Artigo da responsabilidade da Dra. María Cerdán. Licenciada em Farmácia e graduada em Nutrição Humana e Dietética. www.mariacerdan.me @mariacerdan.nutricion_pnie

 

Numerosos estudos demonstraram os benefícios dos ácidos gordos ómega-3 na composição da microbiota intestinal. Estes nutrientes são fundamentais para a resolução e gestão de processos inflamatórios e essenciais para a estrutura das membranas celulares, melhorando a sua fluidez e facilitando a comunicação bioquímica entre células, incluindo as que integram a camada submucosa do sistema digestivo.

Neste artigo, exploraremos por que manter níveis adequados de ómega-3 nas nossas células pode favorecer o equilíbrio microbiano, e como isso, por sua vez, ajuda a controlar a inflamação e a promover uma boa saúde intestinal.

Funções dos ácidos gordos ómega-3

As gorduras e óleos estão presentes em diferentes proporções na maioria dos grupos alimentares. Os ácidos gordos ómega-3 fazem parte dos chamados micronutrientes lipídicos essenciais, cuja função estrutural principal é contribuir para a manutenção da membrana plasmática e das membranas subcelulares. Para além do seu papel estrutural, possuem funções fisiológicas, nutricionais e metabólicas relevantes.

De forma geral, podemos distinguir entre gorduras saturadas (geralmente sólidas) e insaturadas (mais fluidas à temperatura ambiente). Dentro destas últimas, os ácidos gordos polinsaturados (AGPI) são objeto de estudo constante devido ao seu potencial terapêutico comprovado.

Entre os AGPI destacam-se o ácido eicosapentaenoico (EPA) e o ácido docosahexaenoico (DHA), presentes em peixes azuis, óleos de peixe ou de microalgas, que conferem benefícios às nossas células a nível estrutural e funcional. Por esta razão, são utilizados em fisionutrição como compostos bioativos ou em suplementos alimentares.

Além disso, nos alimentos encontramos ácidos gordos monoinsaturados (como o ácido oleico, abundante no azeite) e outros ácidos gordos polinsaturados, incluindo o ácido linoleico (LA), precursor da linha ómega-6, presente em óleos vegetais como girassol, milho e soja, e o ácido alfa-linolénico (ALA), precursor da linha ómega-3, contido na canola, nozes e sementes de linhaça e respetivos óleos. A partir destes ácidos essenciais, o organismo sintetiza outros ácidos gordos, como EPA, DPA (ácido docosapentaenoico) e DHA, através de reações enzimáticas. Sabe-se que estas transformações de ALA em EPA, DPA e DHA podem ser afetadas por polimorfismos genéticos, podendo resultar em défices destes ácidos gordos a longo prazo.

Ingestão adequada de ómega-3

Por isso, é crucial garantir uma ingestão adequada de ómega-3 através da dieta, especialmente através de peixes azuis, complementada, se necessário, com suplementos de qualidade, em doses adequadas e numa forma totalmente biodisponível e estável à oxidação. É importante considerar que peixes azuis de maior tamanho, mais ricos em gordura, podem acumular metais pesados, como metilmercúrio. Portanto, consumir grandes quantidades de peixe para atingir os níveis ótimos de ómega-3 não é uma estratégia terapêutica recomendável, pois aumenta também a ingestão destes metais.

O equilíbrio entre a ingestão de ómega-6 e ómega-3 é vital para o bom funcionamento do organismo. Numa dieta ocidental típica, a proporção é cerca de 15:1 a favor do ómega-6, quando o ideal seria aproximar-se de 1:1, ou pelo menos entre 2:1 e 5:1.

Aumentar o consumo de alimentos ricos em ómega-3, como nozes, peixe azul, marisco e algas, e reduzir o consumo de alimentos ultraprocessados e óleos vegetais refinados ajuda a manter este equilíbrio desejável.

Ómega-3 e microbiota intestinal: relevância na imunomodulação

Na última década, a investigação sobre a microbiota intestinal intensificou-se. Hoje sabe-se que a saúde intestinal desempenha um papel crucial na saúde sistémica e que a promoção de uma microbiota equilibrada (ou eubiótica) é fundamental para manter uma mucosa intestinal bem estruturada e coesa, traduzindo-se numa resposta imunitária mais adaptada e menos reativa.

Os ácidos gordos ómega-3 parecem influenciar significativamente a composição e função do ecossistema microbiano intestinal. A suplementação com estes micronutrientes essenciais promove o aumento de bactérias benéficas, melhora o equilíbrio entre espécies patogénicas e probióticas e limita espécies oportunistas, como do género Clostridium. Este efeito prebiótico traduz-se numa barreira intestinal mais íntegra e menos permeável, reduzindo a translocação de endotoxinas e diminuindo a inflamação sistémica.

Além disso, a capacidade dos ómega-3 de modificar a estrutura e função das membranas celulares pode influenciar a comunicação intercelular e a modulação da resposta imunitária local e sistémica, através dos diferentes eixos que comunicam o intestino com outros órgãos e sistemas. Este mecanismo favorece a tolerância imunitária e a homeostase do sistema digestivo, associando-se à redução de processos inflamatórios ligados a doenças crónicas, como doença inflamatória intestinal (DII) e síndrome do intestino irritável.

Implicações clínicas e futuras linhas de investigação

O potencial terapêutico do ómega-3 na gestão de distúrbios gastrointestinais e doenças inflamatórias abre novas perspetivas clínicas. A melhoria da integridade da barreira intestinal e a modulação da resposta imunitária local podem traduzir-se em tratamentos complementares para colite ulcerosa, doença de Crohn e outras disfunções relacionadas com disbiose, tanto a nível gástrico como intestinal.

Atualmente realizam-se estudos que avaliam a eficácia da suplementação com ómega-3 em diferentes populações, bem como a otimização de doses e formulações para maximizar os seus benefícios. É igualmente importante investigar as interações entre dieta, suplementos e genética do indivíduo, já que estes fatores podem influenciar a conversão de ALA em EPA e DHA (0,5–10%), determinando a eficácia do tratamento. Embora alguns estudos já corroborem estas relações, futuras pesquisas deverão centrar-se em estudos longitudinais e no desenvolvimento de protocolos personalizados que considerem a variabilidade individual na resposta à suplementação.

Conclusão

Em síntese, a suplementação com ómega-3 de alta qualidade e certificado IFOS, não só oferece benefícios diretos na saúde cardiovascular e metabólica, como também desempenha um papel crucial na regulação da microbiota intestinal e na imunomodulação da mucosa digestiva, abrindo novas perspetivas terapêuticas e preventivas na gestão de distúrbios imunitários e gastrointestinais. Aprofundar a análise comparativa de estudos e explorar as implicações clínicas atuais e futuras serão passos fundamentais para consolidar estas estratégias na prática clínica.

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