Doenças crónicas moem… e matam

AS DOENÇAS CRÓNICAS MOEM E MATAM E TÊM DE DEIXAR DE SER “EMPURRADAS COM A BARRIGA”, COMO UM PROBLEMA QUE PODE ESPERAR. É NECESSÁRIO INVESTIR AGORA, PARA QUE POSSAMOS COLHER OS FRUTOS NO FUTURO.

 

Artigo da responsabilidade da Profª Dra. Alexandra Bento, bastonária da Ordem dos Nutricionistas

 

Mais de um ano passado desde que a pandemia de covid-19 veio alterar por completo as nossas vidas. A perceção que temos é que o tempo foi dividido em três eras distintas: antes, durante e (o tão esperado) após a covid-19. E este facto é transversal a todos os parâmetros da nossa existência.

Neste contexto, focar-nos-emos na problemática da alimentação e das doenças que advém da malnutrição.

Antes da pandemia

No período pré-covid, a população portuguesa já não podia ser considerada das mais saudáveis, muito pelo contrário. Os portugueses, dos mais jovens aos mais idosos, apresentavam tendências preocupantes ao nível da alimentação, como, por exemplo, o consumo exagerado de carne, em contraposição com o baixo consumo de hortofrutícolas e leguminosas.

Já a prática de exercício físico era reduzida e a prevalência de doenças crónicas de alarmar. A hipertensão afetava cerca de 40% da população; a diabetes cerca de 10%; e a obesidade atingia mais de 20% da população portuguesa.

Um retrato preocupante que resulta no facto de Portugal ser dos países europeus em que, apesar da elevada esperança de vida, se vive mais tempo doente e isto muito graças aos maus hábitos alimentares.

Por outro lado, e apesar da dieta mediterrânica ser considerada Património Cultural Imaterial da Humanidade pela UNESCO e comprovada como uma opção alimentar saudável, parece não estar em voga, com somente 18% dos portugueses a terem uma adesão elevada.

Insegurança alimentar e inação política

Acresce o facto de sabermos que a população não sofre destas problemáticas por igual. Não é por acaso que os mais desfavorecidos são os mais atingidos pela prevalência de doenças crónicas, consequência das dificuldades em compreender a informação disponível ao nível das opções mais saudáveis e das dificuldades financeiras em adquirir alimentos para uma alimentação adequada, a conhecida insegurança alimentar.

Apesar disso, o que vemos é que parece não haver uma estratégia de combate à incompreensão no que toca aos hábitos alimentares que devem ser privilegiados ou evitados.

É gritante o impacto que uma alimentação equilibrada tem na vida de uma pessoa, desde a sua infância até à sua idade adulta (incluindo a idade geriátrica) e o peso deste fator na incidência de doenças crónicas na população.

No entanto, existe inação por parte da classe política, que deveria encarregar-se de delinear uma estratégia concertada e em várias frentes – desde uma estratégia para a alimentação escolar, a campanhas na comunidade, à legislação, à melhoria do acesso da população às consultas de Nutrição, entre tantas outras –, de modo a que, por um lado, vivêssemos mais anos e mais anos com qualidade de vida e saudáveis e, por outro, a nível financeiro, para que a nossa economia fosse poupada ao nível de dispendiosos tratamentos para este tipo de doenças. Convém, aliás, recordar que, em Portugal, por cada €100 gastos em saúde, apenas entre €1 e €2 são alocados à prevenção.

Durante a pandemia

Pois bem, aquilo a que assistimos com a chegada desta nova pandemia era, na verdade expectável, quando consideramos os números de doentes crónicos na sociedade portuguesa – como o caso dos doentes com obesidade – ou os resultados do diagnóstico do primeiro confinamento geral no nosso país no que diz respeito aos comportamentos alimentares e de atividade física em contexto de contenção social, para combate à pandemia da covid-19 (o estudo REACT COVID da Direção Geral da Saúde).

