Chamemos-lhe António. Tem 82 anos. Não existe exatamente — ou, melhor, existe em muitos dos doentes que se sentam à minha frente. Até há poucos meses, conduzia todos os dias e fazia as compras com a mulher, com quem vive de forma independente. Agora para ao fim de cem metros, inclinado sobre o carrinho do supermercado, à espera de que a dor nas pernas lhe dê tréguas. Começou a perguntar-se não apenas se voltará a andar como antes, mas se os dois conseguirão continuar a viver sozinhos. A ressonância mostra uma estenose lombar. Antes de chegar à minha consulta, já ouviu a frase: “na sua idade, é melhor não mexer”. E então pergunta-me: “Doutor, com a minha idade, ainda vale a pena?”

Artigo da responsabilidade do Prof. Dr. Ricardo Rodrigues Pinto. Ortopedista e cirurgião de coluna. Professor Universitário. Membro da Direção da Sociedade Portuguesa de Patologia da Coluna Vertebral (SPPCV)

 

Não sei ainda se António precisa de uma cirurgia. Para decidir isso, preciso de saber muito mais do que mostra a ressonância. Mas há uma coisa que sei antes de o examinar: 82 anos não são um diagnóstico.

A medicina sempre gostou da idade. É objetiva, está disponível e cabe facilmente num algoritmo. Em populações, é útil: à medida que envelhecemos, aumentam a fragilidade, a doença e o risco de complicações. O problema começa quando uma verdade estatística sobre milhares de pessoas se transforma numa conclusão sobre quem temos à nossa frente.

Dois doentes com 82 anos podem ter vivido o mesmo número de anos e estar biologicamente separados por décadas. Um conserva força, equilíbrio, cognição e autonomia. Outro pode ser frágil, sarcopénico e dependente. É por isso que hoje olhamos cada vez mais para aquilo que a idade não mede: reserva fisiológica, mobilidade, massa muscular, saúde óssea, cognição e capacidade de recuperação.

Na cirurgia da coluna, esta diferença importa muito. Aos 80 anos, as ressonâncias estão quase sempre cheias de palavras assustadoras — degeneração, artrose, estenose, deformidade. Mas não operamos palavras. E também não devemos recusar tratamentos por causa de um número.

A idade conta, naturalmente. Um doente de 82 anos não enfrenta uma grande cirurgia como um de 42. Mas considerar a idade é diferente de deixar que ela decida. Há idosos robustos que recuperam bem de tratamentos exigentes; há pessoas vinte anos mais novas cuja fragilidade obriga a muito mais cautela.

Talvez a pergunta mais importante na consulta não seja “quantos anos tem?”, mas “o que deixou de conseguir fazer?”. Às vezes, não é correr uma maratona. É conduzir. Ir às compras com a mulher. Conseguir permanecer na casa onde sempre viveram sem depender dos filhos. É aí que a doença da coluna deixa de ser uma imagem e passa a ser aquilo que verdadeiramente nos interessa tratar: perda de função, de autonomia e, por vezes, da própria vida que a pessoa reconhece como sua.

Mesmo em idades avançadas, o músculo adapta-se, a força pode melhorar, a mobilidade pode ser recuperada e a saúde óssea pode ser protegida. Envelhecer muda o que é possível; não torna tudo inevitável.

Voltemos ao António.

Quando me pergunta “com a minha idade, ainda vale a pena?”, percebo o que está realmente a perguntar. Não é se vale a pena tratar uma ressonância. É se ainda vale a pena lutar pela vida que ele e a mulher construíram e que agora receiam perder.

A idade diz-me há quanto tempo António vive. Não me diz como vive, de que é capaz, quanto pode recuperar ou aquilo que ainda espera dos anos que tem pela frente.

Talvez a medicina deva responder-lhe com outra pergunta: “O que é que ainda vale a pena para si?”

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