A EVOLUÇÃO NÃO NOS PREPAROU PARA ÓLEOS VEGETAIS REFINADOS, ANIMAIS CRIADOS EM CONFINAMENTO COM CEREAIS NEM ALIMENTOS ULTRAPROCESSADOS RICOS EM ÓMEGA-6. PREPAROU-NOS PARA UMA DIETA DIVERSA, BASEADA EM ALIMENTOS INTEIROS, COM UMA PROPORÇÃO DE ÓMEGA-6/ÓMEGA-3 QUE HOJE RARAMENTE ATINGIMOS.
Artigo da responsabilidade da Dra. Cátia Miranda. Nutricionista e criadora do Método registado Nutrition Restart 4Rs
Os nossos ancestrais não tinham livros de nutrição. Não contavam macros, não liam rótulos, não tomavam suplementos. E, no entanto, a composição da sua alimentação era, do ponto de vista dos ácidos gordos, extraordinariamente equilibrada.
A evidência antropológica e evolutiva sugere que os seres humanos evoluíram numa dieta com uma proporção de ómega-6 para ómega-3 de aproximadamente 1:1. As populações pré-industriais mantinham rácios entre 1:4 e 4:1, dependendo da prevalência de alimentos marinhos ou terrestres na sua dieta.
Hoje, na dieta ocidental contemporânea, essa proporção chegou a 16:1 a 20:1 — e em alguns padrões alimentares ultraprocessados pode atingir 50:1. Esta não é uma estatística menor. É uma das alterações mais profundas e silenciosas que fizemos à nossa biologia nos últimos 100 anos.
ÓMEGA-6 VS. ÓMEGA-3: ALIADOS EM DESEQUILÍBRIO
Existem três grandes famílias de gorduras: saturadas, monoinsaturadas e polinsaturadas (PUFAs). São estas últimas, especialmente os ómega-6 e os ómega-3, que estão no centro desta discussão sobre saúde e inflamação.
O ómega-6, por si só, não é o inimigo. É um ácido gordo essencial o organismo não o produz e precisa de o obter pela alimentação. O problema é o excesso crónico e o desequilíbrio relativamente ao ómega-3.
Quando o rácio ómega-6/ómega-3 é demasiado elevado, quantidades maiores de ácido araquidónico (AA) derivado do ómega-6 promovem a produção de mediadores pró-inflamatórios: tromboxanos, leucotrienos e prostaglandinas, que estão na origem de um estado de inflamação sistémica crónica de baixo grau, associado às principais doenças crónicas da modernidade.
O aumento do consumo de ómega-6 está diretamente associado ao aumento de obesidade, resistência à insulina, hipertensão arterial e doença coronária. Para além disso, pode prolongar ou mesmo contribuir para inflamações musculares e tendinosas, artrite, asma e perturbações autoimunes.
O ómega-3, pelo contrário, contraria estes efeitos. O EPA e o DHA, as formas biologicamente ativas do ómega-3 promovem a produção de mediadores pró-resolução especializados (SPMs): resolvinas, protectinas e maresinas. Estes compostos não são apenas anti-inflamatórios, são ativamente pró-resolução, ou seja, estimulam a resolução ativa da inflamação, um processo hoje reconhecido como fundamental na prevenção de doenças crónicas.
O PROBLEMA ESTÁ NOS ÓLEOS VEGETAIS INDUSTRIAIS
A transformação mais dramática na nossa alimentação foi a introdução massiva de óleos vegetais refinados à base de girassol, açafrão-da-terra, soja, amendoim e milho, com rácios de ómega-6/ómega-3 que variam entre 60:1 e 77:1. Estes óleos estão presentes em praticamente todos os alimentos processados: pão de forma, bolachas, margarinas, snacks, molhos e pratos pré-cozinhados.
A carne de animais criados em regime intensivo com base em cereais reflete este desequilíbrio: o seu perfil de ácidos gordos é radicalmente diferente do dos animais em pastagem, que têm proporções muito mais favoráveis de ómega-3.
