As duas pandemias: a história de uma luta desigual

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Artigo da responsabilidade do Prof. Dr. Luís Bronze, presidente da Sociedade Portuguesa de Hipertensão

 

No conhecimento comum da grande maioria dos portugueses existe uma condição médica chamada hipertensão. Alguns mesmo, saberão que a sua pressão arterial está elevada, mas não sabem bem que riscos essa situação lhes pode acarretar…já que, na verdade, podem não sentir nada…Trata-se de uma doença silenciosa…

Na mesma lógica, se, na rua, indagarmos, junto de alguém que passe, qual é a causa de morte principal no nosso país, provavelmente afirmarão que é a doença neoplásica (…o cancro). Na verdade, o grupo mais importante de entidades associadas a mortalidade e incapacidade no mundo ocidental (…e a crescer no resto do planeta) é de natureza cardiovascular. São cada vez mais as nossas artérias – precocemente doentes – que nos ceifam. No caso português, que tem uma prevalência de hipertensos entre a população adulta de cerca de 40%, o maior culpado tem sido o acidente vascular cerebral (o reconhecido AVC) e as doenças cerebrovasculares estão, sem dúvida, no topo do sofrimento da pandemia cardiovascular. Noutros países da europa, a doença isquémica aterosclerótica das artérias que irrigam o coração (as artérias coronárias), nomeadamente através do evento agudo que é o enfarte do miocárdio, está na dianteira da mortalidade e incapacidade cardiovascular.

A verdade é simples, para o desiderato exposto acima contribui em grande medida a hipertensão arterial – o principal fator de risco cardiovascular. O incremento da pressão nas artérias do nosso corpo obriga aqueles canais vivos, vitais, a modificações adaptativas perniciosas, de múltiplas formas, mas sempre potenciadores de uma aterosclerose acelerada.

Porque será então que esta entidade, a hipertensão arterial, é tão prevalente ente nós? Existem várias razões, quase todas relacionadas com o estilo de vida atual, dito moderno. Resumidamente, fatores reconhecidos e quantificáveis como o consumo de sal em exagero, a falta de exercício e um incremento do consumo calórico – condicionando níveis de obesidade nunca vistos – potenciam o surgimento daquela doença crónica. Outros fatores, também associados ao nosso estilo de vida, mas menos palpáveis, são a diminuição das horas de sono, a ansiedade profissional crónica, a depressão e até a poluição. Todos estes aspetos contribuem para a progressão da hipertensão arterial a um nível epidémico. Podemos então facilmente concluir que o contágio cultural – a evolução do nosso estilo de vida nos últimos anos – é pelo menos tão pernicioso como o vetor viral, que nos tem atormentado os últimos (e já longos) meses…

Durante a pandemia viral (a da Covid19), um grande aporte financeiro foi alocado, em Portugal e no mundo, ao combate desta ameaça viral. A pandemia cardiovascular ficou, claramente, para trás. Os doentes foram afastados dos seus médicos, das suas rotinas, do seu apoio regular…A reorganização do sistema de saúde, forçou aquela disrupção. É preciso agora, começando já nesta primavera, em que a pandemia viral parece estar mais controlada, recuperar o tempo perdido no que à hipertensão arterial diz respeito. Esta recuperação depende de todos. Em primeiro lugar, depende dos próprios hipertensos, que não devem descurar a sua vigilância e o seu tratamento. Exigirá, também, mais de todos os profissionais de saúde que se dedicam ao controlo da doença cardiovascular.

A todos caberá redobrar esforços. Cada um deve estar atento, ao seu estilo de vida, procurando hábitos que contrariem o surgimento ou a progressão da hipertensão, começando por refrear o consumo de sal. A medição regular, automatizada, da pressão arterial já pode ser efetuada facilmente no domicílio e deve ser incrementada. A todos é preciso anunciar que – também para estoutra pandemia – há vacina. A vacina está no nosso comportamento, na nossa atitude em relação aos fatores predisponentes que são controláveis pelo próprio e ao cumprimento da terapêutica. Está provado que também esta “vacinação” colhe benefícios extremos, materializáveis numa vida longa e sem incapacidade…

Portugal já fez um longo caminho no controlo da doença cardiovascular, quer na prevenção, quer no tratamento. Sabemos, contudo, que na vertente da prevenção há ainda muito a percorrer. Nem tudo depende da atividade médica estrita. Como agora bem se provou na condução desta pandemia, existem fatores de ordem política e económica de extrema importância na condução da defesa das populações. Estes aspetos, também na epidemia hipertensiva, são determinantes para o maior ou menor sofrimento comunitário…A regulação do consumo do sal e a criação de cidades que respeitem o bem-estar físico e psíquico dos seus habitantes são também exemplos claros de influência positiva da ação política, com largos benefícios na pandemia silenciosa…

Ora, eu acredito que é possível prevenir a doença cardiovascular …. Acredito que um nível semelhante de empenhamento, também ao nível económico, traria fortes benefícios na saúde cardiovascular. Sabemos todos, prevenir é sempre melhor que tratar (…até é mais barato). Seria bom que todos acreditássemos, também nesta pandemia dos comportamentos, que é possível vencer esta luta desigual…

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