Na verdade, o sedentarismo, os erros alimentares e a insegurança alimentar não eram conceitos novos, mas antes realidades que se viram exacerbadas com a chegada desta pandemia. Pandemia, aliás, que veio, ainda, pressionar o Serviço Nacional de Saúde e deixar em suspenso tantas consultas de acompanhamento de doentes já diagnosticados, bem como atrasar diagnósticos.

A pandemia veio, já se sabe, impactar a vida de todos nós de diversas formas, mas foram, de novo, os mais desfavorecidos aqueles que mais sofreram as consequências.

O caso dos doentes com obesidade

Olhemos para o caso dos doentes com obesidade – cujo grupo, como já analisámos, é maioritariamente composto por pessoas com mais baixa escolaridade ou reduzidas possibilidades financeiras. Como sabemos, foi este um dos grupos que sofreram consequências mais graves de infeção por covid-19, tendo a obesidade sido sinalizada como fator de risco para o novo coronavírus.

Não se trata de um acaso e não se pode dizer que tenha sido uma grande surpresa. Os doentes crónicos estão (e sempre estiveram) mais debilitados no que toca ao combate a outras doenças e, para além disso, dado o contexto social, são aqueles que menos possibilidades têm no acesso a hábitos mais saudáveis, bem como a especialistas da área da saúde que pudessem aconselhar, os nutricionistas, para prevenir a escalada do quadro de saúde até ao diagnóstico.

Ressalva-se que a educação para a alimentação saudável e para escolhas informadas deve iniciar-se desde cedo, nas escolas, tal como há uns anos se desenvolveu a campanha da reciclagem. Hoje em dia, os jovens adultos sabem reciclar e é impensável não o fazerem. Dá para imaginar, portanto, as consequências positivas que poderíamos agora contar se existissem nutricionistas nas escolas e se a alimentação estivesse na agenda dos nossos governantes.

Necessidade urgente

Recorde-se que existem atualmente apenas dois nutricionistas em todo o Ministério da Educação e que, apesar da previsão de contratação de outros 15 profissionais no Orçamento de Estado de 2020, esta medida ainda não saiu do papel.

De facto, não existindo uma verdadeira estratégia governamental para a promoção da alimentação saudável e não havendo nutricionistas ao acesso de todos, o cuidado com a alimentação e a manutenção de um estilo de vida saudável parece permanecer ao alcance de uma minoria que só por si já estava um patamar à frente do resto da população (basta considerarmos o seu nível de escolaridade).

Para além dos números mais do que insuficientes nas escolas, também nos cuidados de saúde primários o cenário não é muito mais animador, tendo a Ordem dos Nutricionistas vindo a alertar para a necessidade urgente de contratar, pelo menos, 800 nutricionistas (havendo atualmente pouco mais de 100) para os centros de saúde e de outros 150 nutricionistas para os hospitais (onde se contabilizam atualmente cerca de 300).

Encarar o futuro

É assim que, de olhos postos no que há de vir, chegamos à parte final desta análise. Após dissecarmos o passado e o presente, está na hora de encararmos o futuro.

É hora de promover a saúde dos portugueses sem exceção, com medidas claras e com impacto sentido no terreno, que transformem a alimentação adequada e sustentável na regra e não na exceção.

Apostemos, portanto, na contratação de nutricionistas, colocando os cuidados nutricionais ao alcance de toda e qualquer pessoa. Avancemos no sentido de prosseguir o trabalho já iniciado no âmbito da legislação (relativos ao teor de sal e açúcar em alguns alimentos) e a promoção a larga escala da dieta mediterrânica, através do ensino para a alimentação, a iniciar-se, já, nas escolas.

As doenças crónicas moem e matam e têm de deixar de ser “empurradas com a barriga”, como um problema que pode esperar, na iminência do tratamento a doenças urgentes. Vamos investir agora, para que possamos colher os frutos da prevenção no futuro!

 

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