Maio é o mês em que celebramos as mães, as que já o são e todas as que sonham um dia vir a ser. Para muitas mulheres, contudo, esse sonho traz consigo uma espera que se prolonga além do que tinham imaginado. Uma espera que traz dúvidas e, muitas vezes, uma dor e angústia nem sempre fácil de partilhar.
Em Portugal, estima-se que cerca de 300 mil casais enfrentem dificuldades para alcançar uma gravidez. Um número que ainda hoje sofre o peso de um tabu que importa quebrar.
Considera-se que existe um quadro de infertilidade quando a gravidez não ocorre após 12 meses de relações sexuais regulares e sem contraceção. No caso de mulheres com mais de 35 anos, esse prazo reduz-se para seis meses, dada a diminuição progressiva da reserva ovárica associada à idade.

“A infertilidade é um problema mais comum do que muitas pessoas imaginam e pode ter causas diversas: femininas, masculinas, mistas ou, em alguns casos, de origem inexplicada. Nem sempre existe uma resposta clara, mas há quase sempre caminhos a explorar”, afirma a Dra. Catarina Godinho, ginecologista e subdiretora do IVI Lisboa.
A idade continua a ser um fator determinante. A quantidade e a qualidade dos ovócitos diminuem de forma considerável a partir dos 35 anos, o que torna importante a procura precoce de aconselhamento médico especializado.
Além da idade, existem outros fatores que podem comprometer a fertilidade: o sedentarismo, uma alimentação desequilibrada, o consumo excessivo de álcool e tabaco, o excesso de peso e a obesidade. “Adotar um estilo de vida saudável é essencial, quer para melhorar a fertilidade, quer para garantir uma gravidez com menos riscos. São decisões do quotidiano que podem fazer uma enorme diferença”, aconselha a especialista.
GERIR AS EMOÇÕES: A RESILIÊNCIA COMO ALIADA
Percorrer o caminho da infertilidade é, para a maioria das mulheres, um processo emocionalmente exigente. A frustração acumulada a cada tentativa falhada pode gerar ansiedade, tristeza profunda e até isolamento social. Reconhecer e validar estas emoções é o primeiro passo para as gerir de forma saudável. “O equilíbrio emocional é um dos alicerces de todo este processo. Ter acompanhamento psicológico, manter interesses e ligações pessoais, e partilhar o percurso com quem compreende os desafios envolvidos pode ajudar a enfrentar este caminho com mais leveza e esperança”, reforça a Dra. Catarina Godinho.
A boa notícia é que a medicina reprodutiva tem evoluído de forma notável, oferecendo soluções para mulheres com e sem patologia diagnosticada. Em Portugal, as mulheres podem aceder aos tratamentos de Procriação Medicamente Assistida (PMA) até aos 50 anos. Uma das razões para o limite fixado teve em conta o facto de, a partir dos 35 anos, a probabilidade de se engravidar de forma natural diminuir, caindo a pique a partir dos 40 anos, passando para 1% ou menos quando a mulher atinge os 48 anos.”
“Independentemente da causa, o diagnóstico precoce e o acompanhamento por uma equipa especializada são determinantes. Quanto mais cedo se inicia o processo de avaliação, mais opções existem e melhores são os resultados”, conclui.
AVANÇOS QUE ESTÃO A REDEFINIR A PMA
A medicina reprodutiva está a entrar numa nova fase, marcada pela convergência entre ciência, tecnologia e análise de dados em larga escala. Mais do que introduzir novas técnicas, este momento traduz uma mudança profunda na forma como se olha para a fertilidade, com abordagens cada vez mais individualizadas, construídas com base nas características biológicas de cada pessoa.
Neste contexto, a inteligência artificial (IA) assume um papel central. “Ao permitir analisar milhares de dados clínicos e laboratoriais em simultâneo, está a apoiar decisões que antes dependiam sobretudo da experiência humana”, sublinha o Dr. Samuel Ribeiro, ginecologista e diretor do IVI Lisboa.
Atualmente já é possível recorrer a sistemas que ajudam a selecionar os embriões com maior probabilidade de sucesso ou a prever a resposta ovárica à estimulação hormonal, tornando cada tratamento mais ajustado e potencialmente mais eficaz.

Um estudo recente com mais de 70 mil embriões transferidos demonstrou, por exemplo, que a utilização de IA pode reduzir em cerca de 7% o tempo necessário para alcançar uma gravidez. “A inteligência artificial representa um salto qualitativo na nossa capacidade de selecionar o embrião com melhor prognóstico, oferecendo apoio objetivo baseado em dados ao embriologista. É um avanço que se traduz diretamente em menos tempo de tratamento e menos stress emocional para as mulheres”, afirma o Dr. Samuel Ribeiro.
Por sua vez, a Dra. Evelin Lara Molina, diretora da Unidade de Ovodoação do IVI Barcelona, destaca o potencial de novas ferramentas tecnológicas que estão a transformar a avaliação da fertilidade, como o OSIS Ovary, uma plataforma baseada em inteligência artificial que permite analisar de forma automatizada e objetiva os folículos ováricos através de ecografia transvaginal 3D. “Em menos de um minuto, fornece medições precisas do número, diâmetro, volume, textura e densidade folicular, convertendo um processo tradicionalmente manual e dependente do operador numa análise estandardizada e reprodutível”.

Além disso, esta tecnologia permite correlacionar os dados ecográficos com os resultados reprodutivos, contribuindo para a identificação de novos biomarcadores de fertilidade e preditores de sucesso. “O seu caráter totalmente automatizado, em cloud e independente da marca do ecógrafo posiciona-a como uma ferramenta diferenciadora para integrar uma avaliação folicular objetiva, reprodutível e escalável na prática clínica habitual”, afirma a Dra. Evelin Lara Molina.
“A combinação entre inteligência artificial e inovação científica está a tornar a Procriação Medicamente Assistida mais precisa, mais personalizada e, progressivamente, mais próxima das necessidades reais de quem procura apoio para concretizar um projeto de parentalidade”, conclui o Dr. Samuel Ribeiro.
Leia o artigo completo na edição de maio 2026 (nº 371)














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