Há uns 15 anos, “microbiota” era um tema fechado na investigação médica e ainda a obter os primeiros achados sobre a sua relação com a doença, mais concretamente com a obesidade. Hoje, é impossível falar de saúde humana sem falar do intestino, sem falar de microbiota intestinal.
Artigo da responsabilidade da Profª. Conceição Calhau. Professora Catedrática da NOVA Medical School e investigadora na área da microbiota, metabolismo e nutrição
A microbiota passou de desconhecida a ser tema com uma evidência científica e médica robusta, mas o conhecimento ainda não chegou a todos. Mais: pela presença nas redes sociais passou a existir o risco de tornarmo-nos céticos pela sua vulgarização. Entre o entusiasmo e o marketing, perde-se o essencial: a microbiota não é um órgão mágico, mas claramente temos de ver o tema com a relevância científica e médica que merece. É um ecossistema. E, como todos os ecossistemas, pode ficar desequilibrado.
“NEM TODO O BICHO É MAU”
Basta lembrar que no século passado foram as doenças causadas por agentes infeciosos as principais causas de morte e ainda as responsáveis pela curta esperança média de vida. Os avanços da medicina, com a descobertas dos antibióticos e das vacinas, foram armas eficazes de combate a bactérias e a vírus que nos permitiram, entre outros aspetos, conquistar uma maior longevidade.
No entanto, virámos o século com a ideia de que “todo o bicho é mau”, numa preocupação pela higienização. Reconhecemos hoje que “nem todo o bicho é mau”, que a evolução da espécie se deve em parte à coexistência de uma comunidade de microrganismos que nos permitiram evoluir, com papéis-chave quer na digestão quer na imunidade.
Hoje temos também a noção clara que não fomos respeitando este ecossistema. Às alterações da composição e função deste ecossistema, chamamos disbiose.
IMPORTANTE VARIÁVEL DE SAÚDE METABÓLICA
A microbiota intestinal é o conjunto de microrganismos que vivem no nosso intestino: bactérias, vírus, fungos e outros. Eles participam ativamente na digestão de componentes que nós não conseguimos degradar (como certas fibras), produzem metabolitos com impacto no organismo, treinam o sistema imunitário e ajudam a manter a barreira intestinal funcional. Traduzindo: é como se tivéssemos animais de estimação e, por isso, temos diariamente que os alimentar; e pela diversidade, percebemos a necessidade de diversidade alimentar, sobretudo diversidade nos alimentos de origem vegetal.
O que é, então, a disbiose? A ideia simples é esta: uma alteração do ecossistema intestinal associada a perda de funções benéficas e/ou aumento de funções potencialmente nocivas. A disbiose não é um diagnóstico por si só, mas deve fazer parte da história clínica, de uma importante variável de saúde metabólica.
QUANDO O ECOSSISTEMA SE DESEQUILIBRA
Quando o ecossistema se desequilibra, que consequências podemos esperar? A primeira é local: alterações no intestino. A microbiota ajuda a manter uma barreira intestinal eficiente, uma espécie de “controlo de fronteira” entre o interior do intestino e o resto do corpo. Quando essa barreira falha, aumenta a passagem de componentes microbianos e produtos inflamatórios para a circulação. O resultado pode ser um estado de inflamação crónica de baixo grau, que não dá febre mas é um dos mecanismos moleculares que ligam as queixas intestinais a fígado gordo, resistência à insulina – e, por isso, à diabetes –, inflamação e risco cardiovascular, cancro ou depressão, entre muitas outras doenças.
Sabemos hoje que a microbiota está ligada a múltiplos eixos: intestino-fígado, intestino-cérebro, intestino-imunidade, intestino-tecido adiposo, intestino-pele, intestino-músculo, etc.
A segunda consequência será ao nível metabólico, em que a síntese de vitaminas, de aminoácidos essenciais, a fermentação da fibra com produção de ácidos gordos de cadeia curta ou metabolismo dos estrogénios, do colesterol, está altamente dependente da qualidade e função da microbiota intestinal.
Mais: na imunidade, a microbiota intestinal, sobretudo nos primeiros 2 a 3 anos de vida, vai ensinar o sistema imunitário “o que é do próprio e o que não é do próprio”, “o que é uma ameaça e o que não é uma ameaça”. A imunotolerância e a imunocompetência são desenvolvidas à conversa entre a microbiota intestinal, que apresenta, e o sistema imunitário, que regista, aprende.
Leia o artigo completo na edição de setembro 2026 (nº 374)














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