Quando um filho tarda em chegar: consequências para a saúde mental

 

UM DIAGNÓSTICO DE INFERTILIDADE ACARRETA CONSEQUÊNCIAS A DIVERSOS NÍVEIS, TENDO IMPACTO EM VÁRIAS ÁREAS DA VIDA DAS PESSOAS. E CERCA DE 30% MANIFESTAM PROBLEMAS PSICOLÓGICOS COM RELEVÂNCIA CLÍNICA.

 

Artigo da responsabilidade da Dra. Ana Galhardo

Doutorada em Psicologia Clínica. Coordenadora da Rede de Apoio Psicológico da APFertilidade. Docente no Instituto Superior Miguel Torga. Investigadora da Universidade de Coimbra, CINEICC, Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação

 

Não raramente, o desejo de ter um filho é algo que surge a dada altura na vida de muitas pessoas. Um desejo importante, uma espécie de prolongamento, continuidade, uma forma de passar para a ação esta predisposição que, enquanto humanos, temos de cuidar. A parentalidade biológica é um objetivo valorizado e a existência de dificuldades na sua concretização constitui uma adversidade, na maioria das vezes inesperada.

REAÇÕES EMOCIONAIS FACE À INFERTILIDADE

A infertilidade é medicamente definida pela ausência de uma gravidez quando existem relações sexuais regulares durante um ano, sem recurso a contracetivos.

Perante um diagnóstico de infertilidade, tendem a surgir reações emocionais de ansiedade, stress, raiva, tristeza. Outras emoções também relatadas pelas pessoas incluem sentir-se vulneráveis, com medo, como tendo perdido o controlo das suas vidas.

De sublinhar que tendem a existir diferenças nos estados emocionais em função da fase do tratamento médico. A este nível, a punção ovárica e a transferência de embriões têm vindo a ser referidas como as fases mais indutoras de ansiedade e de stress. Estas etapas estão associadas a períodos de tempo de espera para ficar a conhecer resultados (número de ovócitos recolhidos, número de embriões, resultado do teste de gravidez) e têm vindo a ser descritas como potencialmente comprometedoras do bem-estar psicológico. Por sua vez, quando os resultados não são os desejados, a tristeza tende a emergir.

PROBLEMAS PSICOLÓGICOS COM RELEVÂNCIA CLÍNICA

Ainda assim, há que normalizar estas reações emocionais na medida em que a infertilidade traduz uma circunstância difícil e os tratamentos são exigentes. Para além disso, as emoções não são um problema, elas tornam-nos humanos e cumprem uma função. É perfeitamente natural experienciar emoções como a ansiedade, o medo, a raiva, a tristeza, de forma temporária.

Face a um diagnóstico de infertilidade, existem ameaças (não concretizar o desejo de ser mãe/pai), perdas (um corpo que “falhou” quando desejavam engravidar), medos (de um futuro incerto, sem algo muito valorizado). Quando estes estados emocionais se tornam intensos, perduram ao longo do tempo e interferem de forma significativa com a vida das pessoas, equacionar ter ajuda é fundamental.

Apesar de sabermos que, na globalidade, após alguma reatividade emocional, a maioria das pessoas acaba por encontrar algum equilíbrio psicológico, cerca de 30% manifestam problemas psicológicos com relevância clínica, sendo os mais frequentes, perturbações de ansiedade e depressivas.

IMPACTO EM VÁRIAS ÁREAS DA VIDA

De notar que a infertilidade acarreta consequências a diversos níveis, tendo impacto em várias áreas da vida das pessoas. Por exemplo, nas famílias de origem, nas quais muitas vezes há pais que também desejavam ser avós, irmãos/irmãs que desejavam ser tios/as; na esfera dos amigos, que começam a ter filhos e com quem é difícil estar porque relembram algo que não está a ser alcançado; no trabalho, havendo, por vezes, necessidade de faltar para realização de exames ou tratamentos.

Desta forma, entre as consequências da infertilidade também se encontram o isolamento social, o evitamento de situações que envolvem o contacto com grávidas ou crianças, a experiência de vergonha ou de “inveja”.

Do ponto de vista psicológico, há que estar atento ao significado que a pessoa atribui e à forma como lida com a sua experiência de infertilidade. Quando falamos de apoio ou intervenção psicológica, não estamos a falar em superar a infertilidade, mas sim em ajudar a pessoa a lidar com as suas consequências de uma forma mais funcional e adaptativa.

APOIO PSICOLÓGICO

Evidentemente não é uma intervenção psicológica que soluciona um problema de infertilidade. O que pode fazer é contribuir para atenuar o seu impacto em termos psicológicos, na saúde mental e na vida em geral das pessoas afetadas. E isto pode ser muito importante, pois a investigação tem demonstrado que a “sobrecarga” emocional pode conduzir a uma desistência precoce dos tratamentos, quando as pessoas sentem que não são capazes de continuar por estarem psicologicamente “exaustas”.

Assim, o processo de tratamento pode englobar acompanhamento psicológico, sendo este entendido como parte integrante do tratamento. Inicialmente, as consultas de Psicologia podem funcionar como um espaço privilegiado para a normalização de estados emocionais, a expressão de inquietações, incertezas, preocupações e obtenção de apoio e aceitação. Podem também facultar ajuda em processos de tomada de decisões ou de elucidação de valores, face a fases do tratamento que implicam fazer escolhas, como o recorrer a gâmetas de dador ou terminar o tratamento.

Artigo publicado na edição de dezembro 2021 (nº 322)

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