SAIBA COMO DESFRUTAR PLENAMENTE DAS REFEIÇÕES DE FÉRIAS SEM PAGAR UM PREÇO METABÓLICO ALTO DEMAIS.

Artigo da responsabilidade da Dra. Joana Menezes Nunes. Endocrinologia e Nutrição. Clínica Dra Joana Menezes, Porto.

 

Chegaram as férias! As malas estão feitas, o hotel está reservado, o buffet espera por si com todas as iguarias que pensa provar. E chega também aquela voz interior que já conhece bem: “Estou de férias, mereço”. Tem razão: merece!

Férias são um tempo de descanso, prazer e reconexão, porque a saúde também é mental. O problema não é desfrutar, o problema é quando abre uma brecha para desistir de tudo o que tem vindo a construir. Não é sobre perfeição. É sobre estratégia. A boa notícia é que se pode desfrutar plenamente das férias sem pagar um preço metabólico alto demais.

BUFFET: O MAIOR TESTE À SUA RELAÇÃO COM A COMIDA

O buffet é, do ponto de vista endocrinológico, um ambiente onde os olhos também comem. A variedade excessiva (o que os investigadores chamam de “variedade sensorial”) ativa os centros de recompensa do cérebro de uma forma que uma refeição normal simplesmente não consegue suplantar. Vemos tudo ao mesmo tempo, o cheiro está no ar, e o nosso sistema límbico responde antes de o nosso córtex pré-frontal ter a hipótese de intervir. Por outras palavras: o desejo chega antes da razão.

A primeira estratégia que recomendo é simples, mas poderosa: dê uma volta completa ao buffet, antes de colocar um único alimento no prato. Observe tudo. Decida o que realmente quer comer e não o que está à frente e parece apelativo por impulso. Esta pausa de dois minutos ativa o sistema de controlo consciente e reduz significativamente a quantidade total ingerida. Estudos publicados no International Journal of Obesity mostram que apenas esta estratégia pode reduzir a ingestão calórica em até 20 por cento.

A segunda estratégia é a ordem dos alimentos no prato. Comece sempre pelos vegetais e proteínas como peixe, marisco, ovos, leguminosas, carnes. Este padrão alimentar reduz o índice glicémico da refeição, prolonga a saciedade e atenua os picos de insulina que, quando repetidos ao longo de dias, contribuem para o ganho de massa gorda. Os hidratos de carbono (massas, arroz, pão, batata) não estão proibidos! Deve servi-los como o acompanhamento.

Use um prato mais pequeno sempre que possível. Não é um truque: é neurociência. O efeito Delboeuf, bem documentado na literatura científica, demonstra que a nossa perceção da quantidade de comida é influenciada pelo tamanho do recipiente. Um prato menor visualmente cheio satisfaz o cérebro tanto como um prato maior meio vazio.

COCKTAILS COM ÁLCOOL: INIMIGO SILENCIOSO DO METABOLISMO

Nenhuma conversa sobre férias e alimentação está completa sem falar de álcool. E aqui há que sermos diretos: o álcool é, do ponto de vista metabólico, o nutriente mais disruptivo que existe nas férias de “tudo incluído”.

Não é apenas uma questão de calorias (embora um cocktail típico com sumo, licores e xaropes possa facilmente ter entre 300 e 500 calorias por copo, o equivalente a uma refeição ligeira). O problema mais profundo é o que o álcool faz ao nosso metabolismo. O fígado, quando processa etanol, suspende temporariamente a oxidação de gordura. Enquanto metaboliza álcool, não queima gordura. Além disso, o álcool diminui os níveis de leptina (a hormona da saciedade) e aumenta o apetite, levando a escolhas alimentares menos conscientes nas horas seguintes.

A minha recomendação não é abstinência total: é, como em tudo, consciência e estratégia. Opte por bebidas com menos açúcar adicionado – vinho tinto seco, espumante bruto, gin com água tónica sem açúcar – e intercale sempre com água (um copo de água entre cada bebida alcoólica). Evite beber em jejum (sem comida no estômago).

O mocktail é também uma alternativa subestimada: água com gás, lima, hortelã e pedras de gelo são refrescantes, visualmente apelativas e completamente amigas do metabolismo.

Leia o artigo completo na edição de julho-agosto 2026 (nº 373)