A PHDA continua ainda a ser, frequentemente, reduzida a uma caricatura: a criança “irrequieta”, “mal-educada”, “sem regras” ou “sem vontade”. Esta visão simplista é injusta e atrasa a identificação de crianças, jovens e adultos com dificuldades reais de atenção, organização, impulsividade, regulação emocional e gestão do tempo.

Artigo da responsabilidade do Dr. José Boavida. Pediatra do Neurodesenvolvimento. Autor do livro “Compreender a PHDA – Perturbação de Hiperatividade e Défice de Atenção” (3.ª edição, LIDEL Editora).

 

A PHDA é uma perturbação do neurodesenvolvimento com forte componente genética e expressão clínica variável. Pode manifestar-se por hiperatividade e impulsividade, mas também, e muitas vezes sobretudo, por desatenção, desorganização, esquecimento, dificuldade em iniciar e concluir tarefas, baixa tolerância à frustração e grande esforço para corresponder às exigências escolares, familiares ou profissionais. Nem todas as pessoas com esta condição “não param quietas”; algumas sofrem em silêncio, em especial raparigas e adolescentes com apresentação desatenta.

A relevância da PHDA não se mede apenas pela sua frequência: estima-se que afete cerca de 5 a 7% das crianças em idade escolar e que, em muitos casos, persista na adolescência e na idade adulta. Mede-se também pelo impacto. Quando não é reconhecida e tratada, pode associar-se a insucesso escolar, conflitos familiares, rejeição pelos pares, baixa autoestima, ansiedade, depressão, acidentes, comportamentos de risco e problemas profissionais. Não estamos perante uma “fase” sem consequências, mas sim uma condição que pode comprometer trajetórias de vida.

Diagnosticar esta perturbação não significa rotular as crianças nem desculpar comportamentos. Significa compreender. O diagnóstico é clínico, cuidadoso e baseado na persistência dos sintomas, na sua presença em mais do que um contexto e no impacto funcional. Não existe análise, ressonância ou teste isolado que confirme ou exclua a PHDA. É necessária uma avaliação que escute a criança ou jovem, a família e a escola, e que a distinga de situações semelhantes.

Tratar também não significa apenas medicar. Significa construir uma resposta ajustada à pessoa e ao seu contexto. A intervenção deve incluir psicoeducação, apoio à família, articulação com a escola, adaptações pedagógicas quando necessárias, promoção de competências de organização e autorregulação, tratamento das comorbilidades e, quando há indicação clínica, medicação. Bem prescrita e monitorizada, a medicação é uma ferramenta terapêutica eficaz e segura; não substitui a educação ou a intervenção escolar, mas pode permitir que a criança ou jovem esteja mais disponível para aprender.

O maior risco continua a ser, porém, o preconceito. Quando se diz que a PHDA não existe; quando se culpa exclusivamente os pais; quando se recusa tratamento a quem dele precisa; ou quando se banaliza o diagnóstico sem avaliação rigorosa. Entre a negação e a banalização, há um caminho exigente: o da ciência, da clínica responsável e da colaboração entre profissionais, famílias e escolas.

Assinalar o Dia Mundial da PHDA, a 13 de julho, deve servir para aumentar literacia, reduzir estigma e lembrar que diagnosticar e tratar atempadamente pode mudar percursos.

Cada criança ou jovem com PHDA tem dificuldades, mas tem também capacidades e potencial. O nosso dever é não deixar que a falta de reconhecimento, de apoio ou de tratamento transforme uma condição tratável numa fonte evitável de sofrimento. Para aprofundar estes temas, o livro “Compreender a PHDA”, publicado pela LIDEL Editora, procura contribuir para essa mudança de olhar.