Em média, uma em cada cinco pessoas não dormiu bem esta noite. A maioria não fala sobre isso, e o impacto é maior do que se costuma admitir.

Falamos cada vez mais de saúde mental e de burnout, mas há um fator que muitas vezes os precede e raramente entra na conversa: a insónia. Não é a noite ocasional mal dormida, que é apenas parte de ser humano, mas uma condição clínica distinta, com critérios próprios e consequências mensuráveis.

O QUE A INSÓNIA REALMENTE É

De acordo com a ICSD-3, norma clínica internacional para os distúrbios do sono, a insónia manifesta-se sobretudo de duas formas: a de curta duração, geralmente ligada a picos de stress; e a insónia crónica, um padrão persistente de dificuldade em adormecer, manter o sono ou acordar demasiado cedo, pelo menos três noites por semana durante três meses, que compromete de forma significativa o funcionamento diário.

Não se trata apenas de cansaço. A privação continuada de sono provoca lentidão cognitiva, desregulação emocional e menor capacidade de concentração e decisão, e raramente surge sozinha: existe uma relação forte, frequentemente bidirecional, com a ansiedade, a depressão e condições como a dor crónica.

Em Portugal, um estudo representativo revelou que quase 43% dos adultos referem perturbações do sono, e cerca de 20% sofrem de insónia crónica, associadas a fatores como ecrãs na cama, precariedade laboral e a pressão de uma vida profissional sempre ligada. Ainda assim, embora um quarto da população cumpra critérios clínicos, apenas cerca de 10% tenha recebido um diagnóstico formal.

UM CUSTO QUE RARAMENTE SE MEDE

No contexto profissional, os números são difíceis de ignorar. Colaboradores com insónia clínica faltam, em média, 5 a 9 dias adicionais de baixa por ano e apresentam uma perda de produtividade até 58% superior à de quem dorme de forma saudável. Estima-se que o custo da insónia para uma empresa, somando absentismo, presentismo, erros e rotatividade, se situe entre 2500 e 4000 euros por colaborador afetado, por ano.

Há também uma ligação direta ao burnout: com a privação crónica de sono, a função executiva e a resiliência emocional são das primeiras capacidades a falhar. Dormir mal aumenta o cortisol e reduz a capacidade de lidar com o stress do dia a dia, o que perturba ainda mais o sono, num ciclo que se acelera com o tempo. Quando alguém procura apoio para burnout é frequente já estar a dormir mal há um ano ou mais.

PORQUE AS SOLUÇÕES MAIS COMUNS NÃO CHEGAM

Os conselhos de higiene do sono, evitar ecrãs antes de deitar, manter o quarto fresco, horários regulares, não estão errados, mas tratam das condições à volta do sono, não dos seus mecanismos. As aplicações de meditação têm valor na gestão do stress, mas a evidência não as sustenta como tratamento para um distúrbio clínico do sono. E os comprimidos, ainda a resposta mais comum, tratam o sintoma de imediato, mas, com frequência, agravam o problema a prazo, suprimindo a arquitetura do sono que precisa de ser reeducada.

O TRATAMENTO COM EFICÁCIA COMPROVADA

A única intervenção com base em evidência sólida para tratar a insónia pela raiz é a terapia cognitivo-comportamental para a insónia, a CBT-I, recomendada como primeira linha por organizações médicas em todo o mundo.

A insónia não é um mau hábito, é uma resposta aprendida em que o cérebro, sob stress repetido, passa a associar a cama e o próprio ato de tentar dormir a um estado de vigília e ansiedade. Quanto mais a pessoa se esforça por adormecer, mais alerta fica o sistema nervoso, um paradoxo que quem sofre de insónia reconhece de imediato.

A CBT-I atua por meio de dois mecanismos: a restrição do sono, que consolida temporariamente o sono numa janela mais curta para reconstruir o impulso natural de dormir, com melhorias muitas vezes visíveis logo nas primeiras duas semanas; e o controlo de estímulos, que restabelece a associação entre a cama e o sono em vez da vigília, com regras simples como ir para a cama apenas quando se tem sono.

A par destes, a componente cognitiva questiona crenças que alimentam a ansiedade, como a ideia de que é impossível funcionar sem oito horas de sono.

Vários ensaios controlados aleatorizados mostram que a CBT-I produz melhores resultados a longo prazo do que a medicação, sem os efeitos secundários ou a dependência associados aos fármacos.

Fonte: Mirror SleepWise

Leia o artigo completo na edição de outubro 2026 (nº 375)