Intestino: o segundo cérebro

0

As interações bidirecionais entre o sistema nervoso central e o sistema digestivo têm consequências demonstradas, tanto nas funções digestivas como nas funções cognitivas e emocionais. Esta é a razão pela qual o intestino é frequentemente apelidado de “segundo cérebro”.

Artigo da responsabilidade do Dr. José Pedro Azevedo Rodrigues, médico gastrenterologista; Sociedade Portuguesa de Gastrenterologia

O eixo cérebro-intestino refere-se às comunicações bidirecionais entre o sistema nervoso central e o sistema digestivo, com consequências tanto nas funções digestivas como nas funções cognitivas e emocionais. Esta proximidade é, em grande parte, estabelecida por ligação direta entre o sistema nervoso central e o sistema nervoso entérico, que consiste num agrupamento de mais de 100 milhões de células nervosas dispostas ao longo de duas finas camadas, desde o esófago até ao reto.
Ao contrário do cérebro, este sistema encontra-se mergulhado numa enorme diversidade de células: as musculares, essenciais na contração do tubo digestivo; as do sistema imunitário, fundamentais na defesa; e as epiteliais da mucosa, envolvidas na digestão e absorção dos nutrientes. Estas extensas conexões neuronais, juntamente com os múltiplos mediadores químicos e hormonais que nele atuam, permitem ao intestino ter um funcionamento autónomo, mas sempre em íntima comunicação com o cérebro.

INFLUÊNCIA DA MICROBIOTA INTESTINAL
A tornar este fenómeno ainda mais complexo, temos de acrescentar a biodiversidade da microbiota intestinal, conjunto de microrganismos vivos que habitam em constante interação com o eixo cérebro-intestino e cuja composição é moldada por fatores do hospedeiro, como a idade e genética, e ambientais, como a dieta e os medicamentos.
Estima-se que esta população inclua cerca de 232 milhões de genes, o que expande, de forma significativa, a capacidade metabólica do humano. Os produtos do metabolismo das bactérias para além de regularem a função digestiva, são essenciais no normal metabolismo energético, no desenvolvimento da imunidade local e de todo o corpo e, ao interagirem direta e indiretamente com o sistema nervoso central, modulam a sua função e o comportamento humano.

PERDA DE EQUILÍBRIO
A interação entre o cérebro e o intestino justifica aspetos do quotidiano, como a habitual “dor no estômago” num momento de ansiedade ou a cólica abdominal e a dejeção diarreica perante uma situação de tristeza ou tensão.
Contudo, quando o equilíbrio no eixo cérebro-intestino-microbiota é perdido, as manifestações digestivas poderão tornar-se crónicas e incapacitantes, levando a uma perda significativa da qualidade de vida. Quando isto ocorre, estamos perante uma doença funcional do tubo digestivo, que correspondem às doenças gastrenterológicas mais frequentes, atingindo até 40% da população mundial.
A sua correta abordagem inicia-se por um diagnóstico clínico confiante, recorrendo a meios complementares mínimos, seguido da promoção de hábitos de vida e alimentares saudáveis. O uso de probióticos, microrganismos vivos que pretendem conferir um ganho para a saúde, poderão ser úteis no controlo de certos sintomas (como a dor e distensão abdominal), o que corrobora a importância da microbiota nestas doenças.

CARÁTER BILATERAL
Estudos recentes têm evidenciado o caráter bilateral desta interação, ao envolver alterações na comunicação intestino-cérebro em doenças neurológicas como o autismo, doenças neurodegenerativas como a doença de Parkinson, e doenças do humor como a depressão e ansiedade.
A microbiota, em particular, tem demonstrado que influencia o desenvolvimento e funcionamento do sistema nervoso, por modulação da resposta imunitária, por impacto no metabolismo (no processamento de hormonas, de neurotransmissores, entre outros) e também por ação direta.
Tratando-se de uma área de conhecimento em expansão, com potenciais intervenções terapêuticas promissoras, é necessário ressalvar que a maioria da informação disponível é proveniente de estudos em modelo animal, sendo necessária validação futura para a sua reprodução em humanos.

Leia o artigo completo na edição de janeiro 2021 (nº 312)

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here