Nunca se falou tanto de saúde mental. A expressão entrou nas escolas, nas empresas, nas redes sociais, nas conversas familiares, nos discursos políticos e na publicidade. Aprendemos palavras que antes pertenciam quase exclusivamente ao espaço clínico: trauma, ansiedade, depressão, limites, relações tóxicas, regulação emocional, narcisismo, vinculação. Há, claro, neste movimento, uma transformação importante, uma vez que o sofrimento psíquico saiu em parte do silêncio e da vergonha, tornando-se mais dizível e, por isso, também mais suscetível de ser reconhecido e cuidado.

Sabemos, contudo, que quando uma ideia se torna omnipresente precisamos de voltar a interrogá-la. De que falamos quando falamos de saúde mental? E, sobretudo, que ideia de pessoa e de sociedade estamos a construir quando definimos aquilo que é ser mentalmente saudável?

Artigo da responsabilidade da Dra. Patrícia Câmara. Psicanalista e psicóloga.

 

Há qualquer coisa de inquietante na possibilidade de a própria saúde mental adoecer de excesso de saúde, ou seja, de se transformar numa espécie de ideal normativo, higienizado, feito de pessoas emocionalmente reguladas, produtivas, autónomas, capazes de estabelecer limites, identificar necessidades, afastar relações que as perturbam e gerir eficazmente a sua vida interior. Como se uma boa saúde mental pudesse ser reconhecida pela ausência de ruído, de sombra e de noite. No entanto, não há psiquismo humano sem a sua própria noite.

Transportamos internamente contradições, ambivalências, dependências, zonas cegas, desejos incompatíveis entre si. Amamos e odiamos às vezes as mesmas pessoas, aproximamo-nos e afastamo-nos, desejamos liberdade e a liberdade de procurar colo, queremos mudar e permanecer. E é desta riqueza, a que tantas vezes, se chama erroneamente confusão que se dá vida à vida psíquica.

Pensar implica suportar durante algum tempo não saber.

A mentalização vive nesse espaço. Não apenas enquanto capacidade de pensar os nossos estados mentais, mas enquanto possibilidade de imaginar a existência de uma mente no outro. O outro sente, pensa, deseja, teme e interpreta a realidade a partir de uma história que não é a nossa. Parece simples e é talvez uma das aquisições psíquicas mais difíceis de sustentar, sobretudo quando estamos feridos, zangados ou assustados.

É precisamente aqui que a reflexão sobre saúde mental deixa de poder ser exclusivamente individual.

Não é preciso deixar de ver o outro para o desumanizar. Por vezes vemos perfeitamente e escolhemos não considerar inteiramente aquilo que vemos.

Talvez seja esse um dos aspetos mais perturbadores deste terreno: a perversidade não aparece necessariamente com a aparência da violência. Pode apresentar-se socialmente bem adaptada, eficaz, sedutora, competente e até psicologicamente informada. Pode conhecer a linguagem dos afetos sem se deixar afetar por eles.

É neste ponto que a normopatia se torna particularmente importante para pensar a saúde mental contemporânea. Porque também se pode adoecer de adaptação.

Estamos habituados a reconhecer o sofrimento daqueles que não conseguem adaptar-se. A pessoa que para, que entra em depressão, que desenvolve sintomas, que deixa de produzir, que não consegue acompanhar o ritmo esperado. Muito menos frequentemente interrogamos aqueles que se adaptam demasiado bem. Os que conseguem funcionar num contexto profundamente disfuncional sem que aparentemente alguma coisa neles proteste.

Uma sociedade adoecida não produz apenas pessoas que adoecem perante ela. Produz também pessoas extraordinariamente adaptadas à sua doença.

Podemos funcionar, produzir, responder, cumprir, fazer exercício, dormir o número certo de horas, estabelecer limites, monitorizar emoções e organizar cuidadosamente o bem-estar e, ainda assim, estar progressivamente afastados da experiência viva de existir. Podemos conhecer todos os nomes das emoções e ter cada vez menos capacidade para as viver a partir de dentro.

Há uma diferença importante entre regular e eliminar. Regular uma emoção é poder senti-la sem ficar inteiramente submetido a ela, já eliminar tudo o que incomoda é outra coisa. Uma ideia de saúde mental excessivamente centrada na regulação como eliminação corre o risco de produzir uma espécie de assepsia emocional: retirar da experiência tudo aquilo que perturba, contradiz, suja ou desorganiza.

Como já referi, a saúde mental não só não é assética como depende desse não assepticismo.

Uma mente viva contém restos. Tem zonas menos bonitas, menos apresentáveis, menos coerentes com a imagem que gostaríamos de ter de nós próprios. Há inveja, agressividade, medo, dependência, desejo, vergonha, culpa. Há amor atravessado por raiva e raiva atravessada por amor. Há momentos em que não somos generosos, lúcidos ou particularmente evoluídos.

Saúde mental não é não ter tudo isto, mas também não é agir isto. É conseguir reconhecê-lo sem precisar de o expulsar imediatamente de nós ou colocá-lo violentamente no outro.

Há alguma coisa de profundamente humana nessa sujidade. Ser livre não é estar obrigado a obedecer a todos os nossos desejos.

