Na tentativa de controlo das crises epiléticas têm sido obtidos nos últimos anos vários avanços terapêuticos, desde o desenvolvimento de novos fármacos, técnicas cirúrgicas, dietas específicas ou outras opções terapêuticas.
Artigo da responsabilidade do Dr. Nuno Canas. Neurologista e neurofisiologista clínico do Hospital Beatriz Ângelo, Loures; Centro de referência em epilepsias refratárias, ULSLO; Hospital da Luz Torres de Lisboa; e Presidente da Liga Portuguesa Contra a Epilepsia
As epilepsias são patologias caracterizadas por uma predisposição cerebral intrínseca para gerar crises epiléticas de forma recorrente e espontânea. As crises epiléticas podem assumir várias formas, desde as mais reconhecidas convulsões, até breves episódios de perturbação de consciência, fenómenos motores, sensitivos, alterações comportamentais ou sensoriais (visuais, auditivas, gustativas).
FREQUENTES E HETEROGÉNEAS
As epilepsias são uma das patologias neurológicas mais frequentes, estimando-se que afetem milhões de pessoas em todo o mundo e cerca de 1% a população portuguesa.
São também patologias muito heterogéneas, não somente devido aos vários tipos de crises epiléticas, como também devido às várias causas que podem ter, desde tumores cerebrais, malformações de desenvolvimento cortical cerebral, infeções do sistema nervoso central, causas genéticas ou imunológicas.
Esta heterogeneidade pode dificultar o diagnóstico, que continua a ser fundamentalmente clínico, podendo ser suportado pelo resultado de exames complementares de diagnóstico, com destaque para o eletroencefalograma ou exames de imagem, tais com a tomografia axial computorizada (TAC) ou ressonâncias magnéticas cerebrais.
FÁRMACOS ANTICRISES E EPILEPSIAS REFRATÁRIAS
Os fármacos anticrises epiléticas (FACE) constituem a base do tratamento das epilepsias, sendo o objetivo do tratamento a isenção de crises com o mínimo de efeitos secundários. Tal é possível em cerca de 70% dos doentes, desde que sejam respeitadas algumas regras de tratamento, nomeadamente a escolha de um FACE adequado para o tipo de epilepsia em causa.
Infelizmente, apesar dos cerca de 25 FACE atualmente disponíveis em Portugal, cerca de 30% dos doentes com epilepsia não têm as suas crises controladas com a associação de 2 ou mais FACE, tendo por isso consideradas epilepsias refratárias.
Na tentativa de controlo das crises nestes doentes têm sido obtidos nos últimos anos vários avanços terapêuticos, desde o desenvolvimento de novos FACE, técnicas cirúrgicas, dietas específicas ou outras opções terapêuticas.
ESTUDOS PROMISSORES
Os novos FACE têm sido desenvolvidos com base em novos mecanismos de ação, complementares aos dos fármacos mais antigos. Apesar dos resultados muito promissores nos ensaios clínicos, até agora não há evidência de que o panorama da refratariedade tenha sido alterado, ou seja, que a percentagem de doentes com epilepsias refratárias tenha sido substancialmente reduzida.
Apesar disto, existe a esperança de que os mais recentes FACE possam alterar este panorama, pelo que se assiste a uma grande investigação no desenvolvimento de novos FACE. Como exemplo, o cenobamato, o mais recente FACE Introduzido no mercado, tendo um duplo mecanismo de ação, demonstrou em ensais clínicos e estudos da vida real aumentar em cerca de 20% a percentagem de doentes livres de crises, o que efetivamente poderá constituir uma grande mudança no panorama da refratariedade tal como atualmente a conhecemos.
RECURSO À CIRURGIA
A cirurgia da epilepsia envolve um trabalho multidisciplinar entre várias especialidades médicas, tais como Neurologia, Neurofisiologia, Neurocirurgia, Neurorradiologia, Psiquiatria, Medicina Nuclear, entre outras. Devido à complexidade da avaliação cirúrgica, tal é efetuado em centros de referência em epilepsias refratárias, existindo cinco em Portugal: dois no Porto, um em Coimbra e outros dois em Lisboa. Nestes centros pretende-se avaliar se um doente com epilepsia refratária é um candidato a cirurgia da epilepsia e, se sim, que técnicas devem ser realizadas; e, se não o for, quais os passos seguintes a realizar na tentativa do controlo da sua epilepsia.
Para responder a estas questões é necessário a realização de vários exames complementares de diagnóstico, tais como ressonâncias magnéticas com elevada resolução, efetuadas com protocolos de epilepsias; monitorizações vídeo-EEG prolongadas em regime de internamento; exames de Medicina Nuclear, tais com PET ou SPECT; e avaliações neuropsicológicas e neuropsiquiátricas.
Leia o artigo completo na edição de fevereiro 2026 (nº 368)














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