As doenças cardiovasculares continuam a ser a principal causa de morte na Europa. Todos os anos, são responsáveis pela perda de 1,7 milhões de vidas em todo o continente. Este número, por si só, já é alarmante. Mas o que é verdadeiramente inaceitável é que 80 % destas mortes poderiam ser evitadas.
Artigo da responsabilidade de Olivér Várhelyi. Comissário Europeu responsável pela Saúde e Bem-Estar dos Animais
A maioria de nós conhece alguém afetado: o pai ou a mãe, um colega, uma pessoa amiga. Em muitos casos, já havia sinais de alerta – tensão arterial elevada, nível alto de colesterol, glicemia elevada. Estas doenças podem não ser detetadas durante anos, progredindo silenciosamente até que o primeiro sintoma seja um ataque cardíaco ou um acidente vascular cerebral e, nessa fase, já é demasiado tarde. No entanto, com demasiada frequência, as pessoas desconhecem os seus próprios valores quanto a esses indicadores de saúde.
DA REAÇÃO PARA A PREVENÇÃO
Por isso, temos de mudar a abordagem na União Europeia. Com o novo Plano Corações Protegidos, estamos a passar decisivamente da reação para a prevenção das doenças cardiovasculares. Durante demasiado tempo, os nossos sistemas de saúde estiveram estruturados em torno da resposta a emergências e não de uma intervenção precoce. Este plano coloca a prevenção, os controlos de rotina e a deteção precoce no centro dos nossos cuidados. Visa, ainda, tornar a realização de exames de saúde simples e eficazes numa parte da vida normal dos adultos em toda a Europa, para que as pessoas possam compreender os seus riscos pessoais muito antes do desenvolvimento de uma doença grave.
Atualmente, 54 % dos adultos na UE têm excesso de peso. No caso dos jovens, um em cada três tem excesso de peso ou é obeso, e 20 % dos jovens estão em vias de ter ou já têm diabetes do tipo 2. A diabetes, o excesso de peso e a obesidade são fatores de risco fundamentais para o desenvolvimento de doenças cardiovasculares. Se não agirmos, condenamos toda a geração futura a sofrer de condições de saúde mais precárias e de doenças crónicas, além de exercermos uma pressão insustentável sobre os nossos sistemas de saúde.
“CONHECER OS SEUS VALORES”
Medir de forma rotineira a tensão arterial, a glicemia e o colesterol é um princípio fundamental do Plano Corações Protegidos. Estes testes são rápidos, pouco dispendiosos e eficazes. No entanto, milhões de europeus deixam passar anos sem controlarem estes valores. Promoveremos rastreios regulares e lançaremos uma campanha à escala europeia para incentivar as pessoas a “conhecerem os seus valores”. Esta é uma das mais eficazes intervenções de saúde pública à nossa disposição e a qual temos subutilizado há demasiado tempo.
Reforçaremos igualmente a sensibilização para os fatores de risco hereditários, no âmbito dos programas de rastreio, assegurando que o historial familiar seja mais bem compreendido e tido em conta.
FERRAMENTAS DIGITAIS E IA
As ferramentas digitais e a inteligência artificial (IA) impulsionarão esta transição. Ao reunir dados de testes de rotina, imagiologia e registos de saúde eletrónicos, os médicos poderão identificar os riscos mais cedo e intervir de forma mais precisa. Mas trata-se também de sensibilizar as pessoas e de as ajudar a tomar as decisões certas. Com as ferramentas adequadas, um doente pode aperceber‑se de que forma as decisões que toma hoje em termos de estilo de vida podem moldar os resultados que terá amanhã – e que mudar de rumo pode dar-lhe anos de vida mais saudáveis.
Para apoiar esta transição, a UE vai investir 20 milhões de euros na introdução de ferramentas baseadas na IA e em dados, as quais permitem uma deteção mais precoce e uma prevenção mais direcionada no âmbito das doenças cardiovasculares.
COMBATER AS CAUSAS PROFUNDAS
A prevenção implica também combater as causas profundas. Já está bem estabelecida a relação entre os alimentos ultratransformados, a obesidade e a diabetes tipo 2. Temos de ser honestos com os consumidores. É por esta razão que introduziremos informações mais claras que indiquem a que ponto um produto é transformado, para que as pessoas possam fazer escolhas informadas sobre o que comem. Tratar a questão dos alimentos ultratransformados será um desafio decisivo para a saúde pública nos próximos anos.
O tabaco e os produtos à base de nicotina continuam a ser outro dos principais fatores de risco. Embora as taxas de tabagismo tenham diminuído, a utilização de novos produtos à base de nicotina entre os jovens aumentou acentuadamente. Não podemos permitir que uma nova geração seja induzida em erro. No próximo ano, atualizaremos as regras da UE, reprimiremos o marketing em linha destinado aos jovens e combateremos o mito de que os novos produtos à base de nicotina são inofensivos. Os factos – e não a publicidade – devem moldar as escolhas dos jovens.
AS DOENÇAS CARDIOVASCULARES NÃO SÃO INEVITÁVEIS
Por último, o Plano Corações Protegidos visa garantir o acesso a melhores ferramentas de diagnóstico em toda a UE antes do aparecimento dos sintomas. Desde os monitores de pressão arterial e eletrocardiogramas potenciados por IA até imagiologia de base, estas ferramentas devem chegar aos doentes de forma mais rápida e justa. O ato legislativo sobre biotecnologia acelerará a investigação e o desenvolvimento clínico, incluindo terapias inovadoras tais como os pensos cardíacos desenvolvidos com recurso à bioengenharia. Ao mesmo tempo, as regras atualizadas sobre dispositivos médicos eliminarão os atrasos, para que as tecnologias essenciais possam chegar aos doentes sem demora desnecessária.
As doenças cardiovasculares não são inevitáveis. Com o Plano Corações Protegidos, a UE opta por uma ação precoce, pela prevenção e pela promoção de vidas mais saudáveis e mais longas em vez de perdas evitáveis. Se não agirmos agora, teremos toda uma próxima geração de europeus com doenças crónicas que nunca deveriam ter surgido, com todas as suas consequências sociais e económicas para todos os europeus. Se agirmos agora, podemos dar a milhões de europeus uma melhor oportunidade de viver mais e melhor.
Leia o dossier completo na edição de fevereiro 2026 (nº 368)














You must be logged in to post a comment.