Enfarte do miocárdio: pandemia agravou o problema

Durante a pandemia, verificou-se uma redução das admissões hospitalares por enfarte e um aumento do tempo de atraso até ao tratamento, responsável pelo incremento da taxa de mortalidade e das complicações por doença cardiovascular.

 

Artigo da responsabilidade do Dr. Pedro Monteiro, cardiologista no Hospital Universitário de Coimbra

 

 

As doenças cardiovasculares, em geral, e o enfarte agudo do miocárdio (EAM), em particular são das principais causas de morte em Portugal. Os doentes tendem a reconhecer os sintomas de alerta do EAM e a procurar os cuidados médicos demasiado tarde, comprometendo o seu prognóstico.

A pandemia veio agravar, de forma determinante, este problema, devido ao medo da população em ser infetada pelo SARS-CoV-2 nas instituições hospitalares. Neste período, verificou-se uma redução das admissões hospitalares por EAM, um menor recurso ao transporte pelo INEM e um aumento do tempo de atraso até ao tratamento, responsável pelo aumento das taxas de mortalidade e das complicações nesta população de doentes.

Quais os principais sintomas?

A manifestação clínica mais frequente do enfarte agudo do miocárdio inclui a dor no peito de intensidade e duração variável, habitualmente descrita como um aperto, constrição ou peso, que em alguns casos pode estender-se para os braços, costas e pescoço, podendo surgir acompanhada de suores, náuseas e vómitos. Existem, no entanto, formas de apresentação menos típicas, como o desmaio ou a falta de ar súbita, mais frequentes em doentes diabéticos, idosos e mulheres.

O que fazer?

Perante a suspeita de um EAM, é crucial ligar imediatamente para o número de emergência médica 112, por dois motivos essenciais: a rapidez no diagnóstico e o transporte em segurança para um hospital com capacidade de tratamento do EAM.

Como prevenir as doenças cardiovasculares?

Para manter a sua saúde cardiovascular em tempos de pandemia,  é fundamental conhecer todos os fatores de risco cardiovascular e empenhar-se no seu controlo rigoroso, tendo como objetivos:

  • Deixar de fumar;
  • Reduzir os níveis de colesterol para os alvos recomendados de acordo com o nível de risco cardiovascular (LDL inferior a 55 mg/dL) ou redução de, pelo menos, 50% em relação aos níveis basais nos doentes com risco cardiovascular muito elevado (antecedentes de eventos cardiovasculares, diabetes ou doença renal crónica);
  • Controlar os valores de pressão arterial (inferior a 130/80 mmHg);
  • Otimizar o controlo glicémico (açúcar no sangue) no caso dos doentes diabéticos ou pré-diabéticos;
  • Adotar uma dieta saudável (semelhante à Mediterrânica):

– Pobre em gorduras saturadas e açúcares;

– Rica em vegetais, peixe e fruta;

– Redução de sal (<5g/dia);

– Ingestão limitada de álcool: máximo de 20g/dia (2 copos) no homem e 10g/dia na mulher;

– Abstinência alcoólica em caso de insuficiência cardíaca.

  • Manter um peso saudável (índice de massa corporal entre 20 e 25 Kg/m2) ou reduzir nos casos de excesso de peso ou obesidade;
  • Praticar exercício físico de acordo com a idade, o nível de atividade prévia e as limitações físicas – pelo menos, 150 minutos/semana de exercício aeróbico moderado (30 minutos, 5 dias/semana) ou 75 minutos/semana de exercício aeróbico vigoroso (15 minutos, 5 dia/semana);
  • Gerir e controlar a ansiedade;
  • Cumprir rigorosamente a medicação prescrita, durante os períodos definidos pelo médico assistente, de forma a evitar a descontinuação ou suspensão prematura.

Se tiver um enfarte, posso ficar com sequelas?

Quando se tem um enfarte, há sempre células cardíacas que morrem e não são substituídas. Em face disso, algumas pessoas, após um enfarte, podem ficar com cansaço e/ou falta de ar, devido a insuficiência cardíaca.

Porém, se o doente tomar toda a medicação diariamente e sem falhas, se alterar a sua alimentação e o seu estilo de vida, aumenta a probabilidade de recuperar com poucas ou nenhumas sequelas.

Importa reforçar que os doentes que já tiveram um enfarte ou outra manifestação de doença coronária vão ter de fazer medicação diariamente para o resto da vida, precisamente para evitar novos eventos cardiovasculares.

Graças ao avanços contínuos da Medicina, dispomos hoje de novos medicamentos (anticoagulantes em baixa dose) para prevenção de novos episódios de enfarte e outras doenças cardiovasculares, que deverão ser tomados por todos os doentes elegíveis.

Colaboração da sociedade

Estes tempos de crise exigem um reforço da educação dos doentes e dos seus cuidadores, do empenho continuado dos profissionais de saúde que deles cuidam, mas também a colaboração da sociedade e dos media na divulgação dos sinais de alerta, sensibilização para a importância do diagnóstico precoce e do cumprimento rigoroso das estratégias de prevenção cardiovascular.

Todos juntos podemos ganhar a batalha contra a covid-19 e também contra o enfarte e outras doenças cardiovasculares!

Artigo publicado na edição de maio 2021 (nº 316)

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