Estaremos, enquanto sociedade, a caminhar para lugares estruturalmente incompatíveis com as relações íntimas? Como podemos construir modelos relacionais que preservem a individualidade sem comprometer a ligação?
Artigo da responsabilidade da Dra. Sandra Neto. Sexóloga e terapeuta de casal do Espaço “Sobre Nós”
Fevereiro é o mês que se veste de vermelho mais do que o Natal e em que a palavra “amo-te” parece gritar em todas as esquinas. As montras enchem-se de peluches fofos, corações encarnados, caixas de bombons, restaurantes com menus personalizados e ramos de flores cuidadosamente embalados. O Dia dos Namorados tornou-se um símbolo quase obrigatório do amor romântico, da celebração do casal e da ideia de que amar é simples, leve e permanentemente feliz. No entanto, fora das vitrines e das campanhas publicitárias, a realidade relacional parece começar a contar uma história bem diferente.
DESCRENÇA E DESILUSÃO
Nunca se falou tanto de amor, de intimidade e de diferentes formas de relação. Há mais liberdade de escolha, mais discurso sobre vínculos e mais possibilidades de configuração relacional. Curiosamente, esta abertura surge acompanhada por um sentimento crescente de descrença e desilusão.
Na minha prática clínica e no quotidiano social, cruzo-me com cada vez mais pessoas que afirmam não acreditar em relações duradouras, que se dizem cansadas do amor romântico ou que entram numa relação já à procura do erro que confirme a ideia de que aquela ligação estava, desde o início, condenada ao fracasso.
Há cerca de um mês, durante um treino no ginásio, o meu personal trainer comentou que eu era especialista em Terapia de Casal. Um homem, na faixa dos 50 anos, apressou-se a intervir: “Casais? Isso ainda existe? Julguei que estivessem em vias de extinção.” Ri-me no momento, mas, com o passar dos dias, a frase começou a ecoar. Não pelo dramatismo, mas porque traduz algo que observo com frequência: um desencanto coletivo em relação à co-construção de uma vida partilhada.
INDIVIDUALIDADE VERSUS LIGAÇÃO
Vivemos numa época em que o discurso do bem-estar, do empoderamento e do sucesso – seja lá o que isso for – valoriza fortemente a autonomia, a individualidade, o amor-próprio, o investimento profissional e a responsabilidade pessoal pelo próprio equilíbrio emocional.
Este movimento trouxe ganhos importantes, sobretudo no combate a relações de dependência e submissão. No entanto, a linha é ténue entre cuidarmos de nós e tornarmo-nos demasiado autocentrados, inflexíveis ou indisponíveis para estar em relação. Quando levado ao limite, este discurso colide com aquilo que uma ligação amorosa inevitavelmente exige: disponibilidade emocional, interdependência, investimento contínuo e compromisso.
Enquanto profissional e apaixonada pela área dos casais, questiono-me frequentemente: estaremos, enquanto sociedade, a caminhar para lugares estruturalmente incompatíveis com as relações íntimas? Precisamos de repensar o significado de amar alguém hoje? Como podemos construir modelos relacionais que preservem a individualidade sem comprometer a ligação?
SOMOS SERES SOCIAIS E SEXUADOS
Do ponto de vista psicológico e fisiológico, importa recordar que somos, inevitavelmente, seres sociais e sexuados. Estas dimensões não são acessórios da experiência humana, são estruturais.
Enquanto seres sociais, construímo-nos em relação. Precisamos de vínculo, reconhecimento, pertença e contacto. Desde o nascimento, o desenvolvimento emocional, psicológico e identitário acontece no encontro com o outro. Mesmo quem opta por uma vida mais isolada fá-lo, muitas vezes, a partir de uma referência relacional.
Enquanto seres sexuados, a sexualidade não se reduz ao ato sexual. Inclui o corpo, a identidade, o desejo, o prazer, a intimidade e a forma como nos ligamos e somos percebidos. Somos seres sexuados ao longo de todo o ciclo de vida, independentemente de termos ou não atividade sexual. O desejo, a atração e a curiosidade pelo outro fazem parte da condição humana e estão profundamente ligados à regulação emocional, ao sistema nervoso e à forma como nos relacionamos com o mundo.
UMA GRANDE RESPONSABILIDADE
Mesmo numa sociedade que valoriza a autonomia e a independência, a atração por outra pessoa continuará a emergir como um denominador comum da experiência humana. Não porque nos falte algo individualmente, mas porque a relação emocional e sexual é um espaço privilegiado de expressão, prazer, ligação e construção de sentido.
Estabelecer uma relação íntima implica interdependência, negociação, frustração, renúncia parcial e vulnerabilidade. Implica aceitar, num processo de escolha diária, que partilhar a vida com alguém significa reconhecer que seremos afetados e que afetaremos o outro. E, sim, isto é uma grande responsabilidade.
PARADOXO CONTEMPORÂNEO
Numa sessão de Terapia de Casal, um cliente questionou-me: “Como é que uma relação pode ser um núcleo fechado se, ao mesmo tempo, me dizes que tenho de desenvolver mais individualidade e assumir maior responsabilidade pelo meu bem-estar?”. Nesta pergunta está contido um dos grandes paradoxos contemporâneos: queremos relações profundas sem perder autonomia; desejamos intimidade emocional sem dependência; ambicionamos construir uma equipa coesa sem abdicar de nós enquanto indivíduos.
A equação, na verdade, não é simples, mas é possível. Um casal é um sistema próprio que exige investimento emocional, tempo, disponibilidade interna e a capacidade de pensar no “nós” sem que o “eu” desapareça. Uma relação saudável não anula a individualidade, tal como a autonomia não deveria significar isolamento emocional.
Leia o artigo completo na edição de fevereiro 2026 (nº 368)














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