COMO RESTAURAR O EQUILÍBRIO
1. Reduzir o ómega-6 excessivo
■ Eliminar óleos vegetais refinados (girassol, milho, soja, amendoim, açafrão) da cozinha quotidiana;
■ Substituir por azeite virgem extra (predominantemente ómega-9, mais neutro), óleo de coco ou manteiga de animais em pastagem;
■ Reduzir o consumo de alimentos ultraprocessados, a maior fonte oculta de ómega-6;
■ Preferir carnes de animais em pastagem ou biológico; ovos enriquecidos em ómega-3.
2. Aumentar o ómega-3
■ Consumir peixe gordo de água fria (sardinha, salmão, cavala, arenque), pelo menos 3 vezes por semana;
■ Adicionar 1 colher de sopa de linhaça triturada ou sementes de chia a iogurtes, sopas ou saladas diariamente;
■ Adicionar 1 colher de sopa de óleo ómega-3 EPA e DHA com polifenóis nas saladas ou juntar às refeições;
■ Incluir nozes como snack: 15 a 30 g por dia;
■ Considerar suplementação com óleo de peixe de qualidade quando a ingestão alimentar é insuficiente – especialmente em grávidas, desportistas, pessoas com doenças inflamatórias, autoimunes ou neurodegenerativas
3. Monitorizar
■ Avaliar o índice de ómega-3 através da análise de ácidos gordos em membrana eritrocitária – disponível em laboratórios especializados;
■ Um índice de ómega-3 (EPA + DHA) superior a 8% nos eritrócitos está associado a menor risco cardiovascular e inflamatório.
OS DOIS HERÓIS DO ÓMEGA-3: EPA E DHA
Nem todas as fontes de ómega-3 são equivalentes. O ácido alfa-linolénico (ALA), presente em alimentos vegetais como a linhaça e a chia, é precursor do EPA e DHA, mas a taxa de conversão é baixa e altamente variável (menos de 5-15% para EPA e menos de 0,5% para DHA).
Os alimentos de origem animal, especialmente os peixes de água fria, fornecem EPA e DHA numa forma já prontamente disponível para os tecidos sem necessidade de conversão hepática.
O EPA é especialmente potente na modulação da resposta inflamatória aguda, inibe a produção de eicosanóides pró-inflamatórios derivados do ácido araquidónico e estimula a produção de resolvinas da série E.
O DHA é o principal ácido gordo estrutural do cérebro e da retina, e está associado à função cognitiva, à saúde neurológica e à produção de neuroprotectinas e resolvinas da série D.
Estudos do Lyon Diet Heart Study mostraram que um rácio ómega-6:ómega-3 de 4:1 está associado a uma redução de 70% da mortalidade cardiovascular na prevenção secundária de doença cardiovascular.
