Cancro da mama: o que fazer perante o tumor mais frequente na mulher?

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Apesar dos progressos na prevenção, diagnóstico e tratamento do cancro da mama, este continua a ser, em todo o mundo, o tumor mais frequente no sexo feminino e representa cerca de 23% de todos os casos de cancro diagnosticados na mulher. A sua incidência tem aumentado, mas felizmente a mortalidade tem diminuído nos últimos anos.

 

dra maria josepassosArtigo da responsabilidade da Dra. Maria José Passos, especialista em Oncologia Médica do IPO Lisboa

 

Entre nós diagnosticam-se cerca de 4500 novos casos de cancro da mama por ano. Em cada 100.000 mulheres portuguesas, 70 sofrem de cancro da mama. Atualmente, morrem 4 mulheres por dia em Portugal, vítimas desta doença.

Em menos de 1% dos casos, o cancro da mama pode também atingir o homem. Nestes casos são fatores de risco: a história familiar, existência de mutação BRCA2, radiação prévia da parede torácica. Geralmente, apresenta-se como uma ulceração ou massa na região do mamilo. Ocorre, em regra, por volta dos 60-70 a e em 80% dos casos são cancros com receptores hormonais positivos, isto é, são hormonodependentes.

FATORES DE RISCO PREDISPONENTES

As causas da maioria dos cancros da mama são desconhecidas e esporádicas. Só em 5 a 10% são familiares ou hereditárias.

Apenas conhecemos alguns fatores de risco predisponentes, mas há muitas pessoas com fatores de risco que nunca desenvolvem este tipo de cancro; pelo contrário, por vezes, a doença surge sem fatores de risco conhecidos, nem antecedentes familiares.

Os factores de risco mais importantes são os seguintes:

  • Envelhecimento (mais de 50 anos);
  • História de familiar de cancro da mama em idade jovem;
  • Mutações genéticas como BRCA1 ou BRCA2;
  • Aumento da densidade na mamografia;
  • Menarca precoce;
  • Menopausa tardia;
  • Nuliparidade (não ter tido filhos);
  • Primeira gravidez em idade avançada;
  • Hiperplasia lobular atípica ou hiperplasia ductal atípica;
  • Tratamento de longa duração com hormonoterapia de substituição;
  • Exposição precoce a radiação ionizante.

Tal como em outros tipos de cancro, conhecem-se vários fatores dependentes do nosso estilo de vida, que contribuem  para  aumentar o risco de cancro da mama e que deveremos combater. A saber:

  • Obesidade;
  • Vida sedentária;
  • Abuso de álcool: alguns estudos sugerem que a ingestão de mais do que 1-2 bebidas alcoólicas por dia aumenta o risco de cancro da mama ou recidiva tumoral pós tratamento;
  • Hábitos alimentares: é aconselhável comer mais legumes e frutos, em vez de alimentos à base de gorduras animais;
  • Exposição a altas doses de radiações ionizantes.

Young male doctor reassuring woman before mammography scanSINAIS E SINTOMAS

O cancro surge quando as células normais da mama sofrem alterações e crescem de forma descontrolada, dando origem a uma massa ou tumor maligno, que pode espalhar-se pelo corpo e atingir outros órgãos distantes do tumor primitivo, podendo conduzir à morte.

Com frequência na clínica, o diagnóstico de cancro da mama faz-se através da palpação de um nódulo ou empastamento mamário, quer pelo médico assistente quer pela própria mulher à autopalpação ou, ainda, pela detecção de uma pequena lesão mamária suspeita ou microcalcificações agrupadas numa eco/mamografia de rotina.

Mais raramente, as doentes podem apresentar “ab initio” sinais e sintomas de doença avançada (por exemplo, dores por envolvimento ósseo secundário).

Geralmente, nos estádios iniciais da doença não existem sintomas. Pode, no entanto, haver dor mamária recente, prurido ou corrimento mamilar, por vezes com sangue.

Os principais sinais e sintomas que nos devem alertar e levar a consultar o médico são:

  • Nódulos duros, heterogénios e /ou empastamento mamário ou das axilas;
  • Alterações no tamanho e forma da mama;
  • Dor e/ou corrimento mamilar, sobretudo se for unilateral e com sangue;
  • Inversão do mamilo;
  • Ulceração do mamilo;
  • Irritação da pele ou outras lesões cutâneas;
  • Mamas quentes, edemaciadas com sinais de inflamação (pele de casca-de-laranja);
  • Dor mamária persistente (mais raramente).

ABORDAGEM INTERDISCIPLINAR

O cancro da mama deve ser abordado de forma interdisciplinar, com a participação de vários especialistas: cirurgião, oncologista médico, anatomo-patologista, radiologista e radioterapeuta.

Após o diagnóstico de cancro da mama realizado por citologia aspirativa/microbiopsia, é importante confirmar o resultado histológico, marcadores prognósticos e receptores hormonais.

Os cancros da mama não são todos iguais. O tipo histológico mais frequente é o carcinoma ductal invasivo, que surge em 70-80% dos casos. Os tumores têm comportamentos e características biológicas diferentes que vão influenciar as diferentes opções terapêuticas, as quais devem ser discutidas com o doente, antes do início do tratamento.

Radiology technician looking at mammographyTERAPÊUTICA ADJUVANTE

A decisão de realizar uma terapêutica adjuvante deve ter em conta o estádio da doença, estado nodal e biologia tumoral. É importante conhecermos alguns factores biológicos, tais como: os receptores hormonais de estrogénio/progesterona, HER-2/neu, grau de diferenciação do tumor. A idade, comorbilidades, estado geral do doente e suas preferências também são importantes na tomada de decisões.

O ideal é diagnosticar e tratar o tumor o mais precocemente possível, permitindo uma cirurgia conservadora, menos mutilante e com melhor resultado estético. Em muitas situações, é necessário fazer radioterapia adjuvante após cirurgia, para diminuir a hipótese de surgir uma recidiva local, e também hormonoterapia e/ou quimioterapia antineoplásica, para prevenir a metastização à distância, isto é, a passagem de células malignas para outros órgãos nobres (ossos, pulmão, fígado, cérebro).

Os princípios gerais para indicação de uma terapêutica adjuvante incluem:

  • Doentes com receptores hormonais positivos (RE/RP) que deverão  efectuar tratamento antiestrogénico (por exemplo, tamoxifeno, inibidores da aromatase);
  • Doentes com HER2/neu + devem receber imunoterapia adjuvante com anticorpo monoclonal (por exemplo, trastuzumab);
  • A quimioterapia antineoplásica adjuvante está indicada nas seguintes situações:
  1. Doentes com receptores hormonais negativos;
  2. Triple negativas (receptores de estrogénio, progesterona e HER2/neu negativos);
  3. HER2/neu positivo;
  4. Gânglios positivos;
  5. Doentes com idade inferior a 35 anos.

Nos casos de doença avançada, em que há comprometimento de outros órgãos (fígado, pulmão, osso, cérebro), o objectivo do tratamento deve ser discutido com o doente, tendo em conta o estado geral, comorbilidades e toxicidades dos fármacos, uma vez que o tratamento é paliativo na maioria dos doentes e deve ter como objectivo primordial o controle dos sintomas e o conforto do doente. Este programa de tratamento poderá incluir quimioterapia antineoplásica, hormonoterapia, radioterapia paliativas, consoante a situação em causa.

Artigo publicado na Edição de Novembro 2014 (nº 244)

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