Milhões de pessoas em todo o mundo vivem presas numa dor que os exames não explicam completamente e que os medicamentos apenas atenuam. A hipnose ericksoniana oferece uma via diferente que não é uma substituição da medicina tradicional, mas uma parceira valiosa numa abordagem verdadeiramente integrativa.
Artigo da responsabilidade da Dra Inês Costa Maia. Psiquiatra e psicoterapeuta
A dor crónica afeta cerca de um em cada cinco adultos em Portugal e na Europa. Não é apenas uma queixa física, mas sim uma vivência que influencia a identidade, as relações, o sono, o humor e o sentido de futuro.
Quando a dor dura mais de três meses, o sistema nervoso sofreu já modificações profundas: ocorreu a chamada sensibilização central, em que a via nociceptiva fica hiperativada mesmo na ausência de lesão ativa. A dor deixa de ser um sinal de alarme e torna-se, ela própria, a doença.
Neste cenário, o modelo exclusivamente farmacológico revela as suas limitações. Os analgésicos de longa duração, os opioides e os adjuvantes psicofarmacológicos têm um papel insubstituível em muitos casos, mas raramente bastam. A pessoa aprende a gerir doses e efeitos secundários, mas raramente aprende a relacionar-se de outro modo com a dor. É aqui que entra a hipnose ericksoniana.
O QUE É, AFINAL, A HIPNOSE ERICKSONIANA?
Desenvolvida pelo psiquiatra norte-americano Milton H. Erickson, esta abordagem distingue-se radicalmente da hipnose de palco e dos modelos clássicos. Erickson, ele próprio portador de sequelas graves de poliomielite e dor crónica, compreendeu que o inconsciente não é um adversário a dominar, mas um recurso criativo a utilizar. A sua hipnose é permissiva, naturalista e profundamente respeitadora da singularidade de cada pessoa.
Na prática clínica, o terapeuta guia o paciente para um estado de foco interno, um estado de transe que qualquer ser humano experimenta naturalmente várias vezes por dia, ao ler absorto, ao conduzir no piloto automático ou ao perder-se num devaneio. Neste estado, a capacidade de dissociação, reenquadramento e criação de novas respostas fisiológicas é notavelmente amplificada.
A hipnose ericksoniana não promete eliminar a dor, mas sim devolver à pessoa a capacidade de ser mais do que a sua dor.
MECANISMOS NEUROBIOLÓGICOS DA HIPNOSE
Nos últimos 20 anos, a neurociência tem validado o que a clínica observava empiricamente. Estudos de neuroimagem demonstram que a hipnose modifica a atividade em regiões cerebrais diretamente envolvidas no processamento da dor, nomeadamente o córtex cingulado anterior, a ínsula e o tálamo, traduzindo-se em alterações mensuráveis e não numa mera sugestão psicológica abstrata.
A hipnose ativa as vias inibitórias endógenas, reduzindo a transmissão do sinal nociceptivo ao nível medular e cortical e permite dissociar a sensação física da dor do sofrimento emocional que lhe está associado, reduzindo o impacto funcional mesmo sem extinguir a sensação.
O estado hipnótico abre caminho a novas respostas ao estímulo doloroso, e regula a hiperativação simpática crónica, melhorando o sono, diminuindo a tensão muscular e quebrando o ciclo dor–ansiedade–mais dor.
VANTAGENS PARA ALÉM DA MEDICAÇÃO
A integração da hipnose ericksoniana num plano terapêutico para dor crónica oferece benefícios que o tratamento farmacológico isolado dificilmente consegue alcançar. Ao contrário de medicamentos, como, por exemplo, os opioides, não causa tolerância, dependência, sedação ou compromisso cognitivo.
A pessoa aprende técnicas de auto-hipnose que pode utilizar de forma autónoma, invertendo uma passividade característica do doente medicado crónico e a intervenção age diretamente sobre a componente psicológica da dor como a ansiedade antecipatória, catastrofização, depressão reativa e insónia.
Em muitos casos permite ainda reduzir progressivamente a carga farmacológica, sob supervisão médica, com ganhos na qualidade de vida, ao mesmo tempo que o doente recupera a sua capacidade de atenção plena, concentração e participação social frequentemente comprometidas pela dor e pela medicação. Ao contrário do efeito pontual de uma toma medicamentosa, as competências adquiridas em hipnose tendem a consolidar-se e a aprofundar-se com a prática continuada.
PARA QUEM PODE SER INDICADA?
A hipnose ericksoniana tem mostrado resultados positivos em múltiplos quadros de dor crónica, como fibromialgia, lombalgia crónica, cefaleias de tensão e enxaqueca, síndrome de intestino irritável com dor, dor neuropática, dor oncológica e dor pós-cirúrgica persistente. A motivação do paciente e a aliança terapêutica são os melhores preditores de resposta, não a intensidade da dor nem o tempo de evolução.
A hipnose ericksoniana deve ser sempre integrada num plano terapêutico global, nunca usada como substituto de avaliação médica ou tratamento farmacológico, quando este é necessário.
A dor crónica não precisa de ser uma sentença, mas pode ser um convite a uma reorganização profunda da relação com o corpo, com o sofrimento e com a própria vida. A hipnose ericksoniana, nas mãos de um clínico experiente, pode ser o instrumento que transforma essa reorganização numa possibilidade real.
Artigo publicado na edição de maio 2026 (nº 371)














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