Os cuidados domiciliários deixaram de ser uma alternativa e tornaram-se uma parte essencial na resposta em saúde, não substituindo os hospitais, mas servindo como complemento.

Artigo da responsabilidade do Dr. Tiago Marques. CEO da Puro Cuidado

 

Estamos a viver uma mudança profunda na forma como olhamos para os cuidados de saúde. Durante muitos anos, o centro do sistema foi o hospital. Hoje continua a ser indispensável, mas já não pode ser o único lugar onde se cuida de pessoas.

O envelhecimento da população, o aumento das doenças crónicas e a maior esperança média de vida obrigam-nos a pensar num modelo mais integrado, em que o verdadeiro desafio deixa de ser apenas tratar a doença e passa por garantir que a recuperação continua depois da alta hospitalar.

TRANSFORMAÇÃO ESTRUTURAL

Portugal é um dos países mais envelhecidos da Europa. Segundo o Instituto Nacional de Estatística, Portugal atingiu, em 2025, um índice de envelhecimento de 188,8 idosos por cada 100 jovens, uma tendência que continuará a acentuar-se nas próximas décadas. Em simultâneo, aumentam as situações de dependência, de multimorbilidade e de necessidade de acompanhamento continuado. Estamos, portanto, perante uma transformação estrutural da sociedade portuguesa.

É precisamente neste contexto que os cuidados domiciliários deixam de ser uma alternativa e tornam-se uma parte essencial na resposta em saúde, não substituindo os hospitais, mas servindo como complemento. O hospital deve responder a momentos agudos, à cirurgia, ao diagnóstico e ao tratamento especializado. A recuperação, a reabilitação e o acompanhamento prolongado, por seu turno, podem, em muitos casos, acontecer em casa, onde a pessoa mantém as suas rotinas, a proximidade da família e uma maior sensação de autonomia.

RESULTADOS DEMONSTRATIVOS

Os resultados começam a demonstrá-lo de forma objetiva. O projeto-piloto Equipas de Cuidados Continuados Integrados (ECCI), promovido pelo Governo, registou um aumento de 46,6% da capacidade de acompanhamento domiciliário, permitiu reduzir cerca de 12 idas às urgências por cada 100 doentes acompanhados e alcançou níveis de satisfação superiores a 90% entre utentes e cuidadores.

A expansão deste modelo poderá permitir que mais de 1835 pessoas sejam acompanhadas diariamente em casa e gerar uma poupança anual próxima dos quatro milhões de euros para o sistema de saúde.

GARANTIR UMA TRANSIÇÃO EFICAZ

Contudo, a continuidade de cuidados é um desafio que continua por resolver. Para muitas famílias, a alta hospitalar representa o início de um novo conjunto de responsabilidades para as quais não estavam preparadas. Quem acompanha a recuperação? Quem garante que a medicação é cumprida? Quem ajuda na mobilidade? Quem identifica sinais de agravamento? Todos conhecemos situações em que uma pessoa recebe alta hospitalar clinicamente estabilizada, mas regressa a casa sem o apoio necessário para recuperar plenamente. É exatamente neste intervalo que, muitas vezes, surgem complicações, reinternamentos e perda de autonomia.

Garantir uma transição eficaz entre o hospital, os cuidados de saúde primários, a rede de cuidados continuados e os cuidados domiciliários é uma das prioridades para os próximos anos. Não basta tratar a doença, é necessário assegurar que a recuperação continua depois da alta.

É esta articulação entre diferentes níveis de cuidados que permitirá construir um sistema verdadeiramente centrado na pessoa, e não apenas na doença.

Leia o artigo completo na edição de outubro 2026 (nº 375)