Quando uma pessoa sofre um AVC, é operada ao joelho ou vive com uma doença crónica, a reabilitação é, muitas vezes, a etapa mais longa e exigente do tratamento. Não termina com a saída do hospital. Pelo contrário, é muitas vezes nessa altura que começa, sendo também a fase em que muitos doentes acabam por interromper o processo de recuperação.
Artigo da responsabilidade de Silvia Raga. CEO e cofundadora da DyCare
Não o fazem por falta de vontade, mas por razões muito práticas, como a distância ao centro de tratamento, as listas de espera, as dificuldades de mobilidade ou a impossibilidade de se deslocarem a uma consulta várias vezes por semana. E, quando isso acontece, os progressos alcançados no hospital podem perder-se.
A telereabilitação clínica surge para dar resposta a esta realidade, mas importa esclarecer, desde logo, o que é e o que não é. Podemos defini-la como a prestação de cuidados de reabilitação à distância, através de tecnologias digitais e sob a orientação de profissionais de saúde.
As duas palavras que compõem esta designação são importantes. «Clínica» significa que existe um diagnóstico, um plano individualizado e objetivos terapêuticos definidos. «Reabilitação» significa que o propósito é recuperar ou preservar a capacidade funcional, a mobilidade, a autonomia e a qualidade de vida da pessoa.
Não se trata, por isso, de uma videochamada ocasional, de uma aplicação com exercícios genéricos ou de um vídeo de ginástica que se segue por iniciativa própria. A diferença está na presença de um profissional que acompanha o doente ao longo de todo o processo: avalia a sua condição, define um programa terapêutico, adapta-o à medida que a recuperação evolui e toma decisões com base nos resultados.
Na prática, tudo começa como em qualquer programa de reabilitação, com uma avaliação inicial que permite determinar o ponto de partida e estabelecer os objetivos. A partir daí, o doente realiza em casa os exercícios prescritos, recebendo orientações claras sobre a forma correta de os executar. E o melhor é que não precisa de dispositivos adicionais nem de equipamento específico: basta um telemóvel, um tablet ou um computador com câmara para realizar os exercícios e receber correções em tempo real.
O essencial é que a comunicação funciona nos dois sentidos. O profissional recebe informação sobre a forma como os exercícios são executados, a frequência com que são realizados e os resultados obtidos, podendo corrigir movimentos, ajustar a intensidade ou alterar o plano terapêutico sem ter de esperar pela próxima consulta presencial.
A vantagem mais evidente é a melhoria do acesso aos cuidados. A reabilitação chega a pessoas que vivem longe de um centro de tratamento, que têm dificuldades de deslocação ou que prestam cuidados a familiares. Para muitas pessoas idosas, permite ainda evitar deslocações que, por vezes, são quase tão cansativas como a própria sessão de reabilitação.
Mas há outras vantagens. A telereabilitação facilita a continuidade dos tratamentos, que deixam de ser interrompidos por férias, condições meteorológicas adversas ou dificuldades de agenda. Permite também realizar exercícios com maior frequência, algo determinante em muitos processos de recuperação, e dá ao doente um papel mais ativo, uma vez que treina no mesmo ambiente em que terá de se movimentar no dia a dia: a sua casa, a sua cozinha, as suas escadas.
Ainda assim, seria um erro apresentá-la como uma solução universal. Existem situações que exigem técnicas manuais, equipamentos específicos ou a presença física do terapeuta, assim como doentes para quem este modelo não é adequado, devido à sua condição clínica, às suas capacidades cognitivas ou à ausência de condições de segurança em casa.
Também não podemos ignorar a exclusão digital. Nem todas as pessoas têm a mesma familiaridade com a tecnologia ou as mesmas possibilidades de acesso. Por isso, a evolução mais sensata aponta para modelos híbridos, que combinam sessões presenciais e à distância, de acordo com a fase da recuperação e as necessidades de cada doente.
Para quem pondera recorrer a esta modalidade de tratamento, há algumas questões fundamentais que importa colocar: quem é o profissional responsável pelo acompanhamento? O programa está adaptado à situação clínica ou é genérico? Existe uma verdadeira monitorização da evolução do doente? Como são protegidos os dados de saúde? E de que forma é assegurada a articulação com o médico e a restante equipa clínica?
A telereabilitação clínica não pretende substituir os profissionais de saúde por ecrãs, mas sim alargar o alcance do seu trabalho. Não leva todo o hospital para dentro de casa, mas pode levar até à sala de estar aquilo que é mais importante na reabilitação hospitalar: um plano pensado para cada pessoa e um profissional atento à sua evolução.
Num contexto de envelhecimento da população e de aumento das doenças crónicas, permitir que mais pessoas consigam completar o seu processo de recuperação não é apenas uma questão de comodidade. É uma questão de saúde pública.














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