Pelo contrário, a liberdade psíquica exige precisamente a possibilidade de não agir imediatamente. Poder desejar sem fazer. Poder sentir sem descarregar. Poder querer e, ainda assim, pensar. Poder reconhecer um limite sem o viver automaticamente como violência ou ataque à identidade.

A mentalização volta a ser decisiva aqui porque introduz espessura entre desejo e realidade. Obriga-nos a considerar consequências, contextos e outras pessoas. Uma sociedade com pouca capacidade de mentalização não é necessariamente uma sociedade sem emoções; pode ser uma sociedade saturada delas. Emoções rapidamente expressas, intensamente afirmadas e pouco pensadas.

Talvez uma parte do nosso adoecer coletivo se encontre justamente nesta dificuldade crescente em transformar experiência em pensamento.

As tecnologias e as redes sociais não criaram sozinhas este problema, mas amplificaram algumas das suas condições. A velocidade favorece a reação. A exposição favorece a comparação. Os algoritmos beneficiam da intensidade emocional. A experiência precisa de ser rapidamente convertida em imagem, posição ou opinião. Entre acontecer alguma coisa e dizermos o que pensamos sobre ela existe cada vez menos tempo para descobrirmos o que realmente pensamos.

Não se trata, claro, de demonizar a tecnologia. É inegável que liga pessoas, democratiza conhecimento, permite pertenças e dá voz a quem durante muito tempo não a teve. Mas nenhuma ligação tecnológica substitui inteiramente a experiência da presença. O corpo do outro, o silêncio, o embaraço, a espera, a impossibilidade de controlar completamente a resposta são também experiências psíquicas fundamentais. A relação obriga-nos a encontrar uma alteridade que não podemos editar.

Uma saúde mental viva, vive também de relações suficientemente seguras para podermos ser desorganizados sem sermos abandonados e suficientemente verdadeiras para não sermos permanentemente confirmados.

É necessário recuperar esta complexidade quando falamos de saúde mental. Uma linguagem excessivamente simplificada pode transformar instrumentos de libertação em novas formas de aprisionamento. “Estabelecer limites”, “priorizar-me”, “afastar pessoas tóxicas”, “proteger a minha paz” podem corresponder a movimentos psíquicos fundamentais, contudo, também podem, em determinados momentos, servir para evitar conflito, responsabilidade, reparação e contacto com a diferença.

Não é a expressão que determina a saúde do gesto. É o funcionamento psíquico que a sustém.

É também por isso que a psicoterapia psicanalítica e a psicanálise não servem para produzir pessoas mais adaptadas, mais eficientes ou permanentemente felizes. O trabalho terapêutico não é uma operação de limpeza do psiquismo. Não se destina a eliminar tudo aquilo que dói até conseguirmos finalmente funcionar sem perturbação.

Há sofrimentos que precisam de diminuir, evidentemente. Há sintomas incapacitantes, depressões, ansiedades, traumatismos e formas graves de doença mental que exigem tratamento e, em muitas situações, intervenções multidisciplinares. Defender a complexidade não significa romantizar o sofrimento nem negar a doença.

Significa recusar que toda a dor seja imediatamente transformada em patologia.

Há sofrimento que pede tratamento. Há sofrimento que pede relação. Há sofrimento que pede tempo. E há sofrimento que nos diz alguma coisa sobre o mundo em que estamos a viver.

Se uma criança não suporta um contexto escolar permanentemente acelerado, se um trabalhador entra em exaustão numa cultura de disponibilidade contínua, se um adolescente sofre num universo organizado em torno da exposição, comparação e validação, precisamos certamente de cuidar dessa pessoa. Mas precisamos também de conseguir perguntar o que há naquele contexto que está a produzir sofrimento.

A saúde mental não pode transformar-se no departamento de reparação individual dos danos produzidos coletivamente.

Pensar em profundidade tornou-se, por isso, quase um gesto de resistência. Não porque pensar nos torne necessariamente melhores, mas porque introduz uma demora entre nós e aquilo que fazemos ao outro. Obriga-nos a permanecer algum tempo diante do que não compreendemos, a reconhecer aquilo que nos implica e, sobretudo, a não transformar imediatamente o incómodo em algo que deve ser eliminado.

Talvez seja aqui que a saúde mental deixe definitivamente de poder ser pensada apenas como uma qualidade do indivíduo. Uma sociedade também se revela naquilo que consegue escutar do sofrimento que produz. Se toda a perturbação for devolvida àquele que a sente como incapacidade de adaptação, alguma coisa essencial fica por pensar. O sintoma deixa de interrogar o contexto e o contexto torna-se invisível.

Interessa-me, por isso, uma saúde mental que não feche a pergunta. Que possa existir também nesse lugar menos limpo, nas margens onde aquilo que foi expulso do centro regressa e nos obriga a olhar. Não para fazer da margem um novo centro, nem da diferença uma nova norma, mas para conservar a possibilidade de sermos afectados pelo que não somos, pelo que não sabemos e pelo que preferiríamos talvez não ver.

Porque talvez uma sociedade mentalmente saudável não seja aquela onde todos aprenderam finalmente a adaptar-se. Seja aquela que ainda consegue deixar-se transformar por aquilo que, nas suas margens, insiste em não caber.