Alimentos ricos em ómega-6: os que devemos diminuir
|
Alimento |
Tipo de ómega-6 |
Rácio ω6:ω3 (aprox.) |
Nota |
|
Óleo de girassol |
Ácido linoleico (LA) |
77:1 |
Muito elevado; evitar em excesso |
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Óleo de açafrão-da-terra (safflower) |
Ácido linoleico (LA) |
77:1 |
Um dos mais desequilibrados |
|
Óleo de milho |
Ácido linoleico (LA) |
60:1 |
Amplamente usado na indústria |
|
Óleo de soja |
Ácido linoleico (LA) |
7:1 |
Presente em quase todos os ultraprocessados |
|
Óleo de amendoim |
Ácido linoleico (LA) |
32:1 |
Evitar em preparações quentes |
|
Margarina / shortenings vegetais |
LA + trans |
Muito elevado |
Altamente inflamatória |
|
Frutos secos (nozes, amêndoas, cajus) |
Ácido linoleico (LA) |
Variável |
Consumo moderado; densos em nutrientes |
|
Sementes de abóbora |
Ácido linoleico (LA) |
Moderado |
Ricas em zinco; equilíbrio é chave |
|
Carne de animais em regime intensivo |
Ácido araquidónico (AA) |
Elevado |
Preferir pastagem / biológico |
|
Ovos de galinhas em gaiola |
Ácido araquidónico (AA) |
20:1 |
Preferir ovos enriquecidos em ómega-3 |
Alimentos ricos em ómega-3: os que devemos privilegiar
|
Alimento |
Tipo de ómega-3 |
Teor por 100g (aprox.) |
Forma |
|
Sardinha (fresca ou em conserva em água) |
EPA + DHA |
2,2–2,5 g |
Biodisponível; pronto a usar |
|
Salmão selvagem |
EPA + DHA |
2,3–2,5 g |
Biodisponível; peixe de água fria |
|
Cavala/sarda |
EPA + DHA |
2,5 g |
Rica também em vitamina B12 |
|
Arenque |
EPA + DHA |
1,7–2,0 g |
Excelente e económico |
|
Atum (em água) |
EPA + DHA |
1,0–1,5 g |
Moderar; possível exposição ao mercúrio |
|
Alabote/Bacalhau |
EPA + DHA |
0,5–1,0 g |
Fontes limpas de peixe branco |
|
Sementes de linhaça trituradas |
ALA (vegetal) |
22,8 g |
Conversão em EPA/DHA muito limitada |
|
Sementes de chia |
ALA (vegetal) |
17–19 g |
Boa fonte vegetal; conversão limitada |
|
Nozes |
ALA (vegetal) |
9 g |
Fonte vegetal; ricas em polifenóis |
|
Algas marinhas |
DHA + EPA |
Variável |
Única fonte vegetal de EPA/DHA direto |
|
Ovos enriquecidos em ómega-3 |
DHA + EPA |
0,3–0,6 g |
Galinhas alimentadas com linhaça/algas |
|
Óleo de fígado de bacalhau |
EPA + DHA + Vit A/D |
~19 g |
Suplemento alimentar clássico |
Suplementação de ómega-3: onde encontrar e como escolher
A investigação recente confirma que a suplementação com EPA e DHA tem impacto benéfico na regulação dos triglicéridos, colesterol total, resistência à insulina, pressão arterial, enzimas hepáticas, marcadores inflamatórios e stress oxidativo. No entanto, a qualidade e a forma do suplemento são determinantes para a sua eficácia.
|
Tipo de suplemento |
Fonte |
Teor EPA/DHA |
Vantagens |
A ter em conta |
|
Óleo de peixe standard |
Peixe gordo (salmão, anchova, sardinha) |
~30% EPA+DHA / cápsula |
Acessível, amplamente estudado |
Verificar qualidade e oxidação; escolher certificado IFOS |
|
Óleo de peixe concentrado (TG) |
Peixe gordo – forma triglicérido |
~60–80% EPA+DHA |
Melhor absorção, menos cápsulas |
Mais caro; premium |
|
Óleo de krill |
Crustáceo antártico |
~15–25% EPA+DHA (fosfolípidos) |
Absorção superior; contém astaxantina |
Menor teor de EPA/DHA por dose |
|
Óleo de fígado de bacalhau |
Fígado de bacalhau |
~30% EPA+DHA + Vit A + D |
Extra vitaminas lipossolúveis |
Atenção à dose de vitamina A |
|
Óleo de algas |
Microalgas marinhas |
~25–30% DHA predominante |
Vegan/vegetariano; sustentável |
Teor de EPA variável; verificar rótulo |
Recomendação prática: ao escolher um suplemento, verifique sempre no rótulo o teor exato de EPA e DHA por cápsula (não apenas de “óleo de peixe total”). Procure certificação de qualidade – IFOS (International Fish Oil Standards) ou GOED.














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