pés (aproximadamente 6 metros).

VER BEM NÃO É APENAS UMA QUESTÃO DE RENDIMENTO ESCOLAR

A relação entre visão e desempenho escolar deve ser interpretada com rigor. Uma boa visão não garante, por si só, melhores resultados académicos, mas uma dificuldade visual pode dificultar atividades fundamentais para a aprendizagem.

“Uma criança que não vê adequadamente o quadro, que se cansa durante a leitura ou que precisa de fazer um esforço visual excessivo parte para as tarefas escolares com uma dificuldade adicional. Identificar essa dificuldade permite eliminar uma barreira que pode ser evitável ou corrigível”, afirma a mesma optometrista.

No regresso às aulas, a recomendação é, por isso, muito simples: observar, prevenir e avaliar. A atenção dos pais e professores aos sinais de alerta, a adoção de hábitos visuais adequados e o acompanhamento por profissionais de saúde visual podem contribuir para que as crianças enfrentem as exigências visuais da escola com maior conforto e nas melhores condições possíveis.