As quedas continuam a ser uma das principais causas de lesões e perda de autonomia entre a população mais idosa em Portugal. Este problema, que é frequentemente desvalorizado, apresenta consequências graves na saúde da população e representa um verdadeiro desafio para os sistemas de saúde.

A 24 de junho assinala-se o Dia Mundial de Prevenção de Quedas, uma data que pretende chamar a atenção para uma realidade que afeta milhares de pessoas. Estudos recentes estimam que entre 28% e 35% das pessoas com mais de 65 anos sofrem pelo menos uma queda por ano. Muitos destes episódios acontecem precisamente onde as pessoas se sentem mais seguras: em casa.

Artigo da responsabilidade do Dr. Luís Sousa. Professor Coordenador na ESSATLA – Escola Superior de Saúde Atlântica

 

De acordo com a Organização Mundial da Saúde, as quedas constituem uma das principais causas de lesões acidentais em todo o mundo, representando, por isso, um importante problema de saúde pública. Entre os idosos, o risco é particularmente elevado, devido a fatores como a diminuição da força muscular, alterações do equilíbrio, problemas visuais, doenças crónicas, uso de múltiplos medicamentos, medo de cair e ambientes pouco adaptados.

O que ainda é pouco abordado é que as consequências de uma queda vão muito além das fraturas ou dos traumatismos e, para muitas pessoas, um episódio deste tipo marca o início de um ciclo de medo, insegurança e redução da mobilidade. A chamada “síndrome pós-queda” pode conduzir ao isolamento social, à diminuição da atividade física e à perda progressiva de autonomia e independência, com impacto direto na saúde mental e emocional. Já do ponto de vista económico e organizacional, as quedas representam também uma carga significativa para o sistema de saúde. Os internamentos prolongados, cirurgias, processos de reabilitação, cuidados continuados e apoio domiciliário traduzem-se em custos diretos e indiretos elevados e numa maior pressão sobre os serviços de saúde.

Embora as estatísticas sejam menos favoráveis, há um dado essencial que deve ser sublinhado: muitas destas situações podem ser prevenidas. E é neste contexto que considero que a intervenção dos enfermeiros assume um papel central, por serem profissionais que estão na linha da frente na identificação dos fatores de risco, da educação para a saúde e da implementação de estratégias preventivas, como as recomendadas no guia Preventing Falls and Reducing Injury from Falls (2017) desenvolvido pela Registered Nurses’ Association of Ontario (RNAO).

A sua atuação deve basear-se numa avaliação sistemática do equilíbrio, da marcha, força muscular, postura, medicação e das condições ambientais. Algumas das medidas preventivas passam, por isso, pelo incentivo à prática regular de exercício físico – adaptado naturalmente à idade e condição de cada pessoa –, com o intuito de melhorar o equilíbrio, a força muscular e a coordenação. A revisão da medicação, sobretudo em pessoas que tomam vários fármacos, é crucial para diminuir episódios de tonturas ou alterações do estado de alerta.

A adaptação do domicílio é outro eixo essencial da intervenção. Medidas simples como melhorar a iluminação, remover obstáculos, instalar barras de apoio, utilizar calçado adequado e organizar os espaços reduzem significativamente o risco de quedas. Neste processo, o enfermeiro especialista assume um papel educativo e de acompanhamento, promovendo ambientes mais seguros.

A literacia em saúde constitui igualmente um pilar fundamental. Ao informar as pessoas sobre os riscos, os sinais de alerta e as estratégias de proteção aumentamos a capacidade de autocuidado, reforçando a autonomia e autoeficácia.

Por tudo isto, neste Dia Mundial de Prevenção de Quedas importa reforçar uma mensagem clara: cair não é uma consequência inevitável do envelhecimento. Com intervenção adequada, acompanhamento especializado e investimento na prevenção, é possível reduzir riscos e preservar a qualidade de vida.

Investir na prevenção de quedas é proteger a dignidade, a independência e o direito a envelhecer com segurança, traduzindo-se num investimento sustentável na saúde e no bem-estar.