Não exagero quando afirmo que a integração de psicadélicos em contexto clínico representou a maior revolução na Psiquiatria dos últimos 30 anos. Portugal não pode permanecer à margem desta evolução.
Artigo da responsabilidade do Prof. Dr. Victor Amorim Rodrigues. Psiquiatra, professor no ISPA e diretor clínico da The Clinic of Change
Ao longo dos últimos anos, a saúde mental tornou-se uma prioridade de saúde pública na Europa, com o reconhecimento da sua importância para a resiliência social e económica das sociedades europeias. Em vários países, observamos avanços significativos na integração da inovação terapêutica, com base em evidência científica, para colmatar limitações dos tratamentos tradicionais.
Em Portugal, apesar do que as estatísticas nos dizem sobre a incidência de perturbações mentais na nossa sociedade, não estamos a convocar adequadamente todo o conhecimento que temos disponível para responder a um dos grandes desafios de saúde pública do nosso tempo. Um relatório da OCDE de 2019 dava conta de que cerca de 22% da população analisada em Portugal vivia com uma perturbação mental.
DEPRESSÃO RESISTENTE AO TRATAMENTO
Para muitos doentes, problemas como a depressão, a ansiedade, o stress pós-traumático e as adições continuam a representar reduções drásticas no bem-estar e na funcionalidade socioeconómica.
Particularmente sensíveis são os casos de um grupo considerável de doentes que não responde a fármacos como os antidepressivos. A depressão resistente ao tratamento continua a ser um dos maiores desafios da nossa área: muitos doentes passam por vários tratamentos, com medicamentos diferentes, sem uma recuperação funcional assinalável.
Da comunidade médica, mas também das entidades reguladoras e de quem coordena as políticas de saúde pública, esta realidade exige um investimento mais consequente. E isso, do meu ponto de vista, só pode ser plenamente concretizado com o acompanhamento prudente e rigoroso da inovação terapêutica.
PSICOTERAPIA ASSISTIDA POR PSICADÉLICOS
Nos últimos 25 anos, não houve maior passo em matéria de inovação psiquiátrica do que a descoberta do potencial antidepressivo da cetamina. Não obstante, a visibilidade destes tratamentos na esfera pública e o recurso, no nosso sistema de saúde, a programas de psicoterapia assistida por cetamina são pouco assinaláveis.
Será por desconhecimento do modo como funciona este tratamento? Não me parece. Estão perfeitamente enunciados os fatores que explicam o potencial terapêutico desta substância.
A cetamina é um fármaco anestésico com propriedades analgésicas e antidepressivas que promove a neuroplasticidade do cérebro – isto é, permite a criação de novas ligações neuronais, o que é fundamental no tratamento de perturbações caracterizadas por pensamentos aditivos e depressivos de que o doente não se consegue libertar.
Além disso, está comprovada a eficácia da cetamina em pacientes com depressão resistente ao tratamento e a capacidade de esta substância reduzir os sintomas depressivos em poucas horas, ao passo que os antidepressivos demoram semanas a atuar.
EVIDÊNCIA CIENTÍFICA
Será, então, por falta de evidência científica? Também não. Há um corpus extenso de literatura publicada no Ocidente sobre a psicoterapia assistida por psicadélicos. Nas últimas décadas, tem sido publicada evidência robusta sobre os efeitos positivos da administração de psicadélicos num contexto psicoterapêutico estruturado.
É certo que, em Portugal, a produção de evidência científica não é tão assinalável, mas recentemente registou-se um avanço positivo. Uma investigação sobre pacientes da The Clinic of Change, em Lisboa, que resultou numa tese de mestrado defendida no ISPA, registou melhorias estatísticas e clinicamente relevantes nos resultados em saúde de uma amostra de 98 pessoas submetidas a um programa de psicoterapia assistida por cetamina.
O estudo analisou os scores de três escalas referentes a sintomas depressivos, sintomas de ansiedade e sintomas de incapacidade funcional dos doentes no início e no final do tratamento. Na primeira (sintomas depressivos), verificou-se uma redução média de nove pontos, de um grau de depressão moderadamente severo para um grau ligeiro. Na segunda (sintomas de ansiedade), observou-se uma redução média de oito pontos, de um grau de ansiedade moderado para um grau ligeiro. Na terceira (incapacidade funcional), os resultados mostraram uma melhoria média de oito pontos, o que traduz uma melhor capacidade percecionada para desempenhar atividades sociais, pessoais e profissionais.
Tão importante quanto a expressão numérica destes dados é aquilo que eles representam do ponto de vista clínico: doentes que recuperam funcionalidade, esperança e qualidade de vida após longos percursos marcados por um sofrimento persistente e por falta de respostas terapêuticas eficazes.
ABORDAGEM EXIGENTE
Contudo, é importante sublinhar: a psicoterapia assistida por psicadélicos não constitui uma solução universal, nem substitui os tratamentos farmacológicos tradicionais, como os antidepressivos. A investigação nesta área estima que 30% dos doentes não responde à psicoterapia assistida por psicadélicos, embora ainda não saibamos porquê.
Igualmente relevante é elucidar que se trata de uma abordagem terapêutica muito exigente, conduzida por uma equipa multidisciplinar de médicos psiquiatras, psicólogos clínicos e enfermeiros, com protocolos rigorosamente estruturados, que incluem acompanhamento dos pacientes até 12 meses após o fim do tratamento.
A MAIOR REVOLUÇÃO DOS ÚLTIMOS 30 ANOS
Ignorar o potencial terapêutico dos psicadélicos perante a evidência científica acumulada é irresponsável. Há 25 anos, o debate da sociedade civil debruçava-se sobre a relevância da integração de substâncias psicadélicas na medicina psiquiátrica e na psicologia clínica. Em 2026, a discussão que estamos a observar em vários países do Ocidente – como a República Checa, a Austrália, a Noruega, França – é como podemos integrar estas terapêuticas de forma regulada e segura nos sistemas de saúde.
Portugal não pode permanecer à margem desta evolução. Não exagero quando afirmo que a integração de psicadélicos em contexto clínico representou a maior revolução na psiquiatria dos últimos 30 anos. Temos nas mãos um tratamento eficaz, seguro e comprovado. O que falta é dar o próximo passo para ajudar os milhares de pessoas que continuam sem resposta adequada dentro dos modelos tradicionais de tratamento.
Artigo publicado na edição de junho 2026 (nº 372)














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