Recentemente, durante uma entrevista em direto sobre obesidade, fizeram-me uma pergunta simples: “Porque é tão importante não perder músculo?” A pergunta ficou comigo. Falamos cada vez mais de preservar músculo durante o emagrecimento, mas raramente explicamos ao público porquê. E a resposta vai muito além da força ou da aparência física.

Artigo da responsabilidade da Dra. Leila Amaro Cardoso. Coordenadora do Núcleo de Estudos de Obesidade da Sociedade Portuguesa de Medicina Interna

 

Quando falamos de músculo neste contexto, referimo-nos sobretudo ao músculo esquelético: aquele que nos permite andar, subir escadas, levantarmo-nos de uma cadeira, carregar as compras ou pegar numa criança ao colo. Preservá-lo é preservar mobilidade, autonomia e capacidade para realizar as tarefas mais simples do quotidiano. Mas o músculo não serve apenas para nos mexermos.

É um tecido metabolicamente muito ativo. Tem um papel central na utilização da glicose e na resposta à insulina. Depois de uma refeição, uma parte importante da glicose que sai da circulação é captada pelo músculo. Quando este responde adequadamente à insulina, esse processo é eficiente. Quando existe resistência à insulina, o organismo precisa de produzir mais insulina para conseguir um efeito semelhante. Com o tempo, esta alteração integra o caminho metabólico que pode conduzir à pré-diabetes e à diabetes tipo 2.

O músculo é também uma importante reserva de proteínas e aminoácidos. Esta reserva ganha particular importância quando o organismo é colocado à prova: durante uma doença aguda, uma hospitalização, um período de imobilização ou com o envelhecimento. Por isso, o músculo que preservamos hoje é também uma parte da nossa reserva funcional para amanhã.

Há ainda uma dimensão menos conhecida. O músculo é hoje reconhecido como um órgão endócrino. Quando se contrai, sobretudo durante o exercício, liberta moléculas sinalizadoras entre elas as chamadas miocinas – que funcionam como mensageiros e participam na comunicação com outros tecidos e órgãos. Esta comunicação está envolvida no metabolismo energético, na resposta à insulina e na regulação de processos inflamatórios. A investigação tem vindo também a estudar as ligações entre músculo, tecido adiposo, osso, fígado e cérebro.

Dito de forma simples: um músculo que trabalha não é apenas um músculo que gasta calorias. É um órgão que participa ativamente na nossa saúde.

Então, quando emagrecemos, perdemos músculo?

Quando existe uma perda de peso significativa, o organismo não perde exclusivamente gordura. Pode ocorrer também uma redução daquilo a que chamamos massa magra. Esta questão tornou-se particularmente atual com tratamentos da obesidade capazes de proporcionar perdas de músculo e emagrecimento peso muito superiores às que conseguíamos obter no passado apenas com alterações do estilo de vida.

Mas é fundamental evitar simplificações.

Massa magra não é sinónimo de músculo. Quando avaliamos a composição corporal, aquilo a que chamamos massa magra inclui, além do músculo, água, órgãos e outros tecidos. Por isso, uma redução da massa magra não significa necessariamente que se tenha perdido a mesma quantidade de músculo.

E há uma segunda distinção igualmente importante: massa muscular, força e função não são a mesma coisa. Saber quanto músculo uma pessoa tem é útil, mas interessa também perceber se mantém força, mobilidade e capacidade para realizar as suas atividades habituais.

A evidência recente sobre os medicamentos utilizados no tratamento da obesidade mostra uma redução marcada da massa gorda e, em muitos estudos, alguma redução da massa magra. Isto não significa que estes medicamentos estejam a provocar sarcopenia, nem é cientificamente correto transformar qualquer redução de massa magra em “perda muscular perigosa”.

Também não devemos ignorá-la.

À medida que conseguimos perdas de peso mais expressivas, devemos preocupar-nos não apenas com quanto peso se perde, mas com a qualidade dessa perda de peso. O objetivo é reduzir predominantemente o excesso de tecido adiposo e preservar, tanto quanto possível, músculo, força e função – sobretudo nas pessoas mais velhas, mais frágeis ou com maior risco de perda muscular.

É aqui que a alimentação e o exercício assumem um papel que não pode ser secundário. Um aporte proteico adequado às características de cada pessoa e, particularmente, o exercício de resistência ajudam a proteger a massa e a função muscular durante a perda de peso. O exercício aeróbio continua, naturalmente, a ser fundamental pelos seus benefícios cardiovasculares e metabólicos. Não se trata de escolher um ou outro, mas de integrar ambos.

Talvez seja por isso que, no tratamento da obesidade, tenhamos de acrescentar novas perguntas àquela que fazemos há décadas. Não apenas: “Quantos quilos perdeu?”. Mas também: “O que perdeu? Como está a sua força? Como está a sua função?”.

Porque tratar a obesidade não é simplesmente fazer baixar um número na balança. É reduzir doença, melhorar saúde e permitir que a pessoa viva melhor. Perder gordura importa. Preservar músculo também.