Colocarmo-nos no lugar do outro é essencial para compreendermos as limitações que muitas pessoas enfrentam devido a uma redução da qualidade visual. A visão desempenha um papel central na forma como interagimos com o mundo, sendo responsável por grande parte da informação sensorial necessária para a realização de tarefas quotidianas.

Artigo da responsabilidade de António Martins, optometrista e Visual Care Manager na Shamir, e Dr. Carlos Tavares, especialista em Contactologia Avançada e Optometrista na Optocentro
A evidência científica é clara: a diminuição da acuidade visual está diretamente associada a limitações nas atividades da vida diária, como ler, reconhecer rostos, deslocar-se com segurança ou desempenhar funções profissionais. Mais do que um problema ocular, a visão é fundamental para a autonomia, a produtividade e a qualidade de vida.
Nos últimos anos, a Organização Mundial da Saúde (OMS) introduziu uma mudança relevante na forma de classificar a função visual. Deixou-se de focar exclusivamente na “melhor correção possível” para passar a valorizar a visão apresentada no dia a dia — isto é, como a pessoa realmente vê, com ou sem correção.
Esta alteração tem implicações importantes: passa a incluir um grande número de pessoas que, embora tenham problemas visuais corrigíveis (como erros refrativos), vivem no seu quotidiano com visão reduzida por falta de diagnóstico ou compensação adequada. Este novo enquadramento reforça uma ideia essencial: ver mal não é apenas uma condição clínica – é muitas vezes uma condição não diagnosticada.
O impacto real de ver mal
A perda ou redução da visão tem consequências que vão muito além do sistema visual, afetando diretamente várias dimensões da vida e a qualidade de vida no geral, provocando maior insatisfação, pior perceção de saúde e limitação nas atividades diárias.
Mais especificamente, na mobilidade, eleva o risco de quedas, especialmente quando existem alterações do campo visual ou da perceção de profundidade; na autonomia, cria dificuldade em tarefas básicas e instrumentais, como gerir medicação, finanças ou conduzir; na saúde mental, aumenta o risco de ansiedade e depressão; e na cognição, associa-se a um declínio, sobretudo em idades avançadas. Mesmo reduções aparentemente ligeiras da visão podem ter um impacto significativo, sobretudo quando não são corrigidas.
Importa ainda destacar um aspeto frequentemente desvalorizado: a perda de visão significativa apenas num olho. Nestes casos, o outro olho pode compensar parcialmente, fazendo com que a pessoa não se aperceba de imediato da limitação. No entanto, a visão binocular fica comprometida, o que afeta a perceção de profundidade, a avaliação de distâncias, a coordenação visuomotora, o equilíbrio e a sensibilidade ao contraste. Estas alterações podem traduzir-se em maior dificuldade na orientação espacial, aumento do risco de quedas e maior probabilidade de acidentes, mesmo em indivíduos que, aparentemente, veem bem.
Segundo a OMS, quanto menor a acuidade visual no melhor olho — de normal (≥ 6/12) a cegueira (< 3/60) —, maior o impacto funcional (de dificuldades ligeiras a limitações graves) e psicossocial (de frustração ocasional a isolamento), com necessidades desde correção óptica a reabilitação contínua. Isto reforça que pequenas reduções da acuidade visual podem já ter impacto funcional relevante, especialmente quando não corrigidas ou quando associadas a défices visuais assimétricos (entre os dois olhos).
Porque são essenciais os rastreios visuais
Portugal dispõe de boas condições ao nível dos cuidados de saúde visual, com uma rede sólida de profissionais de optometria e uma articulação eficaz com a oftalmologia nos casos de natureza patológica. No entanto, persiste um problema relevante: um número significativo de erros refrativos continua por corrigir. Isto acontece porque, muitas vezes, quem vê mal não tem consciência dessa limitação. A adaptação progressiva à perda visual leva à sua normalização, adiando a procura de cuidados.
Um exemplo frequente surge nos exames para obtenção ou renovação da carta de condução. É muitas vezes nesse momento que as pessoas se apercebem de que não cumprem os mínimos exigidos — ou que apenas um dos olhos está a assegurar a função visual.
Em Portugal, a acuidade visual mínima exigida para condutores ligeiros é de 0,5 em visão binocular, com ou sem correção. Para condutores profissionais, os critérios são mais exigentes. Embora simplificada, esta avaliação ilustra bem como a visão condiciona diretamente a mobilidade e a segurança.
A maioria dos problemas visuais mais comuns, como os erros refrativos, é facilmente detetável e corrigível. No entanto, sem rastreio, permanecem muitas vezes invisíveis. Os rastreios visuais permitem identificar precocemente alterações visuais, corrigir problemas antes de impactarem a qualidade de vida, encaminhar situações patológicas para avaliação médica e promover a literacia em saúde visual.
Neste contexto, os optometristas assumem um papel fundamental. Enquanto profissionais de primeira linha nos cuidados de saúde visual, são frequentemente o primeiro ponto de contacto da população. É sua responsabilidade não só determinar a melhor correção visual possível, mas também identificar a solução mais adequada para cada pessoa. A eficácia do sistema depende precisamente desta articulação interdisciplinar entre optometria e oftalmologia.
A visão como pilar
A visão é um dos pilares da qualidade de vida, mas continua a ser frequentemente subvalorizada até ao momento em que falha. A realidade mostra-nos que muitos dos problemas visuais que afetam a população são evitáveis ou corrigíveis. Isto significa que é possível proporcionar, tanto ao paciente como ao nosso sistema de saúde, uma poupança significativa de custos e recursos.
Mais do que tratar a doença, é fundamental conhecê-la e antecipá-la. Promover rastreios visuais regulares e valorizar o papel dos cuidados primários é essencial para garantir uma população mais saudável, autónoma e informada.
Este artigo conta com o apoio institucional da Shamir em Portugal















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