O que ninguém vê depois de um AVC – e como a neuropsicologia pode ajudar a recuperar muito mais do que a memória.
Artigo da responsabilidade do Dr. Alexandre Bogalho. Psicólogo clínico. Neuropsicólogo
Há pessoas que sobrevivem a um AVC e regressam a casa com uma notícia extraordinária: estão vivas. A medicina fez o seu trabalho, o hospital deu alta e a família respirou de alívio. Tudo parecia encaminhado para um final feliz. Só havia um pequeno pormenor: a pessoa que regressou nem sempre é exatamente a mesma que saiu.
Consegue andar, mas esquece-se dos compromissos. Fala, mas perde o fio à conversa. Sabe quem é, mas já não se reconhece inteiramente. Irrita-se com facilidade, cansa-se a pensar, emociona-se sem compreender porquê. E ouve, demasiadas vezes, aquela frase terrível que pronunciamos com as melhores intenções: “Mas tu estás tão bem!”
O problema é que nem todas as sequelas de um AVC se veem ao espelho.
Quando pensamos num acidente vascular cerebral, imaginamos dificuldades em andar, um braço que deixou de obedecer ou palavras que se recusam a sair. São consequências reais e frequentemente devastadoras. Mas o cérebro não serve apenas para movimentar braços e pernas. É também onde guardamos memórias, organizamos decisões, regulamos emoções e construímos a ideia que temos de nós próprios.
Um AVC pode comprometer todas estas capacidades. E é aqui que entra uma especialidade ainda pouco conhecida do grande público: a neuropsicologia.
Recuperar a cabeça também é reabilitação
A neuropsicologia procura compreender como as alterações do cérebro afetam o pensamento, a memória, o comportamento e as emoções. Através de avaliações específicas, identifica capacidades comprometidas e preservadas, ajudando a construir programas de recuperação adaptados a cada pessoa.
Não se trata simplesmente de fazer palavras cruzadas ou recomendar sudoku, embora o nosso entusiasmo nacional por estes passatempos merecesse, por si só, uma investigação.
Trata-se de ajudar alguém a voltar a gerir o dinheiro, preparar uma refeição, recordar uma conversa, organizar o dia ou recuperar a confiança para sair de casa.
O cérebro possui uma propriedade fascinante chamada neuroplasticidade: a capacidade de modificar o seu funcionamento e reorganizar algumas ligações em resposta à experiência e à aprendizagem. Não faz milagres, nem devolve necessariamente tudo o que se perdeu. Mas oferece possibilidades reais de recuperação e adaptação.
Numa investigação que desenvolvi na Universidade de Coimbra, em 2024, analisando 41 estudos científicos sobre reabilitação neuropsicológica após AVC, encontrei resultados encorajadores. Diversas intervenções revelaram benefícios na atenção, memória, linguagem, capacidade de planeamento e qualidade de vida.
Algumas das abordagens mais promissoras recorrem a programas de treino cognitivo por computador e à realidade virtual. Imagine-se alguém a treinar, num ambiente digital, situações semelhantes às da vida quotidiana. A tecnologia deixa de servir apenas para nos distrair e passa a ajudar-nos a recuperar capacidades.
Naturalmente, nem todos os estudos encontraram os mesmos benefícios. A recuperação depende de múltiplos fatores e exige acompanhamento individualizado. Não há programas milagrosos nem cérebros iguais.
Há também um coração para reabilitar
Um AVC não afecta apenas aquilo que conseguimos fazer. Pode transformar aquilo que sentimos acerca de nós próprios.
A depressão, a ansiedade, o medo de voltar a adoecer e a perda de autoestima podem acompanhar a recuperação. Quem era independente pode passar a precisar de ajuda. Quem cuidava dos outros pode tornar-se dependente deles.
É uma mudança profunda na identidade, não apenas na saúde.
Por isso, o acompanhamento psicológico, a participação da família e a recuperação da autonomia devem fazer parte do tratamento. Não basta ensinar uma pessoa a voltar a fazer coisas. É preciso ajudá-la a voltar a sentir que a sua vida lhe pertence.
Há ainda uma questão que os sistemas de saúde não podem ignorar: o custo de não reabilitar. A investigação analisada sugere que determinadas intervenções podem trazer benefícios clínicos e apresentar uma relação favorável entre custos e resultados, embora sejam necessários mais estudos económicos.
O AVC não termina quando termina o internamento. Continua muitas vezes à mesa de jantar, no emprego a que não se consegue regressar, nas relações familiares e nos pequenos gestos que antes não exigiam qualquer esforço.
A boa notícia é que a recuperação pode continuar muito para além da alta hospitalar.
Talvez esteja na altura de deixarmos de perguntar apenas se alguém sobreviveu a um AVC e começarmos a perguntar como está a viver depois dele.
Porque salvar uma vida é extraordinário. Ajudar alguém a recuperá-la, na medida do possível, é o passo seguinte.














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