Doentes respiratórios e Covid-19 SUB: haverá sequelas?

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Uma doença nova, com clínica desconhecida e com fisiopatologia intrigante. Assim é a Covid-19, uma doença vírica, maioritariamente respiratória, provocada por um novo coronavírus, o SARS-CoV 2.

 

Artigo da responsabilidade do Prof. José Alves, médico pneumologista e presidente da Fundação Portuguesa do Pulmão

 

Antes de mais, são necessárias algumas noções básicas. Os vírus não se reproduzem autonomamente, precisam de outras células para o fazerem. Com a sua utilização, provocam a sua morte, impedindo-as de exercer a respetiva função, necessária ao bem-estar do organismo. Neste caso, as células usadas nos casos graves localizam-se nos pulmões, as que permitem as trocas gasosas com a hemoglobina. Ainda não se sabe o porquê de, por vezes, acontecer isso e outras não. Daí a divisão tão propalada em 80% de casos leves, 15% a precisar de internamento e 5% de cuidados intensivos.

O tempo de doença é demorado. A resposta imunológica do nosso organismo, para que os doentes deixem de o ser, demora. O tempo de internamento e de internamento nas UCI, com ou sem ventilação, é demorado pelas mesmas razões.

SABE-SE POUCO DA DOENÇA

Neste momento, sabe-se muito do vírus, mas pouco da doença. Acabou de chegar à Europa. Afogou-nos em números de infetados, de internados e de mortes. A epidemiologia ensinou-nos algumas coisas sobre os casos graves, a sua frequência e a sua relação com as patologias prévias da população.

É uma doença com letalidade significativa, muito mais alta no grupo etário superior aos 70 anos. É importante nos homens entre 60 e 70 (3%), sendo as mulheres deste grupo etário relativamente poupadas. Pensou-se que tal se poderia dever aos hábitos tabágicos, mas o ambiente hormonal pode ser outra explicação.

A relação com as patologias normalmente evocadas – insuficiência renal, doenças cardiovasculares, diabetes e doenças respiratórias crónicas – pode ser casual ou causal. Nos mais velhos, existem mais patologias.

Sabemos que os portugueses são saudáveis até aos 65 anos e que a necessidade de ventilação mecânica prolongada dificulta a sobrevivência em doentes com múltiplas comorbilidades, mais frequentes nas idades mais avançadas.

E QUANTO ÀS DOENÇAS RESPIRATÓRIAS?

Devemos dividir as doenças respiratórias em dois grandes grupos: as agudas (gripe, constipação, asma ligeira, etc) e as crónicas.

No caso das doenças agudas, a dificuldade é não confundir os sintomas e os diagnósticos. A ajuda de um médico avisado deve ser utilizada.

Quanto às doenças crónicas, a situação é diferente. A taxa de mortalidade sobe até 6%, em algumas séries, como é o caso da doença pulmonar obstrutiva crónica. Nestes casos, deve manter-se a medicação, continuando a controlar a doença.

As fibroses pulmonares intersticiais, quando se usam imunossupressores, como as neoplasias e as doenças autoimunes ou asma grave, facilitam, plausivelmente, a progressão da Covid-19. Em qualquer dos casos, sem imunidades específicas, arma de defesa biológica do nosso organismo, sem tratamento eficaz e sem vacina, só podemos recorrer ao isolamento profilático, tão anancástico quanto possível, nunca será demais.

Assim venceremos a primeira vaga, que terminará duas semanas depois de pararem os casos novos.

VIRÃO OUTRAS VAGAS

Virão outras vagas, porque a população em isolamento imita a imunidade, mas não a adquire, mantendo-se, portanto, suscetível. A sua ocorrência depende das características do vírus e das medidas tomadas pelas autoridades, que têm sido um exemplo de qualidade, tal como os profissionais de saúde, os bombeiros, os portugueses.

No nosso país, a taxa de internamento ronda os 9% e a necessidade de UCI os 2,5%. Pode piorar. Mas é admirável, e todos temos de agradecer, as medidas tomadas pelo Presidente da República, secundadas excecionalmente bem pelo Governo e pelo Serviço Nacional de Saúde.

Em qualquer dos casos, enquanto doentes e potenciais infetados, o que podemos fazer é o isolamento.

HAVERÁ SEQUELAS?

É impossível dizê-lo. Só com uma bola de cristal… Haverá consequências sociais e, eventualmente, sequelas. Não são prováveis nos casos mais ligeiros, mas podem aparecer, dentro de mais ou menos tempo, a todos os que passarem por ventilação mecânica e por pneumonias graves. Não sabemos como vão reagir os pulmões a estas agressões. Normalmente, reagem bem, com restituição da normalidade. Esperemos que, neste caso, também.

Ultrapassaremos esta crise, no caso de Portugal, com orgulho de sermos portugueses.

 

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