As disfunções sexuais, apesar de comuns, continuam a ser um dos grandes tabus no que à sexualidade diz respeito, gerando, além dos problemas físicos, dificuldades ao nível relacional e eventuais problemas de saúde mental. No caso dos homens, uma das dificuldades sexuais mais prevalente é a disfunção erétil, que se refere à incapacidade persistente de obter ou manter uma ereção suficiente para uma relação sexual satisfatória.

Artigo da responsabilidade da Dra. Catarina Lucas. Psicóloga/sexóloga e diretora do Centro Catarina Lucas

 

Embora se tenha percorrido algum caminho nos últimos anos quanto à sensibilização para o problema e para a necessidade de procura de tratamento, a disfunção erétil ainda tem associado um elevado nível de desconforto e tabu. Fruto da cultura, do estigma e da vergonha, de pressões sociais e até do impacto nas relações, o homem continua a percecionar vergonha pelas dificuldades ao nível da ereção, condicionando a sua autoestima e a sua perceção de valor.

A disfunção erétil é bastante comum, sobretudo em homens mais velhos, embora afete homens de todas as idades. A sua prevalência tende a aumentar com a idade e os estudos indicam que a disfunção erétil pode afetar cerca de 5% dos homens na faixa etária abaixo dos 40 anos, cerca de 10% na faixa etária dos 40 anos e mais de 50% em homens com mais de 70 anos.

Quais as causas da disfunção erétil?

As causas da disfunção erétil podem ser de origem física/orgânica, psicológica ou mista. As causas físicas são mais comuns em homens com mais de 50 anos e podem incluir doenças cardiovasculares, perturbações hormonais, diabetes, cirurgias na zona pélvica ou efeitos secundários de terapêuticas medicamentosas.

Por seu lado, as causas psicológicas são mais comuns em homens jovens, tendencialmente abaixo dos 40 anos. A ansiedade é uma causa muito comum para a disfunção erétil, assim como problemas emocionais ou no relacionamento com o/a parceiro/a. A depressão, os traumas sexuais e as expetativas irrealistas também podem estar associadas ao desenvolvimento do problema.

Além disto, alguns fatores relacionados com o estilo de vida também podem associa-se ao desenvolvimento da disfunção, como o tabagismo, o consumo de álcool, sedentarismo, entre outros.

Qual o impacto da disfunção erétil

O impacto da disfunção erétil na vida do homem e na vida de um casal é grande, tanto no domínio físico como psicológico. A disfunção interfere com a capacidade para usufruir de uma sexualidade satisfatória para o próprio e para o outro, acabando por gerar sentimentos de desvalorização, diminuição da autoestima, aumento da ansiedade nos momentos que antecedem o ato sexual e aumento da frustração subsequentemente ao ato sexual.

A maioria dos homens afetados por episódios de disfunção erétil tendem a ter relações íntimas pouco duradouras, evitam relações de continuidade com o mesmo parceiro/a por medo de falhar nos momentos de intimidade e afastam-se sem grande explicação quando estes episódios acontecem. Também ocorre com frequência o envolvimento com várias pessoas a fim de testar o desempenho sexual, sendo este um comportamento confirmatório que pode causar graves problemas emocionais.

Neste tipo de comportamento confirmatório, o foco deixa de ser o momento em que se está e a pessoa com quem se está, para passar a ser apenas o ato físico, com reduzido envolvimento emocional, de forma a testar e mostrar a si mesmo se vai conseguir ou não manter uma ereção satisfatória, preocupando-se apenas consigo e não com o que o parceiro/a possa sentir durante o ato, desconectando-se do momento, trazendo para a relação um elevado desconforto. Este tipo de mindset acaba por conduzir a um desempenho aquém do esperado, aumentando ainda mais a frustração e deteriorando a relação. Além disto, a disfunção erétil pode ainda afetar o/a parceira, no sentido em que, não raras vezes, assume uma responsabilidade pelo sucedido, culpabilizando-se pela ausência de resposta sexual do homem.

Fruto de ideias pré-concebidas, continua a existir uma pressão muito grande que é colocada no homem no que se refere ao seu desempenho, pressão essa que os homens incorporam e reforçam. Quando o desempenho não corresponde à expetativa, geram-se sentimentos de insegurança, de desvalorização e de inferioridade, o que potencia os sintomas de ansiedade e, consequentemente, o problema é agravado.

Disfunção erétil também bate à porta de homens jovens

Apesar de ser mais comum em homens mais velhos, a disfunção erétil pode afetar homens em todas as idades, sendo cada vez mais comum a sua manifestação em homens mais jovens.

As causas estão associadas sobretudo a fatores psicológicos como a ansiedade, sintomas depressivos, pressões sociais ou preocupações com o desempenho e autoestima. O próprio estilo de vida moderno também pode aqui dar uma des(ajuda), com o consumo de álcool e drogas, falta de uma boa alimentação e higiene do sono e um elevado nível de agitação e cansaço acumulado. Não deve ser descartada a interferência de alguns medicamentos como os antidepressivos, por exemplo.

É importante entender que a disfunção erétil em homens jovens não é incomum e não deve ser ignorada. Se um homem jovem está a passar por problemas de disfunção sexual, é importante procurar orientação médica para identificar e tratar as causas subjacentes.

Eliminar os tabus e a vergonha é essencial para que isto não se torne numa bola de neve, de consequências físicas e psicológicas enormes.

Quais as soluções?

Independentemente da causa, a disfunção erétil tem tratamento e formas de minimizar o seu impacto. A procura de ajuda e tratamento deve ocorrer o mais precocemente possível. Quando as dificuldades ocorrem de forma recorrente e interferem na qualidade dos relacionamentos sexuais, é altura de procurar ajuda especializada junto do médico de família ou urologista, de modo a que possa ser realizada uma avaliação dos sintomas e causas. No caso da disfunção erétil com causa psicológica é importante consultar também um psicólogo especialista em sexologia ou terapia sexual.

Existem várias opções de tratamento disponíveis para a disfunção erétil, dependendo da severidade dos sintomas. Algumas opções comuns passam pela terapêutica medicamentosa, terapia sexual ou de casal, injeções penianas, aparelhos de vácuo e alguns casos, intervenção cirúrgica.

Além destas hipóteses, existe já no mercado um tratamento em gel, de venda livre e não invasivo, que pode ser incluído nos preliminares com o/a parceiro/a, de aplicação tópica, ajudando o homem a obter a ereção em cerca de 10 minutos.

Como ajudar o parceiro?

O apoio do parceiro/a é fundamental, tanto em termos emocionais como em termos práticos na procura de ajuda e implementação de soluções. A crítica deve ficar à porta, devendo existir um comportamento de suporte, de compaixão e empatia para com o sofrimento do outro. Dialogar, expressar afeto e ser parte da solução é de extrema importância.

A disfunção erétil é uma condição comum que pode ter um impacto significativo na qualidade de vida de um homem e nos seus relacionamentos. É importante continuar a sensibilizar e a educar de que não há motivo para sentir vergonha. A consciencialização e educação sobre saúde sexual são essenciais para combater o estigma e estimular os homens a falar sobre as suas dificuldades.

Com o tratamento adequado, muitos homens podem recuperar a sua função erétil e desfrutar de uma vida sexual satisfatória.