Como dizia o poeta inglês John Donne, “nenhum homem é uma ilha”. E, como a ciência tem vindo a confirmar repetidamente, o ser humano não foi desenhado para ser ou viver numa ilha.

Artigo da responsabilidade da Dra. Maria João Martins. Psicóloga clínica nos Serviços de Saúde da Universidade de Coimbra e Coordenadora do livro “Estar Presente” (PACTOR Editora)

 

Enquanto seres humanos, socialmente, precisamos de duas condições satisfeitas. A primeira, comum a todos os animais, é sentir que não estamos em perigo, que não há ameaças e que estamos em segurança.

Porém, para o ser humano sentir-se verdadeiramente seguro socialmente é necessário outra dimensão: o chamado sentimento de pertença, ou seja, a necessidade de sentir que pertence a um grupo, família ou comunidade. Esta segurança implica sentir-se igual e ligado aos outros.

E se a primeira condição pode ser mais ou menos simples de satisfazer perante o nosso contexto, a segunda complexifica as relações humanas, permitindo que nos possamos sentir isolados mesmo quando temos pessoas à nossa volta.

IMPACTO DO ISOLAMENTO

O isolamento social relaciona-se, maioritariamente, com a falta de contacto social no que diz respeito à ausência de contacto social ou familiar, de envolvimento na comunidade ou com o mundo exterior, ou mesmo ausência ou dificuldade de acesso a serviços que satisfaçam as nossas necessidades. Mas, considerando as duas condições que o ser humano precisa em termos sociais, também o isolamento não é sempre objetivo!

Não raras vezes, principalmente quando estamos em sofrimento, sentimos que estamos sozinhos, que somos únicos e de alguma forma separados do resto das pessoas. Esta experiência de isolamento pode ocorrer mesmo que tenhamos pessoas de quem gostamos, que se preocupam connosco e querem ajudar.

Surpreendentemente, o impacto do isolamento na saúde física e emocional é comparável quer estejamos a falar de um isolamento objetivo ou de uma solidão apenas percebida. A evidência científica afirma, de forma estável, consistente e robusta, que o isolamento social tem um impacto negativo na saúde física e mental, comparável a outros fatores de risco conhecidos.

PAPEL DAS REDES SOCIAIS NO MUNDO DIGITAL

A verdade é que nunca estivemos tão conectados com o resto do mundo. Ainda assim, paradoxalmente, os estudos mostram que o uso de redes sociais no mundo digital (particularmente quando é excessivo), mesmo quando a função reportada pelas pessoas é uma função de conexão social, não só não ajuda a resolver o problema como pode agravar os sentimentos de solidão. Assim, urge encarar a solidão, já considerada um problema de saúde pública, com um olhar sério e atento, refletindo sobre formas de a minimizar.

E como é que podemos desenvolver redes verdadeiramente seguras, combatendo sentimentos de solidão e isolamento social? A solução não se reduz a passos simples e sequenciais, mas talvez possamos começar por reconhecer a nossa condição humana e que nunca estamos verdadeiramente sozinhos. Nem no nosso sofrimento, pois em algum lugar do mundo, e estatisticamente provavelmente mais perto, alguém está a sentir o mesmo do que nós – a isto chamamos humanidade partilhada.

COMO REDUZIR A SOLIDÃO

Para lidarmos e reduzirmos a nossa solidão é importante que estejamos disponíveis a sentir algum grau de desconforto que decorre, invariavelmente, das interações sociais – que são complexas e ambíguas, não havendo um script que nos garanta que vão correr bem e que vamos ser aceites, sem crítica ou julgamento.

No entanto, tal como podemos escolher muito do que fazemos no dia a dia, também podemos escolher as pessoas a quem nos queremos ligar, que não corresponderão necessariamente àquelas com quem convivemos mais vezes. Pode ser essencial escolhermos pessoas com interesses em comum, que frequentam espaços e ambientes que nos provocam sensações de conforto e segurança e que pertencem a grupos ou comunidades com os quais nos identificamos.

Para nos ligarmos, é crucial largarmos, o melhor que conseguirmos, a comparação com os outros, a autocrítica, os pensamentos que nos dizem que podemos ser menos (menos bonitos, menos inteligentes, menos interessantes) do que os outros e a procura da perfeição na interação.

A autocrítica e o perfecionismo nas situações sociais limitam-nos e não nos permitem ligar verdadeiramente aos outros. Por outro lado, é importante percebermos que os outros também não são perfeitos. Deste modo, podem existir situações em que nos sentimos julgados ou que nos provocam emoções menos agradáveis sem que tenhamos de desistir da ligação com o outro – a comunicação é um aspeto-chave em qualquer tipo de relação!

CONSELHOS PRÁTICOS

Algumas dicas práticas e aspetos a que é importante prestarmos atenção quando interagimos com os outros:

  • Não estar à procura de ameaças – Quando estamos muito atentos a tudo o que pode correr mal não aproveitamos o momento;
  • Tentar focar toda a nossa atenção na interação social – Ouvir atentamente o outro pode ser um dos melhores antídotos para a nossa ansiedade em contextos sociais;
  • Desligar o “tudo ou nada” da nossa mente – As situações sociais são ambíguas e não há só as duas opções que a nossa mente nos apresenta: “correu de forma perfeita” ou “foi um desastre”;
  • Não procurar ser interessante – A ligação genuína com o outro ocorre quando estamos a ser espontâneos (com o que quer que isso se pareça) e, na maior parte das vezes, quando as nossas vulnerabilidades se mostram;
  • Conectar com o outro implica dialogar – Ou seja, precisamos de falar, sim, mas também precisamos de ouvir e compreender.

E COMO LIDAR COM A SOLIDÃO DO OUTRO?

Por vezes, as dificuldades surgem não quando nos sentimos sozinhos, mas quando nos sentimos incapazes de ajudar as pessoas de quem gostamos. Quando algum familiar ou amigo se começa a isolar temos a sensação de que somos impotentes perante o que está a acontecer. Há, contudo, formas de ajudar:

  • Ouvir e perguntar ou vice-versa. Por vezes, temos receio de perguntar o que se passa, o que a pessoa sente ou como podemos ajudar. O primeiro passo para ajudar é ouvir e compreender. É fulcral perguntarmos no sentido de abrir espaço para a pessoa falar do que sentir importante;
  • Respeitar o silêncio também é importante. Se a pessoa não quer falar não significa que não queira ajuda ou a nossa companhia. Podemos respeitar o silêncio, mas ficar por perto, oferecer ajuda mais prática e manter contactos;
  • Não julgar ou impor a nossa opinião. Este é, talvez, dos passos mais difíceis de fazer, mas é essencial. Podemos oferecer a nossa opinião se e quando ela for solicitada, mas é importante percebermos que o que funciona para nós não funciona necessariamente para o outro;
  • Envolver a pessoa nas nossas rotinas, caso esteja disponível para isso;
  • Ter paciência e não desistir.

 

Leia o artigo completo na edição de maio 2026 (nº 371)