Sensibilidade à histamina

A sensibilidade à histamina é uma condição não reconhecida, muitas vezes, mas que tem fácil tratamento. Neste artigo, vou explicar o que é a histamina, como surge a sensibilidade e como se trata.

 

Artigo da responsabilidade da Dra. Ivone Mirpuri, médica Patologista Clínica; especialista em Medicina Antienvelhecimento, pela World Society of Anti-Aging Medicine; especialista em Hormonologia, pela International Hormone Society; Certificação em Medicina Antienvelhecimento, pelo Cenegenics, Nevada University, USA

 

A histamina é um mediador da inflamação. É um composto natural que desempenha importantíssimas funções no nosso organismo.

A histamina é produzida em células especiais no nosso corpo, quando em presença de um alergénio estranho ou em processos traumáticos. É a substância que vai desencadear todo o processo de reparação do organismo, aumentando a permeabilidade dos capilares, para as células de defesa do sangue e outras proteínas poderem exercer a sua ação contra invasores estranhos nos tecidos afetados.

As células especiais responsáveis pela produção de histamina são os mastócitos, os basófilos, as plaquetas, os neurónios e células no nosso intestino. A produção é efetuada em praticamente todo o nosso corpo com especial incidência nas regiões de contacto com o exterior, como na pele e nos tratos respiratório e gástrico.

Além de desempenhar um importante papel no sistema imunológico, protegendo-nos das infeções por vírus, bactérias, fungos ou parasitas, a histamina é ainda um importante neurotransmissor, fundamental para o bom funcionamento do cérebro e sistema nervoso central. É também a histamina que sinaliza a libertação de ácido clorídrico no estômago, para que se possa iniciar a digestão das proteínas.

Reações indesejáveis

A histamina também existe nos alimentos e alguns deles possuem mesmo uma quantidade elevada na sua composição. Para além dos alimentos ricos em histamina, há outros que funcionam como “libertadores de histamina” e que induzem a secreção deste mediador pelas células do organismo.

A sensibilidade à histamina refere-se à existência de quantidades aumentadas de histamina no nosso corpo, o que vai levar a efeitos adversos e indesejáveis. A quantidade em excesso ocorre por aumento da produção ou pela inibição da degradação.

Estas reações indesejáveis são, muitas vezes, confundidas com alergias, daí a importância do reconhecimento desta entidade, pois os sinais e sintomas podem ser idênticos, mas todo o estudo do doente é negativo para alergias.

Entre os sintomas de excesso de histamina, destacam-se rubor da face e calores por vasodilatação, hipotensão com aumento dos batimentos cardíacos pelo mesmo motivo, urticária, angioedema, rinite com rinorreia, otite média, comichão por aumento da permeabilidade vascular, refluxo gastro esofágico e azia por aumento da secreção gástrica, cefaleia não típica de enxaqueca, sintomas de ansiedade e ataques de pânico ligados ao aumento dos batimentos cardíacos, fadiga e confusão mental, podendo mesmo acontecer o desmaio.

Mecanismos de controlo

Vou explicar só, muito sucintamente, porque razão surgem estes sintomas. Como já referi, a histamina pode ficar acumulada no organismo por aumento da entrada e produção ou por um deficiente mecanismo de degradação.

Também a histidina, aminoácido que os alimentos podem conter, pode ser convertida em histamina pelas bactérias intestinais.

Há duas enzimas que controlam a destruição da histamina:

  • Histamina N-metiltransferase (HNMT ou HMT);
  • Dioaminoxidase (DAO).

A DAO liga-se rapidamente à histamina plasmática e elimina-a na urina. Atua a nível local, portanto. A HMT impede a ligação prolongada da histamina ao seu recetor na célula. Os anti-histamínicos têm uma ação semelhante, ligando-se ao recetor da histamina e impedindo a sua ação. Atuam a nível geral, o que chamamos de sistémico, ao contrário da DAO, mas acabado o seu efeito, os sintomas regressam, pois a HMT não elimina a histamina.

Podemos, assim, controlar facilmente a sensibilidade à histamina, através da DAO, associando, obviamente, cuidados com a dieta, evitando os alimentos que nos farão ingerir mais histamina.

