O burnout tornou-se um espelho cada vez mais comum de uma sociedade que não para, nem deixa parar. Um espelho que reflete não apenas o cansaço individual, mas o colapso de um modelo de vida que já não funciona.

Artigo da responsabilidade da Dra. Inês Costa Maia. Psiquiatra e psicoterapeuta

 

Nos últimos tempos, tenho visto chegar ao meu consultório um número crescente de pessoas, muitas em cargos exigentes, outras em contextos “aparentemente” estáveis, que estão completamente esgotadas. Falam-me de dias que parecem nunca acabar, de reuniões sucessivas, de metas inalcançáveis, de ambientes tóxicos, de uma sensação de “estar lá, mas noutro lugar ao mesmo tempo”. E, quase sempre, segue-se a mesma frase: “Não sei como me vou levantar amanhã.”

O burnout, que durante muito tempo foi visto como um problema “dos outros”, tornou-se um espelho cada vez mais comum de uma sociedade que não para, nem deixa parar. Um espelho que reflete não apenas o cansaço individual, mas o colapso de um modelo de vida que já não funciona.

MUITO PARA ALÉM DO CANSAÇO

É importante compreender que o burnout não é simplesmente “estar cansado”. É uma forma profunda de exaustão emocional, física e mental que resulta de um esforço prolongado, geralmente laboral, num contexto de exigência constante, ausência de descanso, desmotivação, falta de reconhecimento e crítica. É o corpo e a mente a desligarem-se porque já não conseguem sustentar um ritmo desenfreado.

A Organização Mundial da Saúde descreve o burnout como um fenómeno associado ao trabalho, mas não como uma doença mental. No entanto, na prática clínica, é evidente que esta fronteira é ténue: o burnout toca nas emoções, na identidade e no sentido de vida das pessoas. Quando alguém se sente “vazio”, “incapaz” ou “inútil”, já não estamos apenas a falar de gestão de tempo, estamos a falar de sofrimento humano e, em muitos casos, no fundo de até de uma depressão no sentido psiquiátrico.

O PARADOXO DO SUCESSO

Vivemos numa sociedade que exalta a produtividade e a performance, mas que silencia o cansaço. Trabalhar até à exaustão é frequentemente visto como uma prova de competência ou de ambição. A cultura do “sempre disponível”, potenciada pela tecnologia e pela hiperconectividade, fez com que o descanso passasse a ser quase um luxo, e o “desligar” quase um ato de desafio.

Há um paradoxo curioso: quanto mais nos esforçamos para corresponder às expetativas externas, mais nos afastamos de nós próprios. O burnout não surge apenas porque trabalhamos demais, mas porque trabalhamos sem sentido, sem pausa, e sem o reconhecimento humano que alimenta a motivação. É um esgotamento existencial disfarçado de rotina profissional.

UM PROBLEMA INDIVIDUAL COM RAÍZES ESTRUTURAIS

Ainda se tende a ver o burnout como uma falha pessoal, como se quem adoece fosse fraco ou incapaz de “lidar com o stress”. Essa visão é não só injusta, como perigosa. O burnout é, antes de mais, um sintoma de um sistema desequilibrado. As estruturas laborais contemporâneas, competitivas, inflexíveis e frequentemente desumanas, criam as condições perfeitas para o esgotamento. É como tentar encher um copo com uma racha no fundo: não importa o quanto se esforce, nunca será suficiente.

Muitas pessoas relatam que viveram condições de trabalho insuportáveis durante demasiado tempo, movidas pelo medo de falhar, perder o emprego ou desiludir os outros e a si mesmas. E quando finalmente param, a ausência assusta. O corpo para primeiro, mas a mente demora mais a acompanhar e reconhecer que necessita de parar.

NÚMEROS PREOCUPANTES

Na Europa Central, as taxas de burnout dispararam nos últimos anos. Na Alemanha, estima-se que as baixas médicas associadas ao burnout tenham aumentado mais de 50% na última década. Em Portugal, não temos números tão precisos, mas o padrão é semelhante: o aumento exponencial da exaustão e da desesperança relacionadas com o trabalho.

O problema é que continuamos a olhar para estes dados como exceções, e não como sinais de alarme. O burnout tornou-se o sintoma coletivo de uma época em que o “fazer” vale mais do que o “ser”. E enquanto a sociedade insiste em valorizar o ritmo, o corpo humano continua a exigir pausas.

O QUE ACONTECE QUANDO O CORPO DIZ “BASTA!”

Os sinais do burnout são progressivos e, por isso, muitas vezes passam despercebidos: irritabilidade, insónia, perda de energia, apatia, dificuldade de concentração, sensação de inutilidade. Aos poucos, a pessoa deixa de sentir prazer nas pequenas coisas; e o que antes a motivava, agora apenas pesa.

Em muitos dos casos que acompanho, o burnout manifesta-se como um silêncio interior: as pessoas descrevem uma ausência de emoções, como se tivessem ficado vazias por dentro. É um tipo de dor que, no seu silêncio, consome internamente.

O burnout costuma vir de fora para dentro, de uma estrutura que oprime, desgasta e não dá espaço para respirar.

Leia o artigo completo na edição de janeiro 2026 (nº 367)