Dor aguda: importância clínica e tratamento

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Tratar a dor não é apenas tratar a causa. O próprio sintoma, se não for tratado, pode gerar alterações físicas, emocionais e sociais nos doentes, com atraso na recuperação, perturbações do sono, medo, ansiedade e evolução para dor crónica.

1 SaraFonsecaArtigo da responsabilidade da Dra. Sara A. Fonseca, Anestesiologista, Coordenadora da Unidade Funcional de Dor Aguda do Centro Hospitalar São João e da Unidade de Dor Aguda do Hospital CUF Porto.

Todos sentimos dor, pelo menos, num momento da vida. Dor é a forma do corpo enviar um sinal de alarme ao cérebro, com uma mensagem de que alguma coisa não está bem (temos uma lesão ou doença).

A dor é influenciada por muitos fatores físicos (idade, doenças associadas), emocionais (por exemplo, estar deprimido), culturais, sociais, crenças, experiências dolorosas anteriores e humor.

Os métodos de controlo da dor atuam impedindo a chegada destas mensagens ao cérebro ou diminuído o seu efeito a nível cerebral.

5º SINAL VITAL

Na maioria das pessoas, a dor tem uma causa bem definida (ferida, inflamação, fratura), pode ser acompanhada de ansiedade e stress emocional, tem uma duração limitada e pode ser tratada – é a chamada dor aguda. Quando a dor se mantém após a lesão ter cicatrizado falamos de dor crónica. Mais do que um sintoma, a dor crónica é uma doença, muitas vezes de difícil controlo.

Pela sua influência no bem-estar físico, psíquico e social do doente, a dor foi considerada, em 2003, o 5º sinal vital (tal como a tensão arterial, frequência respiratória, frequência cardíaca/pulso, temperatura corporal).

Tratar a dor não é apenas tratar o que a causa. O próprio sintoma (o doer), se não tratado, pode condicionar alterações físicas, emocionais, sociais nos doentes (e cuidadores), com atraso na recuperação, perturbações do sono, medo, ansiedade e evolução para dor crónica.

As principais causas de dor aguda são: cirurgia, traumatismos, queimaduras, parto, situações médicas de urgência como cólica renal, pancreatite, artrite, cefaleias, dismenorreia (dor da menstruação), entre outras. A dor aguda do pós-operatório afetará 71% dos indivíduos, sendo em 62% moderada a grave.

PAPEL DAS UNIDADES DE DOR AGUDA

A maioria dos doentes ainda acredita que sentir dor moderada a intensa após cirurgia ou traumatismo é normal. E não é! Atualmente, dispomos de meios analgésicos e estruturas organizadas nos hospitais, que facilitam o controlo da dor (Unidade de Dor Aguda – UDA).

Os profissionais da UDA, anestesiologistas, cirurgiões e enfermeiros, têm como principal objetivo o controlo da dor aguda, particularmente a do pós-operatório.

Em regime de ambulatório, o tratamento da dor poderá ser orientado pelo médico de família, com o apoio da equipa da UDA do hospital da área, sempre que necessário.

A eficácia no tratamento da dor aguda depende da correta planificação do tratamento e avaliação da dor, na qual o doente desempenha o papel mais importante. O doente deve procurar esclarecer o procedimento a que será submetido (cirurgia, exame, complicações que podem surgir), o tipo e duração da dor a ele associados, as alternativas analgésicas e eventuais efeitos laterais resultantes do seu tratamento.

Deve também tentar exprimir com a máxima exatidão a dor que sente para que o profissional de saúde o compreenda. Todos sentimos a dor de forma diferente, mesmo quando submetidos à mesma cirurgia. E ter dor não significa que se é fraco ou um “estorvo”.

ESCALAS DE DOR

Exprimir a nossa dor não é fácil! É importante localizar o ponto doloroso e caracterizá-la da melhor maneira: difusa, cólica, fina, queimadura, latejante, “formigueiro”, mordedura ou “fina”, referindo fatores ou posições que poderão agravá-la ou aliviá-la (respirar fundo, tossir, levantar, deambular ou mexer). O ideal é avaliá-la segundo escalas objetivas. A mais utilizada no adulto é a escala numérica (ou a escala visual analógica, habitualmente denominada EVA ou VAS): varia de 0 (ausência de dor) a 10 (pior dor possível de imaginar, incapacitante, que enlouquece). Para crianças e doentes com necessidades especiais são utilizadas outras escalas.

Um canal de comunicação aberto com o profissional de saúde permite um tratamento mais eficaz. O tratamento deve ser solicitado no início do desconforto doloroso e quantas vezes for necessário. A dor intolerável é mais difícil de tratar, pelo que quanto mais precocemente se iniciar o tratamento da dor, melhores os resultados.

São várias as opções disponíveis para o tratamento da dor: os denominados métodos farmacológicos como, comprimidos, injeções endovenosas, patch subcutâneo, ACD (Analgesia controlada pelo doente), analgesia epidural, analgesia perineural; e os não farmacológicos, que sendo úteis, isolados nunca serão totalmente eficazes (técnicas psicológicas de relaxamento e atenção, hipnose, acupuntura e tratamentos físicos com calor, frio e massagem).

 

 

DESTAQUE

Opções para tratamento da dor

MÉTODOS FARMACOLÓGICOS

  • comprimidos;
  • injeções endovenosas;
  • patch subcutâneo;
  • ACD (analgesia controlada pelo doente);
  • n analgesia epidural;
  • analgesia perineural.

Métodos não farmacológicos

  • técnicas psicológicas de relaxamento e atenção;
  • hipnose;
  • acupuntura;
  • tratamentos físicos com calor, frio e massagem.

Artigo publicado na Edição de Novembro 2015 (nº 255)

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