Alimentos ricos em histamina

Os alimentos ricos em histamina são, geralmente, alimentos fermentados, que a produzem por atividade microbiana. Eis alguns exemplos:

  • Queijo;
  • Carnes processadas e fermentadas;
  • Vinho, cerveja e vinagre;
  • Extratos de leveduras;
  • Couve fermentada (sauerkraut);
  • Banana, abacate, chocolate, molhos de soja, enlatados.

Há alimentos que contêm naturalmente histamina, como o espinafre e a beringela. Outros desenvolvem a histamina no processo de amadurecimento, como o tomate e as cerejas.

Há também alimentos que não sabemos como nos fazem libertar histamina, como os morangos, a clara do ovo, álcool e citrinos. Pensamos ser por mecanismo não imunológico.

Existem, ainda, substâncias que fazem com que o nosso corpo liberte mais histamina, como os benzoatos e sulfitos (preservativo de alimentos), tartrazina e outros corantes naturais. Estes compostos sabemos que bloqueiam a ação da DAO e da HMT. Mais um motivo para evitar alimentos processados.

Lembrar, por fim, que o álcool, antidepressivos, como a fluoxetina e a sertralina, analgésicos, como aspirina e ibuprofen, inibidores H2, como a cimetidina e ranitidina, inibem também a atividade da enzima diaminoxidase.

Papel fundamental da DAO

A diaminoxidase (DAO) é a primeira linha de defesa contra a histamina ingerida através da dieta ou libertada no intestino. Quando os seus níveis são adequados e a sua atividade é normal, só uma pequena quantidade da histamina extrínseca entrará na circulação.

O tratamento passa pela restrição dietética, diminuindo a ingestão de produtos que contenham histamina, e por aumentar a atividade a nível intestinal da DAO, o que requer suplementação.

Como não poderia deixar de ser, trabalhando eu em modulação hormonal, tenho de fazer o link desta situação às nossas hormonas.

O estradiol, na verdade, tem um atividade inibidora sobre a DAO. Temos de perceber que na menopausa, onde o estradiol está muito diminuído, mas sem qualquer progesterona, as mulheres se encontram em “dominância” estrogénica, situação não desejável à nossa saúde. Daqui que, neste período, muitas mulheres aparecem com “alergias”, sendo que, na maioria das vezes, se trata de uma sensibilidade à histamina, por fraca atividade da DAO, que é estimulada pela progesterona.

Todas as pessoas com défice de progesterona estarão em excesso relativo de estradiol, pois este equilíbrio é fundamental, pelo que ter mais este fator em consideração é outro importante motivo para a preocupação do equilíbrio hormonal em todas as fases da vida e sua correção lógica, para que se tratem as causas e não apenas os sinais e sintomas.

A compreensão da fisiologia e da fisiopatologia de todas as situações médicas ajudaria ao tratamento mais simples e eficaz da doença.

 

DESTAQUE

Medidas gerais

Medidas gerais para que os alimentos ricos em histamina não sejam um problema de maior:

Eliminação de metais tóxicos – Há estudos que referem o frequente aumento de metais pesados (cádmio, mercúrio e chumbo) em pessoas com dietas “gluten free” e que ingerem mais peixe;

Bom nível de ácido clorídrico no estômago – A má digestão dos alimentos produz inflamação e aumento de histamina;

Fígado saudável – Sem a bílis não fazemos a digestão;

Saúde intestinal – Eliminar a disbiose (desequilíbrio da flora intestinal) e manter uma flora saudável. Para isto, há que consumir pouco açúcar e eliminar farináceos (mesmo sem glúten) e alimentos industrializados; beber no máximo 150 ml de líquidos às refeições, que devem ser água ou chá sem teína; não misturar muitos alimentos; aumentar o consumo de vegetais; evitar antibióticos e antiácidos; e fazer uso de probióticos e simbióticos.

Eliminar agentes patogénicos – É importante saber que a utilização de inibidores das bombas de protões e a síndroma do intestino irritável estão altamente relacionados com a síndroma do supercrescimento bacteriano (SIBO). Temos de eliminar os agentes causais, repor nutrientes e utilizar probióticos e simbióticos. Nunca utilizar estes em situações agudas: procurar primeiro a eliminação dos agentes causadores. Atenção ao Helicobacter pylori

